"Uma fantasia erótica, com heranças do cinema de “Zé do Caixão” (o próprio está no elenco, no papel de um demônio chamado assim mesmo: Sete Encruzilhada, o que dá ao filme também um indisfarçável elo de “ligação intelectual” com a macumba). Imaginado, produzido (a duras penas), escrito, criado (?), dirigido e hiper “estrelado” pela beleza quadragenária (ou década e meia além), pretendidamente à Jean Harlow ou Marilyn Monroe, que Rosangela Maldonado (a julgar pela aplicação de purpurina em “seta” e trajes) julga que pode ostentar impunemente em 1978. Na história ela é uma deusa de 2.000 anos de idade que “se conserva jovem e sedutora” dando a Zé do Caixão as almas dos inúmeros que ela consegue sugar com o beijo fatal, no “preciso momento” em que os pobres varões “mais estão cedendo à tentação”. Seu Sete, porém, é insaciável e mais almas masculinas exige, sob pena de deixá-la parecer a idade que realmente tem, se ela não lhe fornecer as toneladas do material em demanda. Uma “Ela, A Feiticeira”, “Boca do Lixo”? Ou um tremebundo “kitsch” do mesmo local para ser enviado de presente, com um “mimo” hispano-luso-afro-brasileiro a Betty Friedan? Ou talvez mais um “maravilhoso” filme nacional para ser adquirido de olhos vendados pela distribuidora-exibidora Hawai? Tudo é possível, menos a vitória – ainda que momentânea – da massa cinzenta."
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 19/11/78.
"Aceitação e concretização de um dos mais ambiciosos projetos do cinema italiano desde a “assunção” determinada internacionalmente pelos PC e “intelectuais” de todo este “snob”, farisaico e incorrigivelmente suicida mundo ocidental. Disposição de enormes custos e recursos de produção. E aqui está o novo filme (5 horas e 20 minutos na versão original, podado em mais de uma hora na versão internacional e aqui além de dividido em 2 partes ainda com cenas que passaram pela tesoura da censura), com elenco milionário (até a legendária Francesca Bertini, a belíssima e fatal “diva” das décadas de dez e vinte) no papel da Sóror Desolata, a irmã de Burt Lancaster. Intenção manifesta: começar com a execução de Mussollini e recuar até o início do século para fazer um mural “analítico” sobre o fascismo. Acontece porém que, ao que nos parece, a visão do fascismo de Bertolucci ainda é também a da “moléstia infantil” que já era pedra na inteligência, no realismo e na lucidez até dos velhos bolcheviques da revolução de outubro. Ademais, Bertolucci tem o “estilo” cinemático de contar em 330 minutos o que poderia fazê-lo até em menos de 160. Contudo, um filme cuidado, caprichado – não tem quase atores italianos, veio dublado em inglês mas tem La Bertini, tem Dominique Sanda, tem Laura Betti, tem Alida Valli – um filme importante, para quem acha que não pode prescindir de nada “que seja tido como importante”."
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 19/11/78.
"Segunda e última parte – a primeira ainda está sendo exibida no Cine Lumiére – do pretendido afresco de Bernardo Bertolucci sobre a Itália, desde a euforia da Unificação no “Ottocento”, passando pela “crise de crescimento” que culminou com a guerra de 14 e posterior ascensão do fascismo, até os dias da II Guerra Mundial e a libertação em 1945. Tudo através da existência e correlações de duas famílias dos agricultores do Vale do Pó, os Berlinghieri (os senhores) e os Daicó (camponeses e servos). Tudo muito ambicioso, muito cuidado, muito custoso, mas não era preciso 5 horas e 20 minutos para o relato, mesmo porque, tal como “O Conformista” já havia demonstrado, a idéia que Bertolucci tem do fascismo é mais a de um semi-abastado jovem de “sinistra” que pôde estudar cinema no famigerado “Centro Sperimentale”, de Roma, do que algo que corresponda à verdade (e quanto a isso, compare-se o que ele apresenta com o que realmente observaram e/ou reconstituíram Vancini em “La Lunga Notte Del 43” e “La Stagioni Del Nostro Amoré”, o Ettore Scola do recente “Um Dia Muito Especial” e até mesmo o onírico, sarcástico e narcísico mas indubitavelmente “conhecedor” Fellini em “Amarcord”)."
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 28/01/79.
"Oito estréias e duas “reprises” na semana. Cinco das estréias são americanas: “Isto Também era Hollywood”, “Maratona da Morte”, “A Última Loucura de Mel Brooks”, “A Violentada”, “Pelos Meus Direitos”. E as demais são “Polícia Contra Bandoleiros” (japonesa), “Zé Sexy Louco, Muito Louco por Mulher” (nacional) e “A Mariposa da Noite” (argentina). As “reprises” são “Caçada Sádica” (dos EUA) e “O Gladiador Invencível” (italiana).
Há uma fita de John Schlesinger com Laurence Olivier, há a estréia de Margaux Hemingway, há a “última loucura” de Mel Brooks. Mas o mais importante, o mais fascinante é a segunda parte de “That’s Entertainment”. Que traz Judy Garland, ainda menina e logo insubstituível cantora, “show woman”, atriz romântica, satírica, dramática. Que traz Ethel Waters no negro musical “Uma Cabana no Céu”, se bem que não traga os geniais Rex Ingram e Duke Ellington. Que não traz Frances Langford cantando aquele sensacional “Broadway Rhythm” em “Melodia da Broadway de 1936”, mas traz o fundamental e (no Brasil) perseguido produtor Arthur Freed cantando algumas notas de sua composição “Wedding of the Painted Doll”. Que não traz a sensualidade e a força telúrica espanhola do bailado “Niña”, com Gene Kelly, nem as expressionísticas seqüências da hipnose e enforcamento em “O Pirata”, nem ainda a imaginária ópera “Czaritza”, com música de Tschaikowski para Jeannette MacDonald & Nelson Eddy em “Primavera”. Mas traz Greta Garbo, sem John Barrymore, querendo ficar só em “Grand Hotel” e querendo ficar a sós com Melvyn Douglas em “Ninotchka”. Que traz Astaire & Ginger Rogers dançando em “Ciúme, Sinal de Amor”, traz William Powell & Myrna Loy, a maravilhosa Katharine Hepburn de “The Philadelphia Story”, “bits” de Laurel & Hardy, dos Marx & Margaret Dumont, Margaret O’Brien, Kathryn Grayson. E Mickey Rooney, Chevalier, Ann Sothern, Vivien Leigh, Clark Gable, Constance Bennett e tanta gente, e tantos trechos de filmes mais.
ISTO TAMBÉM ERA HOLLYWOOD
Seqüência a “Era uma Vez em Hollywood”, a coletânea de êxito mundial sobre os melhores (no julgamento de seu realizador Jack Haley Jr.) momentos da longa série de musicais (cerca de 200) que os estúdios da Metro produziram entre 1929 e 1958. Mais uma oportunidade para que aqui a crítica repita o medievalismo cometido quando da explosão estilística e renovadora do gênero entre 1943 e 1948 (de “Uma Cabana no Céu” a “O Pirata”). E repita também a falta de malícia ao se deixar apanhar encarando (exatamente como os “big boss” do estúdio teriam achado “produtivo”) apenas como distração, e não como uma antologia, um ensaio onde a criação artística, a seriedade e a montagem cinemática deveriam ter parte preponderante, a película anterior, aparecida em 1973.
No caso atual não houve o agrado esperado. Da crítica estrangeira atenta, conhecedora e responsável, claro. Mas não, como supõe Richard Gertner no “Motion Picture Herald” de 19 de maio último, porque “That’s nº 1” já havia esgotado o estoque, o “creme de la creme” dos “metro-musicais” de todos esses 30 anos. Mas sim porque essa era uma tarefa para ser realizada em conjunto por diretores exponenciais do gênero como Mamoulian, Lubitsch, Minnelli, em cooperação com um cineasta social, sociológico e humano como King Vidor, com talvez o Louis Malle que fez da mítica de Brigitte Bardot um documentário dramático e estético como “Vie Privée”, em colaboração com o Resnais que avançou e recuou no Tempo, na Memória e nas emoções dramáticas, visuais, musicais e de movimento em “Hiroshima” e “Marienbad” e com a perspectiva, também, de um crítico capaz de fazer de suas críticas atos de criação, de admiração, de unção e de humanismo como o inglês Tom Milne ao se debruçar sobre um filme de 44 anos atrás como “O Último Vôo”, a primeira direção americana de William Dieterle.
As omissões, a frieza, a diretriz comercial aqui estão, com certeza. E estará ainda uma apreciação geral, mais dispersiva, frívola e superficial que a que “adorou” “Era uma Vez...” Mas não importa. Porque, muito mais do que a oportunidade que poderiam dar os esforços de uma centena de cine-clubes em 30 anos, haverá a possibilidade, em trechos ao acaso, ao sabor da bilheteria, ao azar da falta de uma verdadeira edição, de uma criteriosa seleção, de uma maravilhosa criação, de se ver ou entrever o que de outra forma seria impossível.
Desde raridades como Jean Harlow em “Mademoiselle Dinamite”, como Bing Crosby cantando “Temptation” para Fifi D’Orsay em “Delírio de Hollywood”, como Judy Garland e Gene Kelly dando uma demonstração única de “Commedia Dell Arte” com o “Be a Clown” de “The Pirate”, como Fred Astaire cantando e dançando o extraordinário “Steppin Out with My Baby” em “Desfile de Páscoa”, até Greta Garbo que, segundo testemunha nosso companheiro Carlos Motta, emudeceu a sessão inaugural do último festival de Cannes quando apareceu dançando “La Chica Chaca”, no seu, à época, tão injustiçado canto de cisne “Two Faced Woman”."
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 19/12/76.
“Pseudopornô, comédia erótica (ou pornochanchada mesmo) produzida pela empresa do galã Carlo Mossy, não só para veículo estelar do próprio, mas para “faturar horrores”, que ele não oculta essa intenção. Na história três moças ricas e ociosas fazem uma aposta: quem transformaria um camelô num cavalheiro, no período de um mês? Mossy, o escolhido, é tratado a pão-de-ló mas tem inconvincentesescrúpulos românticos e moralistas. Por outra, a tarefa das meninas só seria necessária se os tempos não fossem esse que aí está. Mas como a fita parece ter sido baseada em “Irene, a Teimosa”, como o cartaz e as fotos coloridas estão surpreendentemente bem feitos e com certo gosto, como Mossy apesar da adesão ao mercantilismo do nosso cinema sempre é um tipo de alguma escola, e como desta vez o grupo de atrizes parece bonito e bem tratado, quem sabe algo menos degradante que o habitual poderá ter acontecido? Tomara, que já não é sem tempo.”
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 13/02/77.
“Quarto longa metragem de Maurice Capovilla. Os dois primeiros ele fez porque imaginou e quis: “Bebel, Garota Propaganda” e “O Profeta da Fome”. O terceiro reescreveu e dirigiu a nosso convite, baseado num “livro poético” escolhido pela atriz Amiria Veronese e projeto do qual Ozualdo Candeias havia desistido. Nova história e “script” porém eram seus, ele teve liberdade de fazer o que podia, dados urgência de tempo e algum compromisso com o “motivo” inicial. Mas certamente algo ligado ao cinema de Val Lewton ou ao “Belle de Jour” de Buñuel não se relacionava com a vivência ou a ambientação paulistana que muitos louvaram em “Bebel” e que parece ser o que mais o interessou no conto de João Antonio que agora levou à tela e do qual há referências ótimas e aguardamos o melhor resultado.”
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 27/11/77.
“Desde sua pré-história com “O Crime de Cravinhos” ou as várias versões dos mais de um reais “Crimes da Mala” até “O Assalto ao Trem Pagador”, e de “O Assalto” até o “oportuno” e “utilíssimo” “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia” que uma das “piéces de resistence” ou das “weakness” do cinema nacional vem sendo o aproveitamento de casos policiais ou crimes famosos. “O Caso Cláudia” não poderia escapar à regra, ainda que (como aliás no mundo todo, sobretudo no cinema norte-americano) para evitar aborrecimentos posteriores o mais prático seja sempre utilizar o chamariz da manchete e tratar o problema por analogias, tangentes e advertências. Aqui o caso é mais de Flávia (Kátia D’Angelo) que de Cláudia (a novata Lilian Stavik, em fugaz ponta). Evidentemente este não é o filme sobre o Piauí que o ferrenho mas reflexivo e aberto Miguel Borges (o mesmo do valiosamente visual “Pecado na Sacristia”) continua devendo ao cinema brasileiro, mas parece ser obra em que seu empenho de realizador sempre se faz sentir. Pelas fotos, há que salientar a propriedade da colocação do ator teatral Jonas Bloch no personagem decalcado em Michel Frank. E a seu propósito saem também crítica e reportagem nesta mesma edição de hoje.”
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 05/08/79.
“Um dos filmes mais esperados da moderna produção nacional. Estreando como diretor-autor, Alberto Ruschel situa-se num plano diverso de quase todos os seus colegas atores (Dionísio Azevedo, Jece Valadão, Aurélio Teixeira, Egidio Eccio, David Cardoso, John Herbert, Sergio Hingst) que também passaram à realização, obtendo uma obra certamente alheia a certos cânones, mas sem nunca desdenhar o insólito, o inédito, o poético, o estremamente pessoal, o absolutamente seu. A ação, praticamente um duo. Um velho marujo que vive num lugar isolado. A menina (Débora Duarte) que foge de uma provação pensando em suicídio e coloca-se sob sua proteção. E a volta dos criminosos, que ainda pensam em se vingar de sua vítima. Um filme estranho e bonito, “rodado” em maravilhosos locais do Rio Grande do Sul e que precisa ser devidamente apreciado.”
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 14/10/79.
“Nova realização de Fauzi Mansur. Quanto ao ponto de partida, uma espécie de “Uma Virgem para o Príncipe”, mas a ambientação (e as imposições medievais) trocados dos feudos renascentistas para o bairro do Canindé e os costumes e códigos de honra dos descendentes de italianos, trazendo um polígamo e feliz borracheiro (o basco Serafim Gonzales), só que preocupado porque seu sensível filho (Arlindo Barreto) anda em companhias dúbias e ainda não provou seus pendores para o sexo oposto. Tudo faz para resolver o problema, até mesmo recorrer aos bons ofícios da submissa amante (Helena Ramos, mais aceitável porque, como em “Bacalhau”, devolvida ao seu natural que é o ambiente suburbano e sem sofisticação alguma). Mas como peixe n’água deverá estar Rossana Ghessa, que como legítima italiana fica ótima em papéis populares, à Monica Vitti ou Mariângela Melato, conforme já o provou em “Convite ao Prazer” e na “comédia à italiana” em episódios: “As Secretárias que Fazem de Tudo”.”
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 11/10/81.
“O título vem naquela mesma “tradição” que desde a “chanchada” (não a atual “pornô” – referida) faz escola em nosso cinema, seja do Rio, paulista: “Esta é Fina”, “Pra Lá de Boa”, “Sai de Baixo”, “De Pernas pro Ar”, “É Com Este que Eu Vou”, “Não Adianta Chorar”, “A Vida é uma Gargalhada” e outros que tais, que obviamente nada tem a ver com a vida interior ou a transparência do espírito, personagens ou dramas de Virginia Woolf ou Katherine Mansfield. Do diretor Nascimento, em fins de 1976, aqui tivemos uma equivalência, coma produção de “Zé Sexy, Louco, Muito Louco por Mulher”. Se quisessem, ou soubessem, ou pensassem, com mais economia e até mais resultado, inclusive no plano internacional, poderiam ter mobilizado, do elenco, a beleza e juventude da balcânica Novany Novakovsky e, da cenografia, o apessoado de Waldir Siebert e plagiado ou repetido com algum realismo e alguma força de indagação a mais, aquele “Adão e Eva”, filme de só duas pessoas que os mexicanos há um quarto de século realizaram com os pruridos e a castidade da época, com uma ex-miss França, Christiane Martel, e um galã local, Carlos Baena, sem se atreverem a quase nada daquilo que hoje, principalmente aqui no Brasil, é fácil, fácil, à toa, à toa...”
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 14/02/82.
“Em vista do que resultou de sua formação, de suas influências da mineirice, carioquice e até mesmo paulistanice, em vista do que ele pode e quer ser, gosta e seus acólitos gostam nele, em vista, também, de seu tipo de cultura e de empenho, em vista do incoercível binômio, que lhe deu origem – o “cinema-novismo” como manifestação de uma sempiterna, sempre igual e nunca renovada classe dominante – não há dúvida que Joaquim Pedro de Andrade é um dos diretores não por demais prolíficos, mas mais bem-sucedidos do cinema nacional. E aqui está seu sexto longa-metragem, uma versão da mítica “Oswald de Andrade”, provavelmente feita com uma inventiva – a “porque me ufano” – à brasileira. E no qual, como uma espécie de mito e da trajetória de Tarsila do Amaral, Dina Sfat deverá ter, em seguida a “Eros” e, juntamente com “Álbum de Família”, seu terceiro “grand portrait” consecutivo num cinema, como o nosso, que muito precisa deles.”
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 21/02/82.
"Imperial, utilizando assunto de Pasolini. No conto do diretor de “Il Decameron”, o Amor era também a Morte e consubstanciava-se num efebo de olhos azuis que destruía o protagonista. Aqui este é Imperial e a destruição vem na forma de uma dourada “ninfeta” de 15 anos e que é a principal de um “background” todo feminino, como na fita anterior do mesmo Imperial, intitulada “As Delícias do Sexo”. Não atinamos o que poderá ter resultado desta “transmutação” – só lembramos que em “Delícias”, o mais efetivo e engraçado era a tônica pantagruélica do próprio Imperial como ator."
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 02/05/82.
"Um financiamento total da Embrafilme e, por incrível que pareça, justo e merecido. Mas, talvez por isso mesmo, a própria empresa e distribuidora estatal, com toda a sua máquina montada, não conseguiu lançá-lo comercialmente, durante cerca de um ano e só o fez quando mudou título primitivo (“A Pele do Bicho”) para o atual “Amor e Traição”. Baseada na peça “Chapéu de Sebo” do nordestino Francisco Pereira da Silva, a fita parece beneficiar-se do bom nível cinemático do diretor Pedro Camargo e de certa intocada pureza ambiental ainda remanescente em Pernambuco. Vaqueiro (Sílvio Correa Lima) casa com cabocla (Cláudia Ohana) mas a beleza desta desperta a cobiça, tanto do coronel local (Jofre Soares) como do filho deste (Paulo de Oliveira). O golpe é enviar o jovem marido para longas viagens. O flagrante e o crime de honra são inevitáveis e o rapaz é preso. Mas uma pintora carioca (a inefável e convencidíssima Ítala Nandi) descobre nele um “primitivismo sensual” e sua defesa torna-se ainda mais problemática, até o desenlace final. Cláudia, filha da falecida montadora nissei Nazareth Ohana, era a única figura não feia ou artificial de “O Menino do Rio” e poderá tornar-se espécie de Junko Fuji ou Nancy Kwan nacional. A fita foi apreciada por quantos já a viram."
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 09/05/82.
"Resultado de uma lei de obrigatoriedade mal formulada. Filme “rodado” simultaneamente em menos de uma semana, em três episódios e com três diretores (preferivelmente também autores fotógrafos, fazendo câmera ou cenografia e montagem), desimcumbindo-se fustigados da tarefa. As três histórias são obrigatoriamente eróticas, e o mais mencionável é a estréia na direção do montador Inácio Araujo. Na história de Carlão Reichenbach, Zilda Mayo é a “Vamp” dos fliperamas, explorada por um cafetão (Koppa, ótimo, e dando até sentido ao cartaz de publicidade). Na de Inácio, dois casais humildes em desencontro, apesar da ligação puramente física de um deles, acabam descobrindo a compreensão numa troca de parceiros. E na de Toninho Meliande, a amarfanhada Vanessa vai casar com moço quarentão, para poder comprar o enxoval, aconselhada por uma expert resolve ceder até certos limites a lubricidade de três ricos e maduros cavalheiros: Hingst, Dias e Pignatari."
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 09/05/82.
“Já está longe o tempo (como passa!) em que Michel Boisrond, na qualidade de quase discípulo de René Clair, era o feliz diretor de uma quase adolescente, ascendente e esplendorosa Brigitte Bardot em filmes como “Cette Sacrée Gamine”, “O Príncipe e a Parisiense”, “Voulez-Vous Danser Avec Moi?”, “Amours Célebres”. Aqui ele retorna tendo como trunfo Jane Birkin, que surge na pele de inglesinha (o que ela realmente é) que vai a Paris e lá, a fim de sobreviver, se transforma numa firma, cujo mais capital e triunfo são ela mesma. Não confundir porém com nossas pornochanchadas, nem mesmo com aquelas “pseudo-sociais”, que afinal acabam sendo as piores porque mais mascaradas e mais insidiosas e, sobretudo, com maior voracidade e mais esperteza para auferir a meta suprema – lucro, o vil metal, dinheiro, moeda somante.”
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 12/03/78.
“Por que se chama “Daniel, o Capanga de Deus” se é livro todo a base de imagens, personagens e episódios (intencionalmente) desconexos, como um Henry Miller diluído (ou “readers digestizado”?) de “Sexus”, “Nexus” ou “Plexus” e bastante “aprés” “la lettre”? E porque desmistificação do cangaço se as fotos expostas nos cinemas (aliás bonitas mas intelectualizadas demais para um filme que claramente avança pelo prestígio televisivo de Regina Duarte, e em dois papéis, o que deve ter sido bastante difícil para a mística caseira da eterna e campônia “jeune fille” utilizada em “Lance Maior” e “Chão Bruto”) sugerem obra muito para delírios de mitomanias eróticas de “ids” masculinos? Aliás, estas reincidências de especularem sobre os nus ou os não-nus de Regina Duarte é um “problema” que só concerne aos dilemas de “pruderie” das “menageres” que se escravizam à obrigação seriada e dulcurosa das telenovelas. Obrigação que de forma alguma pode condizer com a plasticidade tipo John Korty (o diretor húngaro do estranhíssimo “A Corrente da Vida”) que a citada coleção de fotos faz supor. Audácia criativa? Ou confusionismo intencionalmente nacional? De qualquer maneira, a estréia no longo-metragem de um (conhecido? Controvertido?) ex-realizador de curtas publicitários que poderá criar ou desejar polêmica.”
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 22.01.78.
“Comédia erótica e carioca típica de Carlo Mossy. E não podemos incriminar completamente o jovem ator-produtor por não se arriscar ou não empenhar mais, pois quando ele tenta caprichar um pouco (“As Granfinas e o Camelô”) ou mudar de linha (o “sério” e aqui ainda inédito “Ódio”) arca com resultados na bilheteria. Muita coisa está errada – e muito! – no cinema brasileiro e não cabe a ninguém, isoladamente, tentar salvar a pátria.”
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 12.02.78.
"A julgar pelo “trailler” um dos melhores filmes de recente Minnelli (fora, naturalmente, os da fase áurea de “Uma Cabana no Céu”, “Agora Seremos Felizes”, “O Ponteiro da Saudade”, dos trechos de “Ziegfeld Follies”, “O Pirata”) e lembrando muito, como atmosfera, plasticidade e intenções o controvertido (teria sido malogrado mais por causa de Barbra Streisand?) “Num Dia Claro de Verão”. Aqui um pouco da fábula da Gata Borralheira de encontro com uma personagem que tanto pode ser a Estela adulta de “Grandes Esperanças” de Dickens, como a heroína do faulknereano “Uma Rosa Para Emily”, como ainda a velha senhora da “Visita”, de Durrenmatt. A fita foi “rodada” na Europa, melhor falando na Itália, uma Itália imutável, ainda entre o sonho do “Ottocento” e os dias agitados da Via Veneto. Liza Minnelli é a pequena camareira que sonha com o êxito. Ingrid é a velha fada, a grande dama cujo passado é o de um “Kane” ou um “Monsieur Arkadin” de saias. Uma antiga e fabulosa condessa, mas felizmente, sempre Ingrid Bergman. E talvez ótimas oportunidades também para veteranos ou excelências como Charles Boyer, Ferzetti, Nazzari, Anna Proclemer. E, ainda, quem sabe para a linda filha de Ingrid, Isabella Rossellini. A ver, claro."
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 21/05/78.
“Homenagem nostálgica à velha São Paulo do tempo em que ainda havia garoa, ruas escuras, cabarés segundo o modelo francês e uma vida boêmica (não obstante a população ser oito, dez ou doze vezes menor) parecida às das capitais internacionais, como Paris, Budapest, Madrid, Buenos Aires. Ou quase um filme de caráter biográfico?Ou um “hommage” mais à velha e sempre recordada Buenos Aires dos estertores da milonga e da ascençãode Gardel? De qualquer maneira a história de um conquistador à “vieille maniere”, um tanto estranha, um tanto “traduzidamente” chamado Tertuliano Jatobá da Silva, mais nome de jagunço ou cangaceiro do que de contemporâneo de Valentino, Ricardo Cortez, Adolphe Menjou, Paraguassú, Batista Junior. Tertuliano, ou melhor Tézinho é Paulo José, o Rei da Noite, enquanto que Marília Pêra, muito misto de Barbara Streisand e de Dulcina de Morais, é Pupi, a sensação dos “auberges” de Cristal, dos “Moulin Rouge” das antigas ruas Aurora, Sete de Abril ou Amador Bueno. E a atriz de formação circense, Vic Militello, elogiadíssima pela equipe realizadora, faz a esposa predatória e infiel de Tézinho. Aqui o cenógrafo Laonte Klawa poderá ter encontrado ótima oportunidade. A fita lança um novo diretor paulista, na pessoa do rumeno-argentino Hector Babenco, o mesmo que participou de “O Fabuloso Fitipaldi” e que já trabalhou na Sincro Filmes e, ao que parece, também no cinema publicitário. E no elenco suplementar, duas figuras efetivas do cinema de São Paulo: Francisco Curcio e Carlos Bucka, além da beleza loura de Dorothée Marie Bouvier.”
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 09/05/76.
"Um Kurosawa da fase do sarcasmo (“Sanjuro”, “A Fortaleza Escondida”, “Os Homens que Pisaram na Cauda do Tigre”). Interessante, portanto, agora uma revisão e um confronto com o Kurosawa da fase (ou dos filmes, já que tendências e resultados se alternam e até se antagonizam) mais humanista geralmente influenciada pela grande literatura russa de Tolstoi, Dostowievski: “Ralé”, “Hakuchi, o Idiota”, de certo modo sendo licito aqui também incluir “Viver”, “Akahige, o Barba-Ruiva” e o redentor “Dodeskaden, o Caminho da Vida”, obras baseadas em originais ou de outras fontes. Aqui temos a trajetória irônica de um “samurai” de aluguel, espécie de um “wandering hero” ou um “Shane” do oeste americano às avessas. O ator predileto do cineasta, Toshiro Mifune, naturalmente tem o papel titular, o papel principal. Mas os “essenciais” do elenco são outros: Susumu Fujita, Akira Nishimura, Seisaburo Kawazu, os falecidos Eijro Tono, Daisuke Kato, Kyo Sazauka, mais Takashi Shimura, a kabukeana Isuzu Yamada, a lindíssima Yoko Tsukasa. A fita aqui foi originalmente lançada a 10 de novembro de 1962, na sempre lembrada fase japonesa do Cine Scala, hoje, Belas Artes – Centro."
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 13/06/76.