terça-feira, 1 de julho de 2008

SINBAD, O MARUJO TRAPALHÃO

"Não obstante Renato Aragão não seja um comediante sofisticado, nem o diretor Tanko ainda esteja disposto a arriscar em filmes elogiados e premiados mas pouco vistos (como “Areias Ardentes” e “A Outra Face do Homem”) a verdade é que esta série de comédias que ambos estão apresentando são das coisas mais limpas e menos nocivas que se fazem atualmente entre nós, em matéria de cinema. Aragão está ganhando em espontaneidade e Tanko sempre é o mesmo “expert” no manejo da imagem, um dos maiores com que contamos. Para o público a que se destina, uma realização nacional justificável.”

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 27/06/76.


NINA 1940, CRÔNICA DE UM AMOR ("Le petit matin")


"O segundo filme que aqui nos chega do ítalo-francês Jean-Gabriel Albicocco. O primeiro, aliás a obra de estréia, foi “A Garota dos Olhos de Ouro”, com a sua então esposa, a belíssima Marie Laforet e a “charmante” Françoise Prevost. Era uma estranhíssima, uma quase sutil intriga de amor hetero-sexual e de lesbianismo, baseada em original de Balzac, transposta para a época moderna e com imagens belíssimas, assinadas pelo pai do cineasta, o famoso iluminador Quinto Albicocco. Aqui a ação se passa ao tempo da ocupação nazista e narra o conflito que surge em uma família de ricos proprietários de província quando a filha caçula se apaixona por um oficial alemão. O diabo é que este papel provavelmente ficou a cargo do esquisito e ineficiente Mathieu Carriére. Mas nos dois papéis característicos mais importantes estão intérpretes como a veterana Madeleine Robinson e o celebrado Jean Villar. Outra credencial, esta de roteiro: a participação de Pierre Kast, o cineasta que só quando começa a circular e a atuar nas dissolventes rodinhas “intelectuais” do Rio ou “folclóricas” de Salvador é que perde o brilhantismo revelado em fitas como “La Mort – Saison des Amours”, “Merci, Natercia” ou “La Brullure de Mille Soleils”.

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 03/10/76.


AS AVENTURAS AMOROSAS DE UM PADEIRO


“Um elogio à empresa Serrador. Esta semana tirou do ineditismo esse caprichado e inquietante “Revólver de Brinquedo”, de há muito reclamado por esta seção. E amanhã lança este filme que, registrado a 4 de dezembro de 75 pelo INC (depois Concine) e depois de participar do festival de Gramado de 76, em junho daquele ano foi lançado no Rio e até agora estava comercialmente encalhado em São Paulo, tanto que até temíamos que seu prazo de censura vencesse e nosso público jamais o pudesse ver. Marca a estréia no longa-metragem do ator Waldir Onofre, o primeiro diretor negro de nosso cinema. Trata-se quase de uma farsa, num tom cômico então inédito em nossos filmes. Esposa insatisfeita decide estudar; as novas colegas então põem-lhe na cabeça idéias de “liberação” e ela arranja um amante padeiro (Pereio) e depois, o troca por um crioulo (Haroldo de Oliveira). O português, então, despeitado denuncia ao marido e um flagrante é preparado. Mas ninguém conta com o que na época poderia passar como uma idéia inovadora do amante. Parece que a atriz Maria do Rosário enxergou em seu papel aso para a causa “Women’s Lib” e calcou a mão. A verificar.”

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 24/02/80.

A CLASSE OPERÁRIA VAI PARA O PARAÍSO ("La classe operaia va in paradiso")


“Filme que Elio Petri realizou logo em seguida ao seu êxito com “Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita” e Gian Maria Volonté, também sempre esplêndido ator, logo depois daquele e quase junto com outro triunfo do cinema de discussão política – “O Caso Mattei”, de Francesco Rosi. É a história de um operário e líder sindical, cujo pensamento e ação direta são encarados em seu ambiente – patrões e colegas – de várias formas, conforme mudam as circunstâncias. O herói, Massa, também tem interferência de outras ordens em seus momentos, tanto de coragem como de vacilação, até que um acidente em serviço – a perda de um dedo – faz com que tudo, em alguma coisa se aclare e noutras, fique mais complicado – exatamente como acontece na vida real. A fita aqui foi originalmente lançada a 19 de março de 1973, nos cines Metrópole, Paissandú-Império, Belas Artes – Portinari e Vila Rica. É obra importante e bem-vinda, mas achamos um pouco exagerado o circuito (cinco salas) que a empresa Haway lhe destinou no centro.”

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 11/05/80.

EMMANUELLE, A VERDADEIRA (“Emmanuelle”)


"O famosíssimo filme do ex-fotógrafo, elemento de televisão e cinema publicitário que lançou ou mais contribuiu para firmar a voga erótica, ou simplesmente pornográfica, no cinema atual (os experimentos de Mekas, Andy Warhol, etc., ficaram no experimentalismo e nas “caves” ou auditórios limitados ou “especializados”). E o filme que lançou a holandesa Sylvia Kristel no estrelato internacional. Na história, derivada de livro de autora que se mantém no mistério ou incógnita, Sylvia é a esposa de um diplomata que lhe concede direitos iguais em matéria de liberdade extra-conjugal. E ela, chegando à Tailândia, vê-se totalmente “envolvida” por essa liberdade. Em todos os pontos de vista. A fita motivou mais duas continuações e uma infinidade de imitações e até apropriações indébitas de personagem (ou melhor, de só seu nome) mas esta é realmente a original, a verdadeira. Só esperamos que seja melhor do que o que já conhecemos do referido e discutível “surto”, talvez até esperando mesmo que esteja para o gênero como “Quem é Polly Magoo?” “Qui Etes Vous Polly Magoo?”, do americano William Klein, esteve para a sofisticação e insólito em matéria de filme sobre manequins, publicidade e Moda. Será esperar muito? E o estado das cópias?”

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 11/05/80.






O HOMEM DE FERRO ("Czlowiek z Zelaza")


“Wajda já teve seus pecados. O celebrado “Cinzas e Diamantes” (“Popiol I Diament”), que revelou o simples, cordial, inteligente e simpaticíssimo (em pessoa) mas muito “Actor’s Studio” (em cena) Zbigniev Cybulski, em verdade era muito obra para aquele vagamente sonhador tipo de stalinismo que hoje (só hoje?) cobra um preço feroz da humanidade e faz o mundo passar um século de verdadeira regressão e essencial tortura. É fato que, depois, em 1961, com “Sansão, a Força contra o Ódio”, a melhor fita que o cinema produziu até hoje sobre o sofrimento judeu, Wajda já se redimiria das ilusões de seu virtuosístico e superestimado filme de 1958. Mas nesta fase que começa em 74 ou 73, com os aqui já vistos “A Terra Prometida” e “O Homem de Mármore”, o cinema deste realizador torna-se menos de regozijo ingênuo e mais premonitório, mais antecipador, mais sensível à situação insuportável que a balela soviética criaria para a sua heróica terra e seu indomável povo. Em agosto de 1980, um venal é enviado aos estaleiros de Gdansk para recolher “material informativo” que permita desacreditar os líderes da greve que está sendo levada a efeito. A fita por pouco não poderia ser exibida entre nós. É que sua cópia chegou antes que o governo títere e Quisling de Jaruzelski mandasse interditar sua exportação. Nela, numa seqüência, como padrinho de um casamento, aparecem o próprio Lech Walesa e a lutadora Anna Walentynowicz. E constitui, como é natural, não uma quase certa promessa de bom cinema, mas também uma atração indiscutível, um dos grandes eventos da temporada. Obrigatória.”

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 04/04/82.

domingo, 1 de junho de 2008

DELITO DE AMOR ("Delitto d’Amore")

“História de amor entre um operário de Milão (infelizmente Giuliano Gemma) e uma sua colega de fábrica, Carmella (a espontânea Stefania Sandrelli), moça vinda do Sul e sufocada pelos preconceitos, pelas típicas obrigações de honra e dignidade da gente de sua região. Apesar dos percalços e da vigilância do irmão da moça, o amor vence e ambos se casam. Mas como em “Amor até a Eternidade” do japonês Eisuke Takizawa ou como “Love Story” americano com Ryan O’Neal e Ali McGraw, o Destino, a doença ou a miséria cobram o seu tributo, num desfecho que seria melodramático caso o autor Pirro e o co-roteirista e diretor Comencini não lhe dessem um adendo que o leva para um estranho tipo de contestação ou fatalismo, à maneira de Giovanni Verga ou de Grazia Deledda. A fita não foi muito bem recebida pela crítica italiana engajada, menos ainda pelo ainda mais metido e engajado (ainda que cada vez mais outro) júri de Cannes. Acontece porém que depois a engajadíssima equipe da revista “Écran” resolveu redescobrir e apoiar Luigi Comencini, o mesmo de quem a última fita aqui vista foi “Quando o Amor é Cruel” (“L’Incompresso”), ainda na inicial “fase de arte” do “Marachá-Augusta” e colocou este “Delitto d’Amore” em grande gala. Menos por isso do que pelas virtudes e delicadeza de “L’Incompresso”, mais um filme italiano a analisar com atenção.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 03/10/76.

O SENHOR DOS ANÉIS ("The Lord of the Rings")

“Mais uma vez o nosso inefável ambiente cinematográfico e “cultural” reitera-se o paraíso dos conhecimentos incompletos e das perspectivas deformadas. Quase todos os grandes centros viram, mas aqui ninguém se atreveu sequer a pensar em “Fritz, the Cat”, o celebrado primeiro desenho animado erótico a ser entregue ao público corrente. Mas chega-nos agora este “O Senhor dos Anéis”, cujo diretor é precisamente o mesmo do mesmo não proibido nem liberado “Fritz”. Desta vez, porém, a história tem outro tom, lembrando um misto da saga dos Niebelungos e o disneyano “A Espada era a Lei” do tempo do rei Arthur, o mago Merlin e a Espada Milagrosa. A ação começa no centro da Terra, lugar habitado por magos, feiticeiros, anões e outras figuras fantásticas e gira principalmente em torno do anel cuja posse daria todos os poderes a seu dono, inclusive o da invisibilidade. Parece que a inovação deste desenho foi ter sido primeiro filmado com atores e depois, sobre o movimento real dos mesmos, desenhadas as figuras animadas, captando-lhes movimentos e expressões. Críticos houve que fizeram restrições – algumas fortes – mas a curiosidade e o inusitado da experiência merecem verificação.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 27/01/80.

EMMANUELLE, PRIVILÉGIO DE POUCOS (“René la Canne”)

"Parece que ouvimos ou lemos em algum lugar que a censura ou um seu chamado “Conselho Superior” não mais iria permitir que se fizesse sensacionalismo ou deturpações na tradução nacional dos títulos de filmes estrangeiros. Mas temos visto, lido e ouvido tanta coisa...Aqui, por exemplo, Sylvia Kristel está no elenco mas seu papel é o terceiro e ela na história é uma holandesa que se chama Krista. Os personagens centrais, aliás, são os masculinos vividos por Gerard Depardieu e por esse Michel Piccoli que levando-se em conta o que vem criando de próprio e a carreira que vem tendo nos cinemas francês e italiano, podemos quase com certeza considerar o ator número um do cinema atual. O personagem de Depardieu, René Bordier, chamado La Canne, realmente existiu e foi um alegre vigarista que agiu na França ocupada de 1942. O corretíssimo Piccoli aqui faz o “flic”, o “tira” que quase inverte seu papel com o malandro. Krista, apesar de sua educação burguesa, não exita em participar das tramas ilícitas dos dois inimigos amistosos. O diretor Girod, o mesmo que estreou com “O Trio Infernal” (e era mesmo, tendo Piccoli entre Romy Schneider e Andréa Ferreol) procurou um clima inusitado de aventura, perigo e cinismo que poderá ter feito desta a fita mais interessante da semana.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 23/03/80.

A DEUSA NEGRA ("Black Goddess”)

"Misteriosa – ou nem tanto? co-produção com a Nigéria, dirigida, entretanto, por um elemento digno e respeitável como Ola Balogum. O diabo é que a influência do “cinema novismo”, ou da ânsia de folclore turístico, que são um dos muitos estigmas do cinema brasileiro, podem ter atrapalhado o cineasta africano, que tem tanto direito de fazer cinema entre nós como o tem o italiano Michelangelo Antonioni (que aliás queria e em 1969 até nos falou disso) ou o sueco Arne Sucksdorff, que aliás já vive há mais de dez anos aqui (em Mato Grosso, para sermos mais precisos), com filho nascido lá e que continua ignorado por toda a “genialidade” do uísque e do “gangsterismo” que pulula em nosso inefável ambiente cinematográfico – “cultural”, subserviente a Moscou e a quanto “bezerro de ouro” apareça na praça. Na história, um africano (Jorge Coutinho) vem ao Brasil visitar parentes e, logo, à procura de suas raízes – aqui? – vai consultar uma “mãe-de-santo” e vive então uma história de metempsicoses e avanços e recuos no tempo e no espaço, com troca, revivescência, reencarnações ou mutações psíquicas ou sociais de personagens, algo assim como “Magus, o Falso Deus”, de Guy Green ou mesmo o paulista e “maldito” “O Longo Caminho da Morte”, de Julio Calasso. A fita aqui esteve anunciada para a sexta-feira anterior, mas só anteontem é que foi lançada.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de
01/06/80.

A FORÇA DOS SENTIDOS

"A mesma complexidade de fabulação ou narrativa tem esta fita. Mas no caso os óbices não vêm do Rio, da exploração pseudo-africana ou dos vícios que, não muito estranhamente, combinam Cinelândia, praças Tiradentes e Mauá e canal do Mangue com o surfe ipanemal e a “elite” que freqüenta os “Antonio’s”. Os óbices desta vez são muito paulistas e lembram o nível intelectual, ético e político do pessepismo, de permeio com a pornogrossura, a rarefação, a “voga” pornô e a “vontade de stalinismo” da rua do Triunfo. Escritor de novelas fantásticas (hoje, e em nossos arredores?) descobre praia idêntica à imaginada em um seu romance e lá encontra estranha moça surda-muda que se transmuta em todas as mulheres que ele ali vai possuindo, com uma destreza que só o gênero e a “boca” explicam. A moça é Aldine Muller, que estranhamente ficaria melhor em papéis mais “fraternais” e recatados. Também no elenco, a austro-carioca Ana Maria Kreisler e a japonesinha Misaki Tanaka. O diretor Garrett vem de três ou quatro grandes êxitos comerciais no estilo e seria bom se voltasse à sua melhor forma de “Excitação”.”

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 01/06/80.

LUZ DEL FUEGO


““A Embrafilme não produz, não financia, nem se associa a pornochanchadas” – essa é uma saída muito hábil, como todas que sempre se arranjam neste país, onde quase nunca o cinema deixou de ser a falta de auto-estima e de planificação séria e conseqüente. Aqui em São Paulo, como sempre o desbragado populismo (a la antigo Partido Social Progessista) até que é mais bobo e mais inócuo, porque não tem (ou não pode ter) sequer a esperteza de usar celofane, literatura ou rosselinismos como “Eu Te Amo”, “A Dama do Lotação”, “Dona Flor”, “Sete Gatinhos”, “Iracema, Uma Transa Amazônica”, e por aí. Ademais, sexo ou erotismo puro não excluem a observação humana, a qualidade artística, o valor estético (e muita obra metida a social ou combativa pode ser, na realidade, bem mais pornográfica porque pervertedora). Só que é preciso haver quem faça por um motivo de criação e estilo e não para “faturar” ou só tapear. A que tipo pertencerá esta carreira mais “Praça Tiradentes” do que precursora de contestação feminista de “Luz del Fuego”, que David Neves realizou com todo o aval da “Embra” e “inteligentzia” carioca? E será que o papel era mesmo para a magrinha Lucélia Santos ou mais para a pesadona Mara Prado, aliás paulistas ambas?”

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 04/04/82.

domingo, 4 de maio de 2008

CÍRCULO DE DOIS AMANTES ("Circle of two")

“O crítico do Motion Picture Herald não gostou do filme. Mas não iremos deixar passar em branco a oportunidade de apreciar mais uma direção de Jules Dassin. A história gira em torno de um pintor de 60 anos, que se exilou voluntariamente nos arredores de Toronto e há dez anos não conseguia pintar nenhum quadro, até que encontra uma estudante de 16 e que igualmente se apaixona por ele. Richard Burton e a ex-atriz infantil Tatum O’Neal vivem esses papéis. Parece que Dassin teve problemas com os produtores, que remontaram o filme a sua revelia, e não queria assiná-lo. Mas mesmo assim – insista-se – este deve ser visto, mesmo porque o grande diretor revelado pela Metro em 1942 (o “short” “A Lenda do Coração”, inspirado em Poe) o thriller “Algemas para Dois”, as comédias com Susan Peters (“Cuidado com Mamãe”) e Marsha Hunt (“Sua Criada, Obrigada”, “Uma Carta para Eva”) e depois na Europa, o cineasta de Melina Mercouri em “Nunca aos Domingos”, “Promessa ao Amanhecer” e “Phaedra” e “Corações Desesperados” (este, também com Romy Schneider, e escrito por Marguerite Duras) parece que está doente, com problemas cardíacos e voltou à Grécia para ser cuidado por Melina, de cuja saúde, também, há maus boatos.”

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 26/09/82.


Homenagem ao diretor falecido no dia 31/03/08.

DIÁRIO DE UM ITALIANO ("Diario di un italiano")

“Tanto a literatura como o cinema italianos que abordam os anos 20 ou 30, em média conseguem um encanto tão específico quanto outras manifestações artísticas do país que tratam do seu período “ottocentista”, ou da primeira década deste século. É só lembrar certos filmes de Visconti (como “Senso” por exemplo) ou o “Cronaca Familiare”, de Zurlini, ou ainda “La Viaccia”, “Senilitá”, “O Belo Antonio”, “A Herança Ferramonti”, a maioria aliás do esteta Bolognini. Seria injusto igualmente não ir mais antes e lembrar também o “Pequeno Mundo Antigo”, de Soldati-40 ou “L’Edera”, de Augusto Genina-50, este baseado em romance de Grazzia Deledda, bem como algumas outras recriações desse tipo de clima feitas por cineastas hoje esquecidos, como Gianni Franciolini ou Flavio Calzavara. Claro, é uma peculiaridade peninsular e portanto natural, espontânea e que dificilmente pode deixar de manifestar-se. E ela está toda aqui neste filme bonito e pleno de sentimento e delicadeza do novato (ou bissexto) Sergio Capogna baseado num conto, “Vanda” de Vasco Pratolini. Gira sobre o romance entre o filho de um socialista assassinado e uma moça judia na Itália de 1938, prestes a se envolver na II guerra. A ação começa em 1920 e se passa toda em Florença. A personagem título é interpretada pela estreante Mara Venier, mas a grande presença, claro, só poderia mesmo ser a veterana e sempre maravilhosa Alida Valli.”

Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 18/05/80.

O IMPÉRIO CONTRA ATACA ("The Empire Strikes Back")

“Não deixa de causar espécie pensar que, com tudo o que já houve de pesquisa, descoberta, cristalizações, esforços, conseqüência artística e luta e coerência profissionais no cinema mundial (de Méliès ao cinema dinamarquês de Asta Nielsen e Waldemar Psilander; dos pioneiros italianos à década de Irving Thalberg na Metro, quando o estúdio passou à frente da indústria do globo e, inclusive, manteve Greta Garbo; da aurora do cinema alemão com o Expressionismo dos anos 10 e 20 até hoje com Werner Herzog; do cinema sueco de Sjostrom e Stiller à explosão polonesa no último pós-guerra; da “avant garde” francesa ao atual cinema italiano, e deste à “nouvelle vague”; do prestígio soviético ao depuramento absoluto dos japoneses) custa a crer que, com isto tudo, o cinema tenha-se desmantelado em toda a parte para que, em termos de viabilidade material, o cetro fique com a fita como “Guerra das Estrelas”! agora temos está continuação, produzida mas não dirigida pelo mesmo George Lucas (que aqui a confiou, não com muita crença, a Irvin Kershner). Aliás, não bem continuação, pois o filme anterior era baseado no quarto episódio de uma história e esta é baseada na nona e, a seguir, segundo o próprio Lucas, virão, com a devida numeração em ordem os episódios anteriores e posteriores. Indústria e técnica material e tremendo derrame de recursos financeiros antes e acima da arte. Para quem gostou...”

Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 20/07/80.

KUMOKIRI MIZAEMON, O JUSTICEIRO ("Kumokiri Mizaemon")

“Pela ambição a grande espetáculo de “background” samurai, pelos custos que, de uma forma ou outra, tiveram de ser dispendidos, pela longa-metragem, inerente aos filmes épicos (160 minutos), pelo extenso e, em muitos casos, valioso grupo de intérpretes que foi necessário mobilizar, ainda que a atual maré não ande boa para o cinema japonês (como de resto, não o anda para a maioria dos cinemas de outros países, exceção feita, talvez, aos da Alemanha, Itália, Hungria, e Iugoslávia), uma fita de certo empenho e apuro que possivelmente vale a pena examinar. No papel principal o terrível e nada japonês Tatsuya Nakadai, que Kurosawa, na falta de seu ator predileto, Toshiro Mifune, em má hora resolveu convocar, tornando a emenda pior do que o soneto (mesmo porque, Mifune, com a idade anda ficando mais contido e de certo modo já faz parte da mítica kurosaweana). Aqui o catatônico, “poseur” e aparvalhado Nakadai é um ladrão que se pretende tipo Robin Hood e tem como amantes fiéis nada menos que a sensível e suave veterana Shima Iwashita e a belíssima novata Keiko Matsuzaka. Em seu encalço está o “kabukeano” Somegoro Ichikawa, este sim um ator de verdade e dos melhores que o cinema, e os teatro moderno e clássico do Japão há uns 20 anos, contam. Entre as outras verdades e eficiências do elenco estão Joe Shishido (como um massagista cego), o também tão “kabukeano” Koshiro Matsumoto (ator, talvez, até mais clássico e distinguido que Ichikawa), além do sempre marcante e importante Tetsuro Tamba”.

Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 19/04/81.

O PREDILETO

“A grande surpresa do cinema paulista nos últimos tempos, esta estréia no longa-metragem, esta primeira obra, esta quase obra-prima de Roberto Palmari, um técnico que durante anos silenciosamente desejou fazer cinema e militou na TV, no cinema publicitario, tendo também – sempre sem alarde – por três anos ido estudar seu “metier” na Itália. De um romance de João Alphonsus saiu um filme com pontos de contato com muito do que de melhor no gênero se fez no cinema internacional, de Von Sternberg (“O Anjo Azul”) a De Sica (“Umberto D”), passando um pouco pelo Bergman de “Morangos Silvestres” ou por alguns clássicos do Expressionismo alemão. Certas imposições ou certas “concepções” do nosso ambiente, certa entrega ao “regional” ou ao “linguajar” às vezes delimitam um pouco a obra, mas o resultado é sempre CINEMA, de ponta a ponta, com uma grande fotografia do igualmente estreante (no longa) Geraldo Gabriel, com grandes papéis dados a Jofre Soares e Othon Bastos, com um bom resultado obtido por Suzana Gonçalves, com uma inesperada Wanda Kosmos, um Abrahão Farc que é humanidade pura e ininterrupta e com um Xandó Batista no maior dia de sua carreira e num dos mais patéticos personagens de toda a história do cinema brasileiro. Grande vencedor (melhor filme, ator, roteiro e fotografia) num festival “perigoso” e quase sempre saudoso dos “dirigismos” dos festivais de Brasília como o festival de Gramado, “O Predileto” é um filme nacional que rompe barreiras, que dá margem a esperanças, que se torna plenamente obrigatório."

Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 14/03/76.

O ÚLTIMO TANGO EM ROMA ("Ultimo Tango a Zagarol")

“Para o Monthly Film Bulletin inglês menos uma paródia e mais um pastiche do injustamente celebrado (como todos os que aqui conhecemos) filme de Bertolucci. O “injustamente” vem por nossa conta. Na história, Franco Franchi, além da tremenda demanda de alimentos e sexo que lhe faz a esposa Gina Rovere, ainda é explorado pela mesma como camareiro, porteiro e faxineiro no hotel suspeito de que ela é proprietária. Desesperado procura alugar apartamento só para si, mas ai encontra uma jovem (a estranha Martine Beswick) que só não o violenta porque o “zip” do jeans dele enguiça. Mas não consegue escapar e acaba sendo filmado com a alucinada Martine (que, depois ele descobre, ao invés de modernosa liberada ou ninfomaníaca, é uma mera e profissional prostituta), por uma Jane Fonda da TV italiana, louca por escândalo e Ibope (Franca Valeri). Tentando ainda salvar-se Franco dispara contra Martine, mas a arma falha, e, acuado pelas duas, só pode implorar desesperado: “Manteiga!”. Para o crítico Tom Milne, de qualquer maneira, o filme com Brando e Maria Schneider é muito mais engraçado.”

Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 06/07/80.

domingo, 30 de março de 2008

BEIJO NA BOCA

"Chega afinal a versão cinematográfica do caso Lou-Wanderley Quintão. Com outro rótulo, é claro, mas sempre aquele caso de sexo, passionalismo e crime que o senso de “oportunidade” do produtor-diretor Jece Valadão, assim que o mesmo aconteceu, logo pensou em filmar. Mas a produção agora, conjunta, é de Paulo Thiago e Pedro Carlos Rovai. A julgar pelo trailer parece que ambos não poderiam ter agido melhor, em que pesem certas características do ambiente, do cinema e até da linguagem carioca, sempre dando uma idéia errada que acontecimentos dramáticos não combinam com a esteriotipada imagem que muitos adoram criar, com os maneirismos e afetações a ela inerentes. De qualquer maneira, uma salutar incursão no plano de estrelismo positivo, ainda que só a personalíssima, promissora e meritória Cláudia Ohana e a veterana Joana Fomm acima de quaisquer (ou muitas) restrições. A ambientação promete ser boa."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 10/10/82.



DEZENOVE MULHERES E UM HOMEM

"A primeira fita de David Cardoso sem direção de Jean Garrett, com quem o industrioso “galã” havia obtido seus três últimos próprios e ponderáveis êxitos comerciais: “A Ilha do Desejo”, “Amadas e Violentadas”, “Possuídas pelo Pecado”. Garrett, agora independente, pessoal (e auspicioso) com “Excitação”. David prossegue e talvez tenha exacerbado a fórmula narciso-erótico-comercial de toda a sua filmografia como “astro-produtor”, mas agora acumula também as funções de diretor. Tomara que com o mesmo surpreendente élan e “boa mão” revelados por John Herbert. No elenco os realces deverão ir para Aldine Muller (sempre lembrando o tipo de jovem Margaret Lindsay), talvez para a reaparição de Lisa Negra, para Patrícia Scalvi(que constituiu revelação em “Presídio de Mulheres Violentadas” e parece um misto de Louise Platt, Margaret O’Brien e da escocesa Siobhan MacKenna, a Virgem Maria do último “Rei dos Reis”) e para atores como Miro Carvalho (com seu tipo interiorizado de rapaz índio), para o eficiente Nelson Morrison e para o tipo peculiar e efetivo do diretor Ozualdo Candeias."


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 12.06.77.