sexta-feira, 13 de agosto de 2010

MEUS HOMENS, MEUS AMORES

“Tentativa para criar um estrelismo cinematográfico com a cantora Rosemary. Debalde. E reforçando com mais um papel forte para Silvia Salgado, a falada “Pombinha” de “O Cortiço”. Aqui Rosemary, como “Carrie, a Estranha” foi reprimida por uma mãe moralista e fanática religiosa (Bárbara Fazio, que aliás não tem tipo nem idade para parecer mãe de Rosemary). Silvia, ao contrário, pode viver uma vida livre do eufemismo “moça de nosso tempo”. Rosemary transfere suas neuroses para a pintura e cai presa fácil de John Herbert. Silvia depois de tudo consegue um marido “machista”, mais velho do que ela (Roberto Maia). Ambas, que moram no mesmo prédio de apartamentos, têm seus caminhos cruzados mas não se conhecem, acabam tomando uma mesma drástica decisão: eliminam os porcos chauvinistas de suas vidas ansiosas por uma “plena libertação, uma total auto-realização”. Em tempo: de José Miziara era o mais normal episódio daquele malogro que foi a estreia de Silvio Santos como produtor – “Ninguém Segura essas Mulheres”. E a mão de Carlão Reichenbach como iluminador e câmera sempre constitui dado positivo.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 25/02/79.


AS BORBOLETAS TAMBÉM AMAM

“Volta ao gênero “não cômico” o maior artesão de nosso cinema, o iugoslavo J. B. Tanko que nos começos da década de 50 era o mais empenhado realizador do Rio, com filmes como “Areias Ardentes”, “A Outra Face do Homem” e até mesmo as “chanchadas” “Metido a Bacana” e “Sai de Baixo”. Só que volta não ao grande drama propriamente dito. Mas, a julgar pela sinopse, ao sensacionalismo e acúmulo folhetinesco e improvável de taras e desgraças de certas intrigas de Nelson Rodrigues, como “Os Sete Gatinhos”, “Toda Nudez Será Castigada”, “O Casamento”, “A Dama do Lotação” etc. Cumpre porém sempre esperar o melhor de Tanko como perfeito manipulador da imagem. Mais uma vez associando-se a produção, o ator Paulo Porto reservou para si um personagem para o qual não possui nem o “esprit” nem o “physique du role”. Mas uma Rossana Ghessa muito melhorada e o sensualismo cinemático ultimamente adquirido pelo tipo de Neila Tavares deverão garantir o elenco.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 20/05/79.


BRAÇOS CRUZADOS, MÁQUINAS PARADAS


“Indo ao Belas Artes-Portinari para ver “Providence”, recebemos na calçada um volante sobre este filme. Filme mesmo? Rodado quando? E em que bitola? Segundo o mesmo folheto, ele trata do seguinte: “greves de maio, as eleições para o sindicato dos metalúrgicos de São Paulo e as fraudes, Joaquim Andrade, a oposição sindical e as comissões de fábrica, o ministro do trabalho e a estrutura sindical estão neste documentário sobre a luta do movimento operário durante o ano de 1978”. “Não Perca!”. “Este é um filme importante porque mostra a experiência vivida por nós trabalhadores nas nossas lutas de 1978. (Zé Pedro – oposição sind. Met.)”. “Um dos únicos filmes antigetulistas (?) feitos pelo cinema brasileiro. (Jean-Claude Bernardet (?) – crítico de cinema).”. “Documento da história política da classe operária (Otávio Ianni – sociólogo)”. Transcrevemos literalmente. Só as interrogações são nossas e apenas por lembrar as preocupações e os primeiros artigos do crítico sobre “Les Dames du Bois de Boulogne”, “Les Amants” e “Europa de Noite”.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 27/05/79.


RUBY, AMANTE DIABÓLICA ("Ruby")

“Em “Carrie, a Estranha”, um incongruente papel de mãe fanática religiosa, sexualmente reprimida, moralista, e ao mesmo tempo de aparência “hippi”. Mas uma aparição de sucesso. E eis Piper Laurie, a antiga estrelinha adolescente das fantasias orientais da Universal dos 50, novamente de volta em mais uma composição forte nesta história de uma mulher que obsessivamente vai eliminando os que, tempos antes, assassinaram seu amante. A crítica habitual não se entusiasmou com o lado mais convencional ou melodrama da intriga – na certa queria na tela o monolitismo dos problemas sócio-coletivos com os quais em absoluto quer qualquer coisa na vida real. Mas o filme, dirigido por Curtis Harrington, o exegeta de Josef Von Sternberg e também realizador de “O Terceiro Tiro”, “Obsessão Sinistra” e outros na TV, ao que parece é de encenação cuidada. Verifique-se.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 24/06/79.


ÓDIO

“Um filme que talvez diga o suficiente do sopro de morte e do tremendo tufão de mercantilismo e mediocridade que assolam o nosso atual ambiente de cinema. Realização de Carlo Mossy, o ator que narcisisticamente Antonio Carlos Fontoura lançou em “Copacabana Me Engana” e que, contrariando as “esperanças” cinemanovistas revelou-se um declarado cultor da pornochanchada à carioca (“Com as Calças na Mão”, “O Massagista de Mulheres”, “Safadas e Gostosas”, etc.) e que, sintomaticamente, por não pertencer explicitamente ao mesmo subgênero, foi marcada pelos exibidores e ficou mofando desde seu lançamento no Rio (agosto de 77) nas já tão abarrotadas prateleiras da inefável “Embrafilme”. A trama-base é aquela que já foi utilizada por Archie Mayo em 36 (“A Floresta Petrificada”) e por Wyler em 54 (“Horas de Desespero”) e aqui no Brasil também por Alfredo Sternheim (“Paixão na Praia”, 71) e por Antonio Calmon (o mais recente “Paranóia”). Ou seja, bandidos invadem um estabelecimento ou uma residência, aterrorizam e mantêm impotentes seus ocupantes ou moradores.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 08/07/79.


O GUARANI

“Fauzi Mansur tem em seu ativo filmes com o capricho ou o realismo “noir” de “Sinal Vermelho – As Fêmeas” ou “A Noite dos Imbecis”. Mas, atendendo a atual voga “chauvinista-comercial”, criada aliás pelas tartufices cinemanovistas, chega-nos agora com mais esta versão do – em termos nacionais – muito filmado romance de Alencar, com todo seu romantismo desbragado e nem sempre coerente com as próprias idealizações a que se propôs (estamos falando do livro, já que ainda não vimos o filme). Este aliás foi o que mais esforço exigiu do diretor-produtor, o que lhe demandou mais tempo e mais exaustiva preparação. Estava, aliás, ao que parece, nas cogitações de Glauber Rocha. Talvez por “boutade”. Mas quem o levou a efeito foi Mansur que, para o papel de Ceci, tinha o que depois da proeza solitária em “O Rei da Noite”, era a intérprete ideal – Dorothée-Marie Bouvier. Ela, entretanto, a julgar pelas fotos, foi tratada, penteada e vestida como se fosse Dorothy Leirner, um outro estilo de personagem e de interpretação. No elenco, porém, entre colocações e contigências típicas do atual cinema nacional, e a julgar igualmente pelas fotos, outras adequações ou expressões como Luigi Picchi, Flavio Portho, parece que até Jofre Soares e, sobretudo, uma breve intervenção de Paulo Domingues que, com o bom uso de sua máscara pesada e expressiva, chega até a lembrar o “fácies” de Bruno S., o excepcional protagonista de “O Enigma de Kaspar Hauser”.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 29/07/79.


AMANTES DO MEIO DO MUNDO ("Le Milieu du Monde")

“Será que o nosso mercado exibidor (e mercado é bem a palavra) tem alguma possibilidade de regeneração? Pois em 10 dias uma mesma distribuidora (Ouro) e um mesmo circuito (Sul-Paulista) colocam na praça uma raridade – fita suíça. Por coincidência, devida ao mesmo realizador (o elogiado Alain Tanner) da outra (“Jonas, que Terá 25 Anos no Ano 2000”, em lançamento no Paulistano). O cinema suíço como não poderia deixar de ser, nestas suas co-produções com a França sofre influência do cinema vizinho, do melhor, diga-se de passagem. A ação se passa em Ellgoz, um ponto de referência geográfica entre o sul e o norte da Europa e gira em torno da candidatura de um apolítico (o francês Philippe Leotard) para as próximas eleições legislativas da comarca e seu romance ilícito com uma garçonete italiana (Olímpia Carlisi). Política e moralismo entram em choque, facultando um apanhado, ao que parece muito precisa e meticulosamente suíço de uma situação e uma sociedade.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 05/08/79.


A MONTANHA DOS CANIBAIS ("Mountain of the Cannibal God")

“Ursula Andress no papel de uma linda jovem (ou de uma determinada balzaqueana?) que tudo faz para participar de uma expedição às selvas da Nova Guiné, a fim de encontrar o pai. Cedo, porém, descobre que os demais como, aliás, também seu pai, estavam interessados mais num tesouro perdido ou numa não localizada mina de urânio. E a narrativa, como depois dos paradigmas fatalistas de “O Tesouro de Sierra Madre” ou “O Segredo das Jóias”, só pode terminar com a frustração dos ambiciosos. Crocodilos, iguanas, canibais, mil perigos como no “cinema de aventuras delirantes” da década de 30 sobre a África. Surpreendentemente a revista francesa “L’Ecran”, apesar do diretor ser Alberto De Martino, gostou da fita considerando-a “une veritable fête fantastique” e até faz referência a um William Witney que talvez seja o mesmo cineasta dos “westerns-C” da Republic que descobrimos e elogiávamos há uns 30 anos e que aqui era motivo de hidrofóbica reação por policialismo “engagé” da crítica e cineclubismo brasileiros à época.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 05/08/79.


SE NÃO ME MATO, MORRO ("The End")

“Humor negro à 1978/79, ou seja, com Burt Reynolds (em sua segunda tentativa como diretor) no papel de um homem que, ao saber que tem pouco tempo de vida, procura antecipar-se ao talvez, doloroso fim. Mas tanto fracassa em todas as suas tentativas que resolve desistir. Eis senão quando um maníaco de origem polonesa (o inadequado e cacetíssimo Don de Louise) cisma de liquidar o agora apavorado herói. Brincadeiras por brincadeiras com a morte, será que esta poderá ser tão efetiva e inventiva quanto a que em 1937/38 foi feita por Carole Lombard em “Nada é Sagrado”, quando ela a princípio supondo mesmo ter sido contaminada pelo “radium” e depois, já sabendo que não mais iria morrer, expertamente procurava bancar a moderna mártir da ciência a fim de, por 15 dias, fugir à mediocridade de sua cidadezinha, aproveitando os 15 dias de glória e estada paga oferecidos por um jornal sensacionalista na então mundialmente mítica Nova York. E por falar em Carole, o mais certo é que a fita atual valha principalmente pela breve intervenção que nela tem a veterana Myrna Loy que ainda em seu antepenúltimo filme “Paixões Desesperadas” (“From the Terrace”), estava soberba como a mãe alcoólatra e ressentida de Paul Newman.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 12/08/79.

ALIEN, O OITAVO PASSAGEIRO ("Alien")

“Depois do “específico” “Guerra nas Estrelas” a Fox não poderia deixar de tentar outro enorme êxito garantido. E o conseguiu. Este filme que foi dirigido pelo mesmo Ridley Scott do caprichado “Os Duelistas”, mas também teria sido o mesmo se o diretor não caprichasse visualmente, visto que desde há muito que ninguém se preocupa com certas superadas questões de cinema. Epítome de varias obras anteriores do gênero. De “Os Niebelungos” e “Metrópolis” a “2001” e “Destino à Lua”. Efeitos de som à Val Lewton, mas sem o universo de Lewton. E por aí. Até aí nada de mais, porque não há certos direitos autorais. O grave é a acachapante e inócua mobilização de riqueza material e técnica. E, mais que isso, o fato desta ser a primeira fita que parece ditada por especialistas fílmicas do “Women’s Lib” de Betty Friedan, com pitadas ao gosto do “Gay Power”. Veja-se por exemplo a estrela Sigourney Weaver que, como parece convir muito agora, tem nome de homem em arte e no papel: ela aqui é o comandante Ripley; o vilão é um falso homem, um homem-robô e o mocinho, que não derrota o monstro, é chamado por Dallas e atende às ordens de uma “Mother” (computador). Jane Fonda fez mais escola do que jamais esperaria. E muito mais poderá ser observado.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 19/08/79.

A TABERNA DO INFERNO ("Paradise Alley")

“Sylvester Stallone continua podendo fazer impunemente o que, antes dele, a maioria dos grandes talentos que passaram pela indústria do cinema – caso que não é o seu – jamais conseguirão. Ou seja, fazer o que antes só era possível para os execrados ditadores dos grandes estúdios na fase superáurea: criar um “astro”, forjar ou impor um diretor. Nem Orson Welles logrou furar o bloqueio, romper o sistema. Stallone, porém, beneficia-se (?) dos percalços da época que aí está. Desta vez, depois de “Rocky, um Lutador” e de “F.I.S.T.”, ele ataca de novo. E, como lhe convém (será?), situa a ação no baixo mundo, desta vez na notória “Cozinha do Inferno” do Bronx novaiorquino. Mas surpreendentemente o elemento “deflagrador” aqui não é ele mas sim o ator que interpreta seu irmão (Lee Canalito), um grandalhão e gentil, predestinado à triste trajetória dos boxeadores. A avaliar com cautela.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 19/08/79.


NA VIOLÊNCIA DO SEXO

“O que houve foi luta, ou imposição desastrosa, pretensão atrevida, patética demonstração de luta pela auto-subsistência de gente que abraçou a carreira por equívoco? Porque, a julgar pelos resultados...Mais uma consternadora demonstração de “cinema” nacional. Pelas barbas do Profeta, o que o erotismo ou a sensualidade humana tem a ver com isto? As frases de publicidade do folheto são tão “edificantes” que até mereceriam uma transcrição. No dia do casamento, noivo (o inacreditável Edgar Franco), ao chegar à porta de casa com o carro é surpreendido por quatro bandidos que o subjugam e obrigam a presenciar a curra que fazem com a esposa (Novani Novakoski, ou Novany Novakovsky, tão bonitinha coitada, que até parece a Anne Baxter dos primeiros tempos). Depois, a sede de vingança, a louca procura. Até que um dos assaltantes (Ewerton Castro, judiado), julgando-se prejudicado pelos companheiros vem se insinuar junto a Edgar para também tirar sua desforra.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 09/09/79.

O PREÇO DO PRAZER (ONDE ANDAM NOSSOS FILHOS?)


“Até a grafia dos nomes em letreiros, cartazes, anúncios e o que mais exista, muda a cada “meio de divulgação”, indicando, no mínimo, a mais absoluta falta de sofisticação, para não dizer outra coisa. Assim é o cinema “boca do lixo”, paulista ou carioca, tanto faz. Moralismo, incipiência, total senso de “oportunidade”, apelação direta para os mais auto-conflitantes ingredientes. Dois adolescentes classe média, de uma pureza pouco encontrável nos dias de hoje, conhecem e se envolvem com um casal da alta sociedade que é o próprio vício e prostituição física e moral encarnados, mais um figurão homossexual inescrupulosíssimo, etc. Maniqueísmo, ouvir cantar-se o galo sem saber onde ou como, etc., etc. Tudo vale, até recorrer-se a éticas máximas e advertências de um esquerdismo bem antiga porta de fórmica do interior.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 09/09/79.


SONATA DE OUTONO ("Höstsonaten")

“O Paramount 1 (147 lugares) vai ser o novo “cinema de arte” da empresa Haway, em substituição ao “Marachá-Augusta” e Vitrine? Esperamos...Em todo o caso, começa de maneira importante, com este esperadíssimo filme em que Bergman-Ingmar dirigiu sua compatriota Bergman-Ingrid. Certo, um Bergman de alto nível, mas...mas que nos faz pensar ser mesmo melhor que ele não tenha, como durante muito tempo o mundo almejou, cumprido de seu dever de fazer filmes para, além de Ingrid, outras suecas como Viveca e como a Garbo. Porque, assim de momento, o menos que se pode dizer é que Ingmar transformou Ingrid em coadjuvante de Liv Ullmannn. Vale dizer – ainda não renunciou ao gregarismo egocêntrico, narcisista, cômodo e temeroso. E enquanto continuar enxergando em seu pai presbiteriano a reencarnação dolorosa do reverendo Bronte...”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 28/10/79.


domingo, 9 de maio de 2010

SANSÃO E DALILA ("Samson and Delilah")

“Nova exibição do antepenúltimo “superépico” de Cecil B. de Mille, o cineasta que burlou o “Hays Office” e prosseguiu na sua linha de espetáculos essencialmente profanos (como os que fazia no início dos anos 20, principalmente com Gloria Swanson, ou como a fantasia “Madame Satan”, que ele fez para a Metro em 1930) utilizando temas aparentemente bíblicos ou históricos – como os de “O Sinal da Cruz”, “Cleópatra”, “As Cruzadas”, “Os Dez Mandamentos”, etc. Mais intencionalmente “kitsch” ou mais eficiente golpe que usar para os papéis de Sansão e Dalila os “estrelismos” ‘pin-up” de Victor Mature e Hedy Lamarr não poderia haver. E assim vai todo o filme, que aqui foi originalmente lançado no primeiro quadrimestre de 1951, no circuito Art Palácio e Opera, ano depois foi repetido e, a 27 de agosto de 1962, voltou ao cartaz nos cines Paissandu e Astor.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 09/03/80.


CINZAS NO PARAÍSO ("Days Of Heaven")

“Com “Terra de Ninguém” (“Badlands”), Terrence Malick surpreendeu, apresentando uma obra, embora diversa, quase ou tão importante quanto o “Cidade das Ilusões” (“Fat City”), de John Huston. Agora temos o segundo filme do cineasta formado em Oxford e Harvard, este “Days of Heaven” que conquistou um prêmio de direção no festival de Cannes e o “Oscar” de fotografia para o franco-espanhol Nestor Almendros. A ação se passa no período anterior à entrada dos Estados Unidos na I Guerra Mundial e tem como motivo e “background” as migrações dos trabalhadores do norte para as fazendas do Sul, à chegada do verão. Alguma coisa de “Vinhas da ira”, algo de “O Pão Nosso” de King Vidor, algo do citado filme de Huston e muito do “Badlands” do próprio Malick. Sobretudo, ao que dziem, visão pessoal, rebeldia e poesia. Uma poesia sem a qual dificilmente há cinema. A ver, claro.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 09/03/80.


KRAMER X KRAMER ("Kramer Vs. Kramer")

“Não foram só os ditadores ou os demagogos tipo Perón, Poujade, Getúlio, Ademar que descobriram que lábias popularescas rendiam dividendos. Ou a lição pegou, ou o mundo já estava não “maduro para o socialismo” e sim para a “enganação”, ou, então, os cínicos e carreiristas ante a “dialética vigente” ou as “condições históricas de nosso tempo” automaticamente perceberam que é muito fácil nesta triste época fazer do “engajamento” e da “não alienação” um excelente meio de vida, de empreguismo, de gazuas para as sinecuras, as mordomias, o brilho “vedetístico” de toda espécie. E numa época assim em que tanto se deturpa, tanto se finge, tantos lobos colocam as roupas e os óculos da avózinha, mais que por seus méritos cinemáticos é importante verificar que o cinema já não tem mais medo de voltar a fazer fitas como esta: apenas mais uma história sentimental que torna a acionar a velha trama de “O Campeão”, de 31, com Wallace Beery, Irene Rich e Jackie Cooper, na qual marido e mulher, separados, disputam o filho de sete ou oito anos. As roupagens e certos usos e diálogos, ou melhor, certas aparências e frases feitas são do malfadado tipo “estou em consonância com a minha época”, etc. Mas o conflito básico é mesmo aquele, a que, aliás, ainda neste ano, Franco Zefirelli igualmente tornou a usar na versão com Jon Voight, Faye Dunaway e o menino Ricky Schroeder. Este “Kramer...” já recebeu 12 prêmios entre a imprensa estrangeira em Hollywood e os críticos de Nova York e Los Angeles. E está fortemente cotado para nove “Oscars”, dos quais o mais merecido é o que indica como coadjuvante (aliás deveria ser como atriz) Meryl Streep, realmente uma personalidade, uma ductibilidade e uma figura de classe, entre tanta gente no cinema atual completamente destituída disso tudo. Só por ela o filme que parece vai iniciar nova e importante fase lançadora no Cine Metrópole, já deve ser visto.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 30/03/80.


O CAVALEIRO ELÉTRICO ("The Electric Horseman")

“Quem Jane Fonda pensa que é? Gian Maria Volonté? Talvez ela bem que gostasse, mas acontece que não será com filmes como “Julia”, “Síndrome da China”, “Amargo Regresso”, “Comes a Horseman”, que poderá emular as façanhas de Volonté em “Condenado Pela Máfia”, “Investigação sobre um Cidadão...”, “Mattei”, “Sacco e Vanzetti”, a “Classe Operária vai...”, etc. Ademais, em matéria de tipo “suffragette”, o mundo dificilmente poderá ter outro impacto como o dado pelo surgimento de Katharine Hepburn nos anos 32/35. Em matéria de bastidores de rodeio” também ninguém poderá igualar o “Céu de Prata”, de Norman Foster em 52, ou a consciente rebeldia de Susan Hayward em “Paixão de Bravos”, no mesmo ano. Ademais quem é que poderá levar por demais a sério o fato de o também discutível Robert Redford viver de brilharecos como garoto-propaganda com uma roupa vermelha com luzes que apagam e acendem? E com Jane, mais uma vez vivendo essas pernósticas e ocas figuras de microfone em riste, apenas preocupadas com o “Ibope” e a “notícia” (isto é com seu rendoso emprego) e mais sinistras intelectualmente que qualquer carrasco ou guardião de campo de concentração? Não Jane, é melhor voltar a ser apenas mulher vulnerável como a de “A Noite dos Desesperados”, que lá é que é o seu lugar. E não obrigue ou induza mais o diretor Pollack a falsas cavalarias.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 29/06/80.


OS HOMENS QUE EU TIVE

“Liberação feminina por influência do pseudo vanguardismo de certos cursos universitários, das pregações stalinistas de nossas escolas e “clubes de cinema”, e também da convivência, do universo “boca do lixo” de sete ou oito anos atrás. Em verdade, uma dessas obras pseudo-amplas, que mais contribuem para desencadear as iras das censuras contra o que eventualmente se tentasse de sério, observado e fundamentado no gênero. O papel foi escrito para Leila Diniz, mas com a morte desta confiada à interpretação de Darlene Glória, que, com seu tipo mais pesado e passional, deixou ainda mais problemática a personagem. E essa personagem “ideal” é uma mulher casada que se comporta como homem, que faz o marido aceitar o amante dela em casa, já que este “ficará sempre em segundo plano”. Mas que não satisfeita com isso, leva a sua liberação a uma “franqueza” impossível mesmo para o homem da sociedade vigente. E, o pior, a intriga parece uma contrafação muito “campus”, muito badernas da época, de “L’Harem”, o filme que Marco Ferreri realizou na Itália em 67, com Carrol Baker como uma mulher compulsivamente desafiadora e egocêntrica que compele cinco homens (Renato Salvatori, Gastone Moschin, Thomas Milian, etc.) a aceitarem um “ménage” simultâneo. Mas eles não suportam as pressões e os antagonismos da experiência e o resultado é trágico. Claro, no filme de Ferreri há toda outra densidade de propósitos, há exatidão de observação humana, coerência dramática, possibilidade de discussão e exame em outro nível.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 10/08/80.


ELE, ELA, QUEM?

“Se grandes diretores italianos como Antonioni, Vancini, Lattuada ou Zurlini, por acaso tivessem nascido no Brasil, ou em São Paulo mais especificamente (como por pouco não aconteceu com o ator Renato Salvatori), seria bastante provável que os dirigentes da Embrafilme intencional e deliberadamente os mantivessem na lista negra dos “não financiáveis” da empresa. Mas, quando à testa de sua diretoria, Roberto Farias não esqueceu de dar oportunidade a Luiz de Barros, claro que levando em conta sua “longa folha de serviços”. E aqui está o resultado dessa visão cinemática “sui generis” dos arremedos de Erich Pommer, Samuel Goldwyn, Irving Thalberg ou Val Lewton que temos por aqui. Na história “selecionada”, moça um tanto estranha, após a necessária intervenção cirúrgica, acaba se transformando em homem e casando com sua melhor amiga de colégio.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 26/10/80.

OS OITO TÚMULOS ("Yatasuhaka Mura")

“A mais ambiciosa das novidades a entrar em cartaz. Uma “superprodução” de 151 minutos, dirigida e co-produzida por Yoshitaro Nomura, veterano eficiente em vários tipos e gêneros de filmes: comédias juvenis ou familiares, histórias de aventura, dramas românticos e até mesmo épicos como “Castelo de Areia”, um dos grandes êxitos de seu estúdio (a Shochiku) nestes últimos cinco anos. Aqui novamente uma narrativa de lances grandiosos, acrescida de um tom fantástico e demoníaco como em muitas outras que sempre nos vieram do Japão: a revivescência de uma maldição. 400 anos antes, oito samurais haviam se apropriado das terras dos aldeões de Okayama, matando-os todos. Durante quatro séculos o crime ficou impune, mas, em nossos dias, os descendentes de um dos expoliadores mais cruéis, o guerreiro Taijimi, começam morrer em condições estranhas. E tudo como nas lendas dos filmes sobrenaturais de Mizoguchi (“Contos da Lua Vaga”), Masaki Kobayashi (“As Quatro Faces do Medo”), Gosho, Shindo ou Uchida termina em meio ao justiçamento tardio, mas ainda impressionante, pelo fogo que arrasa e purifica tudo, as seqüelas, os sentimentos de dor, culpa e tragédia. O roteirista Hashimoto foi colaborador assíduo de Kurosawa. Outra credencial, a música de Yasushi Akutagawa, o filho do autor do conto original que deu motivo a “Rashomon”.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 28/12/80.


A LAGOA AZUL ("The Blue Lagoon")

“Há 31 anos, nem mesmo tendo como heroína uma Jean Simmons, então no auge de sua beleza juvenil e de um talento vibrante e intenso, que então a equiparava a todas as grandes inglesas do cinema (Merle Oberon, Vivien Leigh, Deborah Kerr), e nem com a direção de um roteirista-diretor inteligente como Frank Launder, esta história de dois adolescentes que ficam definitivamente perdidos numa ilha deserta deu bom rendimento fílmico. O que esperar agora, quando o cinema americano de há muito (salvo raríssimas exceções como “Norma Rae”, “Heróis sem Amanhã”, “A Rosa”, “Cinzas no Paraíso”) não nos apresenta filmes à altura de suas melhores tradições? E ainda mais, tendo como diretor o mesmo elemento responsável por “Nos Tempos da Brilhantina” e “O Rapaz na Bolha de Plástico”? E como intérpretes, uma figura mais do que discutível como a já obesa e aburguesada Brooke Shields, que foi lançada em “Pretty Baby”, e um galãzinho “atual new look” que parece ainda mais problemático que aquele que, em 1948/49, foi impingido à indefesa Miss Simmons? Ademais, há o escárnio de uma dublagem, nos cinemas que discriminamos acima e que devem também ser discriminados pelo espectador cioso de seus direitos (a menos que seja analfabeto, o que já seria outro problema a examinar).”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 18/01/81.