segunda-feira, 1 de junho de 2009

ALCATRAZ, FUGA IMPOSSÍVEL (“Escape from Alcatraz”)


“O diretor Don Siegel é um caso raríssimo. Ao que lembramos assim de momento, o único na história do cinema que quarto de século após sua revelação – “Justiça Tardia” (“The Verdict”), Warner, 46 – após interregnos e filmes de algum ou nenhum interesse, reaparece e se firma com uma obra-prima absoluta, uma “reussite” até deslocada no contexto e na mediocridade estabelecida do ano (ou da década?) de sua realização: “O Estranho que nós Amamos” (“The Beguiled”) – Hollywood, 1971. É verdade que em 56 ele já havia obtido outro, mais pelo tema de “science fiction” – aqui no Brasil, praticamente impossível de ser aferido, pois à época de seu lançamento veio numa das mais típicas e sintomáticas cópias “hechitas en casa” – “Vampiros de Almas”. E, oito anos depois, fazia a refilmagem para a TV de um clássico de Siodmak, “Os Assassinos” (“The Killers”), tão apreciada que acabou adquirida para lançamento mundial nos cinemas de verdade. Agora de novo está Siegel de volta. É verdade que arcando com o peso da sociedade (compulsória desde o êxito da ajuda ou associação com o ator-produtor Clint Eastwood em “O Estranho”...). Mas talento é talento e sempre se poderá esperar algo do cineasta que aqui trata de misteriosa ou hipotética escapada dos únicos três convictos que talvez tenham conseguido fugir da ilha-presídio de Alcatraz, em seus 29 anos de sombrio funcionamento. Hoje, ‘Alcatraz”, fechada em 1963, está aberta à visitação turística desde 1973.”


Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 18/11/79.

A DAMA DO SEXO. É HORA DE SABER QUE SUA MULHER QUER SAIR DA ROTINA (?)


“Eis no que dá a ação quinta-coluna de certo tipo de crítica e teóricos paulistas quando, ao contrário dos cariocas, faz o que faz com São Paulo propiciando piadas como o último aborto na APCA. Com que motivação e com que respeito os financiadores, distribuidores ou exibidores paulistanos vão-se arriscar a programações mais límpidas se o escárneo e o apedrejamento é a regra para qualquer tentativa empenhada? Assim o monopólio do “sério” fica para o regional, o sestroso, o afro-sincrético que se perpetra além fronteiras de Queluz, onde está instalada a glória, o dinheiro fácil, a consagração pré-combinada, a sensação de poderio pela qual todos ficam alucinados. Com os filmes do Rio, jamais cariocas, baianos, mineiros, gaúchos e os Quislings paulistas se atrevem a falsas exigências como as que aqui nos fazem e que aliás lá na Guanabara seriam rebatidas da maneira mais “cangaceira” possível. Explicação mais viável: rivalidades pessoais, imediatismo, nenhuma afinidade, repulsa mesmo pelas fontes luso-cristão-européias que o cinema de São Paulo tem em essência. Manda pois a coerência – adorem uma fita como esta!”


Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 13/01/80.

GORDOS E MAGROS


“A última (foi exibida na quinta-feira) das co-produções da Embrafilme que sua distribuidora viu-se compelida a colocar por somente um dia no festival nacional do Cinesesc. Estréia do fotógrafo Mario Carneiro na direção. Na concepção e na pronta e prazerosa aceitação de tudo, os sempiternos demônios interiores da xenofobia e do maniqueísmo ideológico. Um mundo de gordos (ricos, burgueses, culpados) devora o gueto dos magros: os pobres, os desamparados, os ignorados, os humilhados e ofendidos, que nunca são aqueles que há 30 ou 15 anos vêm se beneficiando da imaturidade política e profilática que impera neste país. A crítica carioca afim, e a colonizada por ela, só poderia adorar e ver inteligência e carapuças geniais em tudo. Talvez veja mesmo – é a afinidade eletiva, o nivelamento cultural e de interesses, as amizades e inimizades, patota enfim. Ah! Como certos grupos nunca perdem seus vezos, certas tendências nunca são modificadas. Getúlio Vargas sempre disse lutar contra os males do perrepismo, que passaram por uma metempsicose para ele mesmo. O Brasil tanto falou contra o matreirismo pessedista que está ai, ainda vivo e redivivo como se nunca houvesse sido desmascarado.”


Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 06/04/80.

O PREÇO DE UMA VIDA (“Musukoyo”)


“Um menino (Ken Tanaka), filho único, é assassinado por um débil mental (Shinobu Otake). O pai, enlouquecido ante a impotência da justiça, procura, como na sentença bíblica, tomá-la em suas próprias mãos, inclusive para que o fato não se repita e outros pais venham a sofrer o mesmo. A fita ficou em quinto lugar entre as dez melhores de 1979, escolhidas pelo Kinema Junpô, a revista quase oficial do cinema japonês. O primeiro lugar coube a uma direção de Shohei Imamura, que assim voltou ao realce no cinema de sua terra. E, tanto numa como noutra, o ator considerado melhor foi Tomisaburo Wakayama, intérprete realmente excepcional, o mesmo das séries dos bonzo malandro e do renegado vingador e o qual, há mais de 10 anos, vimos apontando como uma espécie de Charles Laughton da melhor fase (anos 32 a 34), época do Nero de “O Sinal da Cruz”, do uxoricida de “Castigo do Céu”, do louco doutor Moreau de “A Ilha das Almas Selvagens”, o protagonista de “Os Amores de Henrique VIII” e o pai incestuoso de “A Família Barret”, quando ele ainda não tinha a total consciência, suficiência ou maneirismos de sua elogiada técnica teatral. Contudo, nesta fita japonesa duas más reaparições: a do diretor Kinoshita, sempre pretencioso mas pouco eficiente, e da “estrela” Hideko Takamine, invariavelmente desenxabida e estomagada. Nos demais papéis, os experientes Takahiro Tamura, que era galã no Shochiku e Sayuri Yoshinaga, uma das estrelinhas jovens da penúltima fase da Nikkatsu.”


Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 02/08/81.

É TRISTE SER HOMEM, 24ª época (“Otoko Wa Tsurayo-Haru no Yume”)


“Esta série do casadouro e sempre rejeitado caixeiro-viajante interpretado por Kiyoshi Atsumi e realizada por Yoji Yamada chega à vigésima quarta fita. Parece que já chegaram à trigésima e que a próxima deverá ser parcialmente “rodada” no Brasil. Esperemos que Yamada escolha para a namoradinha auri-verde do herói uma real, jovem e bonita atriz, e não alguma exagerada cantora de forró-turístico, senão o vexame será o habitual, sempre que chega algum desavisado (ou não tão ingênuo) cineasta de fora. Neste filme número 24, a ação se passa nos Estados Unidos e de lá foi mobilizado apenas um ator, o desconhecido Herb Edelson. A atriz que faz a irmã do protagonista é também Chieko Baisho, como sempre uma personalidade apagada, embora intérprete eficiente. E pela enésima vez está no elenco, num daqueles papéis de calmo e tranqüilo ancião que o consagraram, o veteraníssimo (e ainda vivo?) Chishu Ryu, o excepcional característico que era quase a projeção inconsciente, a imagem alter ego do falecido Yasujiro Ozu, talvez o mais representativo e clássico diretor de todo o cinema japonês.”


Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 27/12/81.

MAÇA (“The Apple”)


“Musical (dos EUA ou, talvez, de Israel), provavelmente desservido pela múltipla atuação do medíocre Menahem Golan. No entanto, o cenógrafo Jürgen Kiebach e a figurinista Ingrid Zoré são os mesmos e excepcionais de “Tiro de Misericórdia”. A ação gira em torno do poder do “rock” no ano de 1994. Não será um tanto prematuro, ou um tanto “ficção científica”, pensar que daqui a 13 anos o “rock” continuará mandando nesta verdadeira areia movediça em que se estão transformando a vida e a sociedade em nosso planeta? Bastará que alguém invente algum satânico dispositivo, tipo antigo rádio combinado com TV, mas sem necessitar estação transmissora e dependendo apenas de um dial maluco que capte imagens e sons que se estarão passando em qualquer local e hora sem precisar mais nada que algum cruzamento de tabelinhas e o mundo inteiro, “privacidade” (vá também lá a palavra pernóstica) alguma, segredo algum, esconderijos quaisquer, ficarão a salvo da devassa ou da bisbilhotice dos possíveis futuros seis, oito ou dez bilhões de seres à deriva que estarão saturando o planeta. Segundo a sinopse, “a época é 1994 e o mundo estará completamente louco. Essa loucura exterioriza-se principalmente através da música. Sua explosão maior acontece num festival de música transmitido mundialmente através de 99 canais dolby, que desencadeia uma verdadeira orgia de emoções e histeria. Pandi (Grace Kennedy) e Dandi (Allan Love) são os astros de rock do momento e apresentam seu último sucesso The Bim que está preparado para levar todos ao delírio. Nos bastidores estão Bogdalov (o horrível Vladek Sheybal), o diabólico promotor do festival e seu assistente Shake (Ray Shell), ocupadíssimo em manter o frenesi da música alucinante. De repente, algo sai errado. Dois novatos, Alphie (George Gilmour) e Bibi (Catherine Mary Stewart), entram no palco para defender a composição deles, concorrente no festival...”. O pior, ou o irônico é que com toda essa pretensão futurológica, desde o advento do sonoro em 1929, de certo modo, tal tipo de história e de “problemática” já foi feita e invectivada como “escapista e superficial”, pelo menos um milhar de vezes.”


Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 10/01/82.

CORPOS ARDENTES (“Body Heat”)


“Uma das poucas e gratas surpresas que o cinema de Hollywood tem podido nos dar nos últimos tempos. Esta primeira direção de Lawrence Kasdan. Como que o roteirista desse convencionalíssimo e ultra-comercial “Os Caçadores da Arca Perdida” e também dos incolores “Cuidado com meu Guarda Costas” e “Brincou com Fogo...Saiu Fisgado” pôde fazer um filme que, talvez mais que o “Chinatown”, de Polanski, reporta-nos ao melhor clima daquilo que os críticos franceses talvez com certa impropriedade chamam de o “cinema noir” americano? A crítica e folhetos dos EUA falam de semelhanças com “Pacto de Sangue”, “The Maltese Falcon”, “Sunset Boulevard”. Quanto aos dois primeiros, principalmente “Pacto”, a asserção é perfeita. A fita tem clima, tem um erotismo velado, agora não tão velado, aliás, mas poderoso; tem um tom de queda em pecado, de desafio ao abismo que lembra mesmo o melhor “elã” daqueles tempos em que Fred MacMurray, Humphrey Bogart, Dick Powell, Wendell Corey e outros viam-se emaranhados na selva de asfalto e alumínio, cristal e concreto que eram compelidos a enfrentar na vida americana da depressão e do sonho, da guerra e de seu perplexo tempo imediatamente após. Mas, mais que por Kasdan, “Body Heat” existe por via de um ator e personalidade singular: o William Hurt que já havíamos visto em “Testemunha Fatal” e “Viagens Alucinantes” e que, parecendo um álgido e longilíneo Gene Hackman, constitui a maior revelação do cinema norte-americano no último decênio. Um tipo de letão ou lituano, com uma vibração contida e um fogo de convicção, como Hollywood não parecia mais que poderia dar guarida.”


Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 06/06/82.

A MARCA DA PANTERA (“Cat People”)


“O pobre Val Lewton jamais poderia imaginar que, 40 anos depois, seria refilmado seu maravilhoso “Sangue de Pantera”, o filme de duração (73 minutos), orçamento, elenco, ficha técnica e apoio-B, com que ele iniciou sua hoje antológica série terrorífica de 11 obras-primas nos estúdios da RKO, de 1942 a 45 (o citado, mais “A Morta Viva”, “O Homem Leopardo”, “A Sétima Vítima”, “O Fantasma dos Mares”, “A Maldição do Sangue de Pantera”, “A Ilha dos Mortos”, “O Túmulo Vazio”, “Asilo Sinistro”, além de “Mademoiselle Fifi” e “Youth Runs Wild”). A série, praticamente descoberta pela crítica brasileira, que a princípio apressou-se atribuí-la ao diretor Jacques Tourneur, só porque isso lisonjeava seu anti-americanismo e sua francofilia, e o singular produtor, logo em meados de 43, a princípio “suspeitado” e imediatamente após (44) o denominador comum evidente com “A Maldição do...”, decididamente localizado por este crítico, seriam posteriormente (48/50), época de sua programação por nós feita no “Clube de Cinema de São Paulo”, que depois resultaria na “Cinemateca Brasileira” ridicularizados e atacados por outros críticos e facção dominante no “Clube”, então fanáticos só pela “europeice” e pelo “neo-realismo” (como será facílimo comprovar consultando os jornais da época), só há uns sete anos, com o livro que o estudioso americano Joe Siegel publicou na Inglaterra, é que viriam a ser mundialmente reconhecidos e definitivamente consagrados. “Sangue de Pantera” agora vem em Technicolor, 118 minutos, equipe extensa e dispendiosa (como atualmente é moda, dumping ou chantagem) e sob a direção do calvinista Paul Schrader (muito longe do humanismo e laicidade cultos de Lewton). Muito modificado, também, e trazendo Nastassia Kinski no papel que foi da então injustiçada Simone Simon e Malcolm McDowell transformando o médico ateu e conquistador de Tom Conway num irmão licantrópico e incestuoso. Vejamos, mesmo porque, como diz a nem sempre sábia sabedoria popular, não há como um dia depois de outro.”


Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 05/12/82.

sábado, 23 de maio de 2009

AS BRUXAS ("Le Streghe")


"Expoente de uma das muitas (embora curtas) fases áureas ou melhores porque atravessou cinema italiano depois da explosão (ou imposição?) "neo-realista": a fase dos espetáculos caprichados, com alguma consistência a mais e a servir de veículo para um "estrelismo", no caso de Silvana Mangano, já que o produtor era o seu então marido De Laurentiis. E falando em capricho ou requinte implica falar de Visconti, a quem pertence o primeiro e talvez melhor episódio, aquele no qual Silvana é uma famosa estrela de cinema, pré-fabricada, bela e invejada, mas profundamente infeliz em sua vida particular. Capricho também no segundo, do esteta Bolognini onde ela é uma milionária que atropela Sordi e só o conduz ao hospital para poder chegar mais cedo a um encontro amoroso. No terceiro, a "Terra Vista da Lua" é a insólita poesia crítica de Pasolini com a atriz como uma surda-muda e Totó e Ninetto Davoli, pai viúvo e filho camponeses, em algo reiterando a fábula quase necrófila do "La Donna Scimmia", de Marco Ferreri em 1963. No episódio de Franco Rossi ela é uma siciliana cujas lamúrias levam o pai a matar o namorado e a uma sucessão de "vendettas" que liquida todos os homens das duas famílias. E no quinto (de De Sica) Silvana é a esposa que almeja ter poderes de feiticeira a fim de reter o marido Clint Eastwood. Houve também um outro episódio, de Mario Monicelli, que foi eliminado da montagem final, repetindo o que já havia sucedido ao cineasta com seu trecho de "Bocaccio 70". A fita aqui foi originalmente lançada a 14 de agosto de 1969, no então recém-inaugurado Cine Palmela."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo", de 22/10/78.

sábado, 4 de abril de 2009

PIXOTE, A LEI DO MAIS FRACO


“Hector Babenco sabe como fazer filmes comerciais, com suficiente lastro e que, não só correspondem na bilheteria como também carreiam-lhe boa dose daquele apoio prévio, amplo, incondicional e irrestrito que só determinadas fitas nacionais conseguem ter neste nosso especifico ambiente de produção, promoção, exibição, consumo e criticismo cinematográfico. Apesar da “argentínica nostalgia” de “O Rei da Noite” era evidente (sobretudo no romântico-evocativo tratamento dado à figura de Dorothée-Marie Bouvier) que ele tinha domínio e condições para o êxito. Em “Lúcio Flávio” também, apesar da sombra de “facilidades” e de “oportunidade” excessivas, dadas pela fama do delegado Fleury. E, apesar do abuso intencional de “hokum” e violência, era também inegável o desafio equilibrista daquela seqüência pré-final quando o protagonista sonha que está sendo assassinado pelos companheiros de cela. Agora Babenco se envolve com um tema já trilhado com perigo por Anselmo Duarte e pelo narcisismo de Pelé em “Os Trombadinhas”. Mas, entre um elenco profissional, cujo denominador se pode também questionar, ele, a julgar pelo “trailler”, teve a sorte ou o cálculo exato de contar com um ator infantil que parece irá “pegar” como o menino Fernando Ramos da Silva.”.


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 21/09/80.

AS INTIMIDADES DE DUAS MULHERES, VERA E HELENA


“ “As intimidades de Analú e Fernanda”, “Sofia e Anita, Deliciosamente Impuras” e agora este “Vera e Helena”...Decididamente o quarto sexo está em ultra-voga no cinema nacional...Não seria, ou seria mesmo aquela voga com a qual durante tanto tempo sonharam e preconizaram e “batalharam” tantos teóricos que começaram em vilegiaturas em Paris e terminaram “levando” as novas gerações, via um chauvinismo e uma “conscientização” que só poderiam mesmo dar no que ora vemos. Acontece porém que em nosso inefável ambiente “cultural”, nem mesmo esses “levantamentos” escapam a derrapagens como dizem que a fita aqui tem, quando uma das “íntimas”, Vera ou Helena, ou seja Rossana ou Lamery, pergunta à outra “o que está pensando que ela é”, no mais puro estilo que faria a “pièce de resistence” das composições caipiras ao tempo do fastígio televisivo de Consuelo Leandro ou dos “les bons vieux temps” de Zezé Macedo nas chanchadas da Atlântida. Em tempo, Rossana andou ficando ótima atriz em papéis “à italiana” e a francesa Renée Casemart tem uma personalidade que merece ser melhor aproveitada.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 07/12/80.

OS DESEJOS DE UMA COLEGIAL DE 16 ANOS ("Sedicianni")

Ely Galleani


“Dezesseis anos! Como as ópticas mudam! Na primeira década do século, era a absurda Mary Pickford camponiamente apavorada com a ameaça de uma perigosa águia, ou então, pobrezinha e embasbacada ante uma vitrine que exibia “O Chapéu de Nova York”. Nos anos 20, a lindíssima Virginia Lee Corbin, heroína de conto de fadas, o máximo em jeune fille, verdadeira Cendrillon, a cujo apaixonado Georges Carpenter o mais que se permitia era tirá-la para a primeira dança ou beijar-lhe a mão. Em 1934 surge Anne Shirley, a “pequena da casa ao lado”, ainda com os problemas da orfandade, empenhada em cuidar do pai viúvo ou dos irmãozinhos desvalidos. Na década de 40, na Argentina, seu puritano cinema fazia o diabo para idealizar os conflitos de sensibilidade e candura de Maria Duval com Su Primer Baile ou de Martha Legrand recebendo de um admirador fictício Los Martes, Orquideas. Hoje, os 16 anos, pelo menos na tradução brasileira de título italiano, são vistos e analisados como esta mesma tradução deixa implícito.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 14/12/80.

O TESTAMENTO DO DR. MABUSE (“Das Testament des Dr. Mabuse”)


“O último filme que Fritz Lang fez na Alemanha, pouco antes da ascensão de Hitler ao poder. O tema girava em torno da volta, além túmulo, do arquicriminoso Dr. Mabuse, desta vez procurando dominar o mundo por meio do terrorismo. Mas com a nomeação de Goebbels para ministro da Propaganda, a fita, incoerentemente, foi interditada, sem que o cineasta soubesse e ao mesmo tempo em que o novo ministro o convidava para o cargo de diretor geral de todos os assuntos cinematográficos do país, no novo regime. Nessa mesma noite, ao que se diz, Lang fugia no expresso para Paris. Mas, de qualquer maneira, outro negativo (havia uma versão francesa do próprio Lang, interpretada pelo mesmo impressionante Klein-Rogge como o satânico Mabuse e os franceses Jim Gerald, Thomy Bourdelle, Karl Meixner, Monique Rolland, René Ferté e Ginette Gaubert) pôde ser retirado clandestinamente e foi então o que se utilizou para todo o mundo e o que aqui nos chegou a 3 de agosto de 1936, no extinto Cine Apolo. Lang, só em 58 voltaria à sua terra, onde dirigiu as duas épocas de “O Tigre da Índia” (“Das Indische Grabmal” e “Der Tiger Von Schnapur”) e, no ano seguinte, faria seu derradeiro filme, “Os Mil Olhos do Dr. Mabuse”, outra obra-prima absoluta e que teve umas três ou quatro continuações expressivamente concebidas e escritas mas infelizmente não mais confiadas à realização do Mestre que havia criado a série. Dia 27, porém, depois de passados quase 50 anos, finalmente poderemos conhecer a obra original, sobre cujo valor não resta a menor dúvida.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 21/06/81.

O BORDEL DOS PRAZERES DA SS NAZISTA (“Casa Privata perla SS”)


“Depois do atentado de julho de 1944, Hitler não confia mais na Wermacht. Daí esta decisão de se recrutar um especializado grupo de prostitutas para testar a fidelidade ao regime dos militares do alto escalão de sua famigerada tropa especial. Em verdade, mais do que qualquer análise do fenômeno nazista ou procura de maiores esclarecimentos sobre a ignorada resistência alemã, finalmente esmagada com o famoso atentado que Pabst tão bem abordou em “Aconteceu em 20 de julho” (“Es Geschah em 20 Juli”), seu antepenúltimo filme (realizado em 1955), uma clara e indisfarçada exploração sensacionalista de seqüências de sexo, crueldade e sangue.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 19/07/81.

A FILHA DE CALÍGULA


“A mesma e visível intenção tem esta produção “Rua do Triunfo”, a princípio imaginada pelo distribuidor Alexandre Adamiu (da Paris Filmes e Grupo Internacional Cinematográfico) e pelo produtor A. P. Galante para um filme que “capitalizaria” o prestígio engagé do diretor paulistano Francisco Ramalho, mas que afinal acabou sendo encampado pelo também exibidor-importador-distribuidor-produtor Magalhães Lucas (das empresas Sul-Paulista/Ouro e Urânio) numa fita-relâmpago que Galante começou e levou à primeira cópia censurada, ao que se diz em apenas 39 dias – um recorde brasileiro! A tônica inicial era aproveitar a notoriedade de escândalo e, logo a seguir, a absurda e inócua proibição e a tergiversação oficial com o desconversador caso das salas especiais provocados pelo filme ítalo-americano “Calígula”, de Bob Guccione e Tinto Brass. Mas como a empreitada poderia ter seus óbices, ao que parece, o realizador Fraga tentou sair talvez um pouco, e à moda da casa, pela procura da auto-sátira.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 19/07/81.

A DAMA DAS CAMÉLIAS (“La Vera Storia della Signora delle Camelie” – “La Dame aux Camelias”)


“Afã inútil. Desde 1936, no mínimo, desde o filme com Greta Garbo, já essa preocupação em justificar, em atualizar ou desmistificar a história de a Dama das Camélias. Aqui, tão procurada verdadeira tragédia de Alphonsine Du Plessis, que aliás não são tão poucas assim as pessoas mais ou menos alfabetizadas que desconhecem. Fonte de inspiração, legendas, isso mesmo. O importante é que esta versão de 1981 (italiana ou francesa?) é uma reunião de escolhas e colocação de nomes, figuras, prestígios e talentos que fascina. Quando, um décimo dos cineastas e críticos de nosso ambiente, estarão naturalmente aptos a justamente avaliar e se deixar fascinar por procedimentos afins, que são, aliás, o que fez a grandeza e a mítica de Hollywood, do cinema expressionista alemão e dos melhores momentos de todo o cinema mundial, do movimento internacional de teatro, ópera e tudo o mais? Aqui, a maravilhosa Isabelle Huppert de La Dentellière é a heroína, Volonté é seu desconhecido e miserando pai e o extraordinário Bruno Ganz de “Nosferatu” e “O Amigo Americano”, o conde que a protege e intimida. Na ambientação, Garbuglia; nos figurinos, Piero Tosi. No colorido, o verdadeiro Technicolor. Ainda no elenco, a ballerina Carla Fracci, que foi Mme. Karsavina em “Nijinski”. E coroando tudo, o gosto refinado de Bolognini. Um fascínio, sem dúvida.”

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 09/08/81.

A NOITE DAS DEPRAVADAS


“O mais recente filme de Juan Bajon, jovem diretor sino-brasileiro cuja tônica preferida é o acicate cáustico a usos e costumes de uma época e uma ambientação com a que diariamente vemos em nossos ambientes, o mais encontradiço e trivial. Desta vez, temos a trajetória de um rapaz que vem do interior de Minas à nossa Capital para, inevitavelmente , trilhar o caminho de um “gueixa boy”. O papel havia sido escrito especialmente para José Lucas, mas um acidente sofrido pelo ótimo galã obrigou sua substituição por João Francisco Garcia, o também jovem ator e tipo que contracenou com Sandra Bréa em “Os Imorais”, o melhor filme de Geraldo Vietri. A fotografia como das duas fitas anteriores (“O Estrangulador de Mulheres”, “Colegiais e Lições de Sexo”) novamente é de Antonio Ciambra. No elenco, Márcia Fraga, Ana Maria Kreisler, a nissei Misaki Tanaka, o veterano Sergio Hingst, Hilton Have (como um “travesti”) e o cada vez mais importante Arthur Rovedeer.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 20/09/81.

WILLIE E PHIL (“Willie & Phil”)


“Willie & Phil”, de Mazursky, é soberbo e, de longe, o melhor filme de 1980. Assim, em agosto ainda não acabado o ano, se manifestava o crítico Richard Gertner no Motion Picture Herald sobre este novo filme do diretor de “Harry e seu Amigo Tonto” e “Uma Mulher Descasada”, reforçando ainda seu entusiasmo na classificação de “Excelente”. Realmente, Mazursky merece, pois é o diretor dotado de mais visão de conjunto, mais capacidade de realismo, poesia, maturidade e integridade narrativa da Hollywood atual. É certo que seu filme de estréia, “Bob e Carol & Ted e Alice” não nos impressionou, talvez devido ao fraco elenco, mas a humanidade de seu filme sobre o velho e seu gato e a precisão e força de observação humana de “Uma Mulher Descasada” dão-lhe realmente, de longe, um lugar ímpar na atual e tão deteriorada produção de Hollywood. Aqui podemos discordar da homenagem a Truffaut e à desnecessária emulação feita a “Jules et Jim”, podemos não gostar do duo central de atores (sobretudo de Ray Sharkey, que faz o amigo italiano), podemos, mais uma vez, nos horrorizar com a feiúra e a pouca simpatia de Margot Kidder (ainda mais em confronto com Jeanne Moreau, que era quem “justificava” aquele filme francês). Mas não podemos deixar de apreciar o domínio cinemático e o forte teor de estilo que há no trabalho de Mazursky.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 27/09/81.

MULHER OBJETO


"Empenho à maneira da velha, auto-suficiente e tirânica formulação que a Cinedistri herdou da antiga Cinédia, da Cinelândia Filmes de Alípio & Eurides Ramos, do “espírito” das revistas da praça Tiradentes, dos vícios até hoje remanescentes nos nossos rádio, teatro, circo, “show business”, jornalismo “ameno” e esportivo e todo esse “melting pot” que hoje é o forte da “qualidade telenovelística global”. Segundo o diretor Silvio de Abreu esta é já a segunda ou terceira vez que ele busca a sofisticação que amava nas fitas de Carole Lombard. Mas a tarefa é ingente, pois Carole tinha como estúdio a Paramount, como produtor o Selznick de “E o Vento Levou”, como roteiristas Claude Binyon, Garson Kanin, Charles MacArthur & Bem Hecht, como diretores Lubitsch, William K. Howard, Hawks, Leisen, John Cromwell, Kanin, George Stevens, como antagonista Kay Francis, Dorothy Lamour, Gail Patrick, Alice Brady, Una Merkel, a maravilhosa mexicana Margo, como galãs Gary Cooper, Fredric March, Charles Laughton, William Powell, Robert Montgomery, Fernand Gravey, John Barrymore, Fred MacMurray. E Silvio teve que se haver com o empertigamento de Helena Ramos, o tipo incrível de Nuno Leal Maia, a afetação de Maria Lucia Dahl, o televisivo de Yara Amaral. Há, é certo, gente de cinema como a falecida batalhadora Lola Brah, mais Carlos Koppa, Renée Casemart, os jovens galãs José Lucas e Fabio Villalonga, porém restritos a papéis ínfimos. E a fita, em verdade, seria mais “Homens Objeto”, pois a frustrada (?) protagonista, tal nova “Dama do Lotação”, não faz mais que se imaginar em maratonas sexuais com todos os homens que lhe chegam a vista, até mesmo o bestial encanador interpretado por Orlando de Barros.”

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 27/09/81.