terça-feira, 1 de julho de 2008

O HOMEM DE FERRO ("Czlowiek z Zelaza")


“Wajda já teve seus pecados. O celebrado “Cinzas e Diamantes” (“Popiol I Diament”), que revelou o simples, cordial, inteligente e simpaticíssimo (em pessoa) mas muito “Actor’s Studio” (em cena) Zbigniev Cybulski, em verdade era muito obra para aquele vagamente sonhador tipo de stalinismo que hoje (só hoje?) cobra um preço feroz da humanidade e faz o mundo passar um século de verdadeira regressão e essencial tortura. É fato que, depois, em 1961, com “Sansão, a Força contra o Ódio”, a melhor fita que o cinema produziu até hoje sobre o sofrimento judeu, Wajda já se redimiria das ilusões de seu virtuosístico e superestimado filme de 1958. Mas nesta fase que começa em 74 ou 73, com os aqui já vistos “A Terra Prometida” e “O Homem de Mármore”, o cinema deste realizador torna-se menos de regozijo ingênuo e mais premonitório, mais antecipador, mais sensível à situação insuportável que a balela soviética criaria para a sua heróica terra e seu indomável povo. Em agosto de 1980, um venal é enviado aos estaleiros de Gdansk para recolher “material informativo” que permita desacreditar os líderes da greve que está sendo levada a efeito. A fita por pouco não poderia ser exibida entre nós. É que sua cópia chegou antes que o governo títere e Quisling de Jaruzelski mandasse interditar sua exportação. Nela, numa seqüência, como padrinho de um casamento, aparecem o próprio Lech Walesa e a lutadora Anna Walentynowicz. E constitui, como é natural, não uma quase certa promessa de bom cinema, mas também uma atração indiscutível, um dos grandes eventos da temporada. Obrigatória.”

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 04/04/82.

domingo, 1 de junho de 2008

DELITO DE AMOR ("Delitto d’Amore")

“História de amor entre um operário de Milão (infelizmente Giuliano Gemma) e uma sua colega de fábrica, Carmella (a espontânea Stefania Sandrelli), moça vinda do Sul e sufocada pelos preconceitos, pelas típicas obrigações de honra e dignidade da gente de sua região. Apesar dos percalços e da vigilância do irmão da moça, o amor vence e ambos se casam. Mas como em “Amor até a Eternidade” do japonês Eisuke Takizawa ou como “Love Story” americano com Ryan O’Neal e Ali McGraw, o Destino, a doença ou a miséria cobram o seu tributo, num desfecho que seria melodramático caso o autor Pirro e o co-roteirista e diretor Comencini não lhe dessem um adendo que o leva para um estranho tipo de contestação ou fatalismo, à maneira de Giovanni Verga ou de Grazia Deledda. A fita não foi muito bem recebida pela crítica italiana engajada, menos ainda pelo ainda mais metido e engajado (ainda que cada vez mais outro) júri de Cannes. Acontece porém que depois a engajadíssima equipe da revista “Écran” resolveu redescobrir e apoiar Luigi Comencini, o mesmo de quem a última fita aqui vista foi “Quando o Amor é Cruel” (“L’Incompresso”), ainda na inicial “fase de arte” do “Marachá-Augusta” e colocou este “Delitto d’Amore” em grande gala. Menos por isso do que pelas virtudes e delicadeza de “L’Incompresso”, mais um filme italiano a analisar com atenção.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 03/10/76.

O SENHOR DOS ANÉIS ("The Lord of the Rings")

“Mais uma vez o nosso inefável ambiente cinematográfico e “cultural” reitera-se o paraíso dos conhecimentos incompletos e das perspectivas deformadas. Quase todos os grandes centros viram, mas aqui ninguém se atreveu sequer a pensar em “Fritz, the Cat”, o celebrado primeiro desenho animado erótico a ser entregue ao público corrente. Mas chega-nos agora este “O Senhor dos Anéis”, cujo diretor é precisamente o mesmo do mesmo não proibido nem liberado “Fritz”. Desta vez, porém, a história tem outro tom, lembrando um misto da saga dos Niebelungos e o disneyano “A Espada era a Lei” do tempo do rei Arthur, o mago Merlin e a Espada Milagrosa. A ação começa no centro da Terra, lugar habitado por magos, feiticeiros, anões e outras figuras fantásticas e gira principalmente em torno do anel cuja posse daria todos os poderes a seu dono, inclusive o da invisibilidade. Parece que a inovação deste desenho foi ter sido primeiro filmado com atores e depois, sobre o movimento real dos mesmos, desenhadas as figuras animadas, captando-lhes movimentos e expressões. Críticos houve que fizeram restrições – algumas fortes – mas a curiosidade e o inusitado da experiência merecem verificação.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 27/01/80.

EMMANUELLE, PRIVILÉGIO DE POUCOS (“René la Canne”)

"Parece que ouvimos ou lemos em algum lugar que a censura ou um seu chamado “Conselho Superior” não mais iria permitir que se fizesse sensacionalismo ou deturpações na tradução nacional dos títulos de filmes estrangeiros. Mas temos visto, lido e ouvido tanta coisa...Aqui, por exemplo, Sylvia Kristel está no elenco mas seu papel é o terceiro e ela na história é uma holandesa que se chama Krista. Os personagens centrais, aliás, são os masculinos vividos por Gerard Depardieu e por esse Michel Piccoli que levando-se em conta o que vem criando de próprio e a carreira que vem tendo nos cinemas francês e italiano, podemos quase com certeza considerar o ator número um do cinema atual. O personagem de Depardieu, René Bordier, chamado La Canne, realmente existiu e foi um alegre vigarista que agiu na França ocupada de 1942. O corretíssimo Piccoli aqui faz o “flic”, o “tira” que quase inverte seu papel com o malandro. Krista, apesar de sua educação burguesa, não exita em participar das tramas ilícitas dos dois inimigos amistosos. O diretor Girod, o mesmo que estreou com “O Trio Infernal” (e era mesmo, tendo Piccoli entre Romy Schneider e Andréa Ferreol) procurou um clima inusitado de aventura, perigo e cinismo que poderá ter feito desta a fita mais interessante da semana.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 23/03/80.

A DEUSA NEGRA ("Black Goddess”)

"Misteriosa – ou nem tanto? co-produção com a Nigéria, dirigida, entretanto, por um elemento digno e respeitável como Ola Balogum. O diabo é que a influência do “cinema novismo”, ou da ânsia de folclore turístico, que são um dos muitos estigmas do cinema brasileiro, podem ter atrapalhado o cineasta africano, que tem tanto direito de fazer cinema entre nós como o tem o italiano Michelangelo Antonioni (que aliás queria e em 1969 até nos falou disso) ou o sueco Arne Sucksdorff, que aliás já vive há mais de dez anos aqui (em Mato Grosso, para sermos mais precisos), com filho nascido lá e que continua ignorado por toda a “genialidade” do uísque e do “gangsterismo” que pulula em nosso inefável ambiente cinematográfico – “cultural”, subserviente a Moscou e a quanto “bezerro de ouro” apareça na praça. Na história, um africano (Jorge Coutinho) vem ao Brasil visitar parentes e, logo, à procura de suas raízes – aqui? – vai consultar uma “mãe-de-santo” e vive então uma história de metempsicoses e avanços e recuos no tempo e no espaço, com troca, revivescência, reencarnações ou mutações psíquicas ou sociais de personagens, algo assim como “Magus, o Falso Deus”, de Guy Green ou mesmo o paulista e “maldito” “O Longo Caminho da Morte”, de Julio Calasso. A fita aqui esteve anunciada para a sexta-feira anterior, mas só anteontem é que foi lançada.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de
01/06/80.

A FORÇA DOS SENTIDOS

"A mesma complexidade de fabulação ou narrativa tem esta fita. Mas no caso os óbices não vêm do Rio, da exploração pseudo-africana ou dos vícios que, não muito estranhamente, combinam Cinelândia, praças Tiradentes e Mauá e canal do Mangue com o surfe ipanemal e a “elite” que freqüenta os “Antonio’s”. Os óbices desta vez são muito paulistas e lembram o nível intelectual, ético e político do pessepismo, de permeio com a pornogrossura, a rarefação, a “voga” pornô e a “vontade de stalinismo” da rua do Triunfo. Escritor de novelas fantásticas (hoje, e em nossos arredores?) descobre praia idêntica à imaginada em um seu romance e lá encontra estranha moça surda-muda que se transmuta em todas as mulheres que ele ali vai possuindo, com uma destreza que só o gênero e a “boca” explicam. A moça é Aldine Muller, que estranhamente ficaria melhor em papéis mais “fraternais” e recatados. Também no elenco, a austro-carioca Ana Maria Kreisler e a japonesinha Misaki Tanaka. O diretor Garrett vem de três ou quatro grandes êxitos comerciais no estilo e seria bom se voltasse à sua melhor forma de “Excitação”.”

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 01/06/80.

LUZ DEL FUEGO


““A Embrafilme não produz, não financia, nem se associa a pornochanchadas” – essa é uma saída muito hábil, como todas que sempre se arranjam neste país, onde quase nunca o cinema deixou de ser a falta de auto-estima e de planificação séria e conseqüente. Aqui em São Paulo, como sempre o desbragado populismo (a la antigo Partido Social Progessista) até que é mais bobo e mais inócuo, porque não tem (ou não pode ter) sequer a esperteza de usar celofane, literatura ou rosselinismos como “Eu Te Amo”, “A Dama do Lotação”, “Dona Flor”, “Sete Gatinhos”, “Iracema, Uma Transa Amazônica”, e por aí. Ademais, sexo ou erotismo puro não excluem a observação humana, a qualidade artística, o valor estético (e muita obra metida a social ou combativa pode ser, na realidade, bem mais pornográfica porque pervertedora). Só que é preciso haver quem faça por um motivo de criação e estilo e não para “faturar” ou só tapear. A que tipo pertencerá esta carreira mais “Praça Tiradentes” do que precursora de contestação feminista de “Luz del Fuego”, que David Neves realizou com todo o aval da “Embra” e “inteligentzia” carioca? E será que o papel era mesmo para a magrinha Lucélia Santos ou mais para a pesadona Mara Prado, aliás paulistas ambas?”

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 04/04/82.

domingo, 4 de maio de 2008

CÍRCULO DE DOIS AMANTES ("Circle of two")

“O crítico do Motion Picture Herald não gostou do filme. Mas não iremos deixar passar em branco a oportunidade de apreciar mais uma direção de Jules Dassin. A história gira em torno de um pintor de 60 anos, que se exilou voluntariamente nos arredores de Toronto e há dez anos não conseguia pintar nenhum quadro, até que encontra uma estudante de 16 e que igualmente se apaixona por ele. Richard Burton e a ex-atriz infantil Tatum O’Neal vivem esses papéis. Parece que Dassin teve problemas com os produtores, que remontaram o filme a sua revelia, e não queria assiná-lo. Mas mesmo assim – insista-se – este deve ser visto, mesmo porque o grande diretor revelado pela Metro em 1942 (o “short” “A Lenda do Coração”, inspirado em Poe) o thriller “Algemas para Dois”, as comédias com Susan Peters (“Cuidado com Mamãe”) e Marsha Hunt (“Sua Criada, Obrigada”, “Uma Carta para Eva”) e depois na Europa, o cineasta de Melina Mercouri em “Nunca aos Domingos”, “Promessa ao Amanhecer” e “Phaedra” e “Corações Desesperados” (este, também com Romy Schneider, e escrito por Marguerite Duras) parece que está doente, com problemas cardíacos e voltou à Grécia para ser cuidado por Melina, de cuja saúde, também, há maus boatos.”

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 26/09/82.


Homenagem ao diretor falecido no dia 31/03/08.

DIÁRIO DE UM ITALIANO ("Diario di un italiano")

“Tanto a literatura como o cinema italianos que abordam os anos 20 ou 30, em média conseguem um encanto tão específico quanto outras manifestações artísticas do país que tratam do seu período “ottocentista”, ou da primeira década deste século. É só lembrar certos filmes de Visconti (como “Senso” por exemplo) ou o “Cronaca Familiare”, de Zurlini, ou ainda “La Viaccia”, “Senilitá”, “O Belo Antonio”, “A Herança Ferramonti”, a maioria aliás do esteta Bolognini. Seria injusto igualmente não ir mais antes e lembrar também o “Pequeno Mundo Antigo”, de Soldati-40 ou “L’Edera”, de Augusto Genina-50, este baseado em romance de Grazzia Deledda, bem como algumas outras recriações desse tipo de clima feitas por cineastas hoje esquecidos, como Gianni Franciolini ou Flavio Calzavara. Claro, é uma peculiaridade peninsular e portanto natural, espontânea e que dificilmente pode deixar de manifestar-se. E ela está toda aqui neste filme bonito e pleno de sentimento e delicadeza do novato (ou bissexto) Sergio Capogna baseado num conto, “Vanda” de Vasco Pratolini. Gira sobre o romance entre o filho de um socialista assassinado e uma moça judia na Itália de 1938, prestes a se envolver na II guerra. A ação começa em 1920 e se passa toda em Florença. A personagem título é interpretada pela estreante Mara Venier, mas a grande presença, claro, só poderia mesmo ser a veterana e sempre maravilhosa Alida Valli.”

Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 18/05/80.

O IMPÉRIO CONTRA ATACA ("The Empire Strikes Back")

“Não deixa de causar espécie pensar que, com tudo o que já houve de pesquisa, descoberta, cristalizações, esforços, conseqüência artística e luta e coerência profissionais no cinema mundial (de Méliès ao cinema dinamarquês de Asta Nielsen e Waldemar Psilander; dos pioneiros italianos à década de Irving Thalberg na Metro, quando o estúdio passou à frente da indústria do globo e, inclusive, manteve Greta Garbo; da aurora do cinema alemão com o Expressionismo dos anos 10 e 20 até hoje com Werner Herzog; do cinema sueco de Sjostrom e Stiller à explosão polonesa no último pós-guerra; da “avant garde” francesa ao atual cinema italiano, e deste à “nouvelle vague”; do prestígio soviético ao depuramento absoluto dos japoneses) custa a crer que, com isto tudo, o cinema tenha-se desmantelado em toda a parte para que, em termos de viabilidade material, o cetro fique com a fita como “Guerra das Estrelas”! agora temos está continuação, produzida mas não dirigida pelo mesmo George Lucas (que aqui a confiou, não com muita crença, a Irvin Kershner). Aliás, não bem continuação, pois o filme anterior era baseado no quarto episódio de uma história e esta é baseada na nona e, a seguir, segundo o próprio Lucas, virão, com a devida numeração em ordem os episódios anteriores e posteriores. Indústria e técnica material e tremendo derrame de recursos financeiros antes e acima da arte. Para quem gostou...”

Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 20/07/80.

KUMOKIRI MIZAEMON, O JUSTICEIRO ("Kumokiri Mizaemon")

“Pela ambição a grande espetáculo de “background” samurai, pelos custos que, de uma forma ou outra, tiveram de ser dispendidos, pela longa-metragem, inerente aos filmes épicos (160 minutos), pelo extenso e, em muitos casos, valioso grupo de intérpretes que foi necessário mobilizar, ainda que a atual maré não ande boa para o cinema japonês (como de resto, não o anda para a maioria dos cinemas de outros países, exceção feita, talvez, aos da Alemanha, Itália, Hungria, e Iugoslávia), uma fita de certo empenho e apuro que possivelmente vale a pena examinar. No papel principal o terrível e nada japonês Tatsuya Nakadai, que Kurosawa, na falta de seu ator predileto, Toshiro Mifune, em má hora resolveu convocar, tornando a emenda pior do que o soneto (mesmo porque, Mifune, com a idade anda ficando mais contido e de certo modo já faz parte da mítica kurosaweana). Aqui o catatônico, “poseur” e aparvalhado Nakadai é um ladrão que se pretende tipo Robin Hood e tem como amantes fiéis nada menos que a sensível e suave veterana Shima Iwashita e a belíssima novata Keiko Matsuzaka. Em seu encalço está o “kabukeano” Somegoro Ichikawa, este sim um ator de verdade e dos melhores que o cinema, e os teatro moderno e clássico do Japão há uns 20 anos, contam. Entre as outras verdades e eficiências do elenco estão Joe Shishido (como um massagista cego), o também tão “kabukeano” Koshiro Matsumoto (ator, talvez, até mais clássico e distinguido que Ichikawa), além do sempre marcante e importante Tetsuro Tamba”.

Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 19/04/81.

O PREDILETO

“A grande surpresa do cinema paulista nos últimos tempos, esta estréia no longa-metragem, esta primeira obra, esta quase obra-prima de Roberto Palmari, um técnico que durante anos silenciosamente desejou fazer cinema e militou na TV, no cinema publicitario, tendo também – sempre sem alarde – por três anos ido estudar seu “metier” na Itália. De um romance de João Alphonsus saiu um filme com pontos de contato com muito do que de melhor no gênero se fez no cinema internacional, de Von Sternberg (“O Anjo Azul”) a De Sica (“Umberto D”), passando um pouco pelo Bergman de “Morangos Silvestres” ou por alguns clássicos do Expressionismo alemão. Certas imposições ou certas “concepções” do nosso ambiente, certa entrega ao “regional” ou ao “linguajar” às vezes delimitam um pouco a obra, mas o resultado é sempre CINEMA, de ponta a ponta, com uma grande fotografia do igualmente estreante (no longa) Geraldo Gabriel, com grandes papéis dados a Jofre Soares e Othon Bastos, com um bom resultado obtido por Suzana Gonçalves, com uma inesperada Wanda Kosmos, um Abrahão Farc que é humanidade pura e ininterrupta e com um Xandó Batista no maior dia de sua carreira e num dos mais patéticos personagens de toda a história do cinema brasileiro. Grande vencedor (melhor filme, ator, roteiro e fotografia) num festival “perigoso” e quase sempre saudoso dos “dirigismos” dos festivais de Brasília como o festival de Gramado, “O Predileto” é um filme nacional que rompe barreiras, que dá margem a esperanças, que se torna plenamente obrigatório."

Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 14/03/76.

O ÚLTIMO TANGO EM ROMA ("Ultimo Tango a Zagarol")

“Para o Monthly Film Bulletin inglês menos uma paródia e mais um pastiche do injustamente celebrado (como todos os que aqui conhecemos) filme de Bertolucci. O “injustamente” vem por nossa conta. Na história, Franco Franchi, além da tremenda demanda de alimentos e sexo que lhe faz a esposa Gina Rovere, ainda é explorado pela mesma como camareiro, porteiro e faxineiro no hotel suspeito de que ela é proprietária. Desesperado procura alugar apartamento só para si, mas ai encontra uma jovem (a estranha Martine Beswick) que só não o violenta porque o “zip” do jeans dele enguiça. Mas não consegue escapar e acaba sendo filmado com a alucinada Martine (que, depois ele descobre, ao invés de modernosa liberada ou ninfomaníaca, é uma mera e profissional prostituta), por uma Jane Fonda da TV italiana, louca por escândalo e Ibope (Franca Valeri). Tentando ainda salvar-se Franco dispara contra Martine, mas a arma falha, e, acuado pelas duas, só pode implorar desesperado: “Manteiga!”. Para o crítico Tom Milne, de qualquer maneira, o filme com Brando e Maria Schneider é muito mais engraçado.”

Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 06/07/80.

domingo, 30 de março de 2008

BEIJO NA BOCA

"Chega afinal a versão cinematográfica do caso Lou-Wanderley Quintão. Com outro rótulo, é claro, mas sempre aquele caso de sexo, passionalismo e crime que o senso de “oportunidade” do produtor-diretor Jece Valadão, assim que o mesmo aconteceu, logo pensou em filmar. Mas a produção agora, conjunta, é de Paulo Thiago e Pedro Carlos Rovai. A julgar pelo trailer parece que ambos não poderiam ter agido melhor, em que pesem certas características do ambiente, do cinema e até da linguagem carioca, sempre dando uma idéia errada que acontecimentos dramáticos não combinam com a esteriotipada imagem que muitos adoram criar, com os maneirismos e afetações a ela inerentes. De qualquer maneira, uma salutar incursão no plano de estrelismo positivo, ainda que só a personalíssima, promissora e meritória Cláudia Ohana e a veterana Joana Fomm acima de quaisquer (ou muitas) restrições. A ambientação promete ser boa."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 10/10/82.



DEZENOVE MULHERES E UM HOMEM

"A primeira fita de David Cardoso sem direção de Jean Garrett, com quem o industrioso “galã” havia obtido seus três últimos próprios e ponderáveis êxitos comerciais: “A Ilha do Desejo”, “Amadas e Violentadas”, “Possuídas pelo Pecado”. Garrett, agora independente, pessoal (e auspicioso) com “Excitação”. David prossegue e talvez tenha exacerbado a fórmula narciso-erótico-comercial de toda a sua filmografia como “astro-produtor”, mas agora acumula também as funções de diretor. Tomara que com o mesmo surpreendente élan e “boa mão” revelados por John Herbert. No elenco os realces deverão ir para Aldine Muller (sempre lembrando o tipo de jovem Margaret Lindsay), talvez para a reaparição de Lisa Negra, para Patrícia Scalvi(que constituiu revelação em “Presídio de Mulheres Violentadas” e parece um misto de Louise Platt, Margaret O’Brien e da escocesa Siobhan MacKenna, a Virgem Maria do último “Rei dos Reis”) e para atores como Miro Carvalho (com seu tipo interiorizado de rapaz índio), para o eficiente Nelson Morrison e para o tipo peculiar e efetivo do diretor Ozualdo Candeias."


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 12.06.77.


A FOME DO SEXO

"Mais um erotismo de encomenda, cumprido com a habitual diligência por Ody Fraga. Nada contra a encomenda, nem contra a diligência. Mas só com o provável tom e o lado adventício da obra, dois handicaps, que não são, em absoluto, inevitáveis. A história aqui parece a de “Idílio Proibido”, aquela última realização de Konstantin Tkaczenko em que a adulta Suely Fernandes cobiçava e envolvia até a morte um menino de 12 anos. Aryadne de Lima, que parece Capucine misturada a Joan Davis ou Charlotte Greenwood, apanha o marido em flagrante com a melhor amiga. Definitivamente ofendida, vai para Campos do Jordão e, apesar de assediada por um Arthur Rovedeer, cisma com um efebo daqueles típicos, que outro não é senão o frágil galãzinho do famigerado “A Filha de Calígula”. E o pior é que o referido acha que não tem vocação para gigolô e acaba preferindo sua antiga namoradinha (será que Danielle Ferrite?)."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 26/09/82.



A MULATA QUE QUERIA PECAR


"Outro nacional. Mas este da linha declaradamente “vexame”. O título já indica. De novo na co-montagem a já desaparecida Nazareth Ohana. Na história e roteiro o incrível “cômico” Paulo Silvino. E uma narrativa afim. Três casais em crise. A protagonista Bibi (Julciléa), “uma mulata sensacional, quer o desquite porque o marido Celso Faria vive paquerando as suas empregadas e suas amigas” (sic). Um outro casal vive atazanado pela sogra dele, Henriqueta Brieba. E o último par é de dois pombinhos não muito seráficos, mesmo porque o noivo é o bem desinibido (e bom ator e tipo) Antônio Pedro. Ao final, uma “festa” para espantar a “dor de cotovelo” e a qual todo mundo quer que descambe em orgia, sobretudo Julciléa. Pura “pornochanchada”, enfim. Embora pudesse ser outra coisa, caso os responsáveis se interessassem por um “específico fílmico” há mais de 60 anos definido como Cinema."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 02/12/79.


PORNÔ!

"Como “Aqui, Tarados!” e até mesmo “A Noite das Taras”, mais uma produção “hábil” de David Cardoso. Três histórias sumárias, um único autor-roteirista, três ambientes básicos, três diretores e sete figuras no elenco. Na primeira história, lembrando Stephane Audran e Jacqueline Sassard no chabroliano “As Corças”, Patrícia Scalvi e Maristela Moreno se encontram num luxuoso apartamento. Na segunda, David tem fixação por freiras e faz seu “date” Matilde Mastrangi vestir-se antes como tal. E na última, talvez com reminiscências do conto “O Espelho”, de Gastão Crulz, Zélia Diniz é uma cega que por meio de espelhos domina sexualmente e explora como criado Arthur Rovedeer (ótimo ator e tipo, como sempre) até que este descobre a artimanha e destrói todos os espelhos da casa."


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 28/06/81.


OS 7 GATINHOS

"Bergman foi profundamente marcado pelo clima “emilybronteano” e rígida e fria infância na casa de seu pai pastor protestante. Buñuel ficou indelevelmente estigmatizado pelo clericalismo de sua educação espanhola. Ambos transformaram isso nas revoltas e indagações sobre Deus em “Juventude”, “Sede de Paixões”, “O Silêncio” e nas blasfêmias de “Un Chien Andalou”, “L’Age d’Or”, “Viridiana”. A ficção de Nélson Rodrigues, verdadeiro epítome concentracionário de todas as taras e calamidades numa única unidade de tempo, espaço e família só pode vir da “Luta Democrática”, do nosso antigo “O Dia”, das manchetes “aglutinadas” de “Notícias Populares”. E com a absoluta exceção de uma das primeiras encenações ziembinskeanas de “Vestido de Noiva”, sempre nos parece absolutamente incongruente e inconvicente. Mas mais que a ficção, o que mais nos intrigaria é a maneira como se está desenrolando esse casamento de interesse ou conveniência entre o cinema-novismo e a dita “maldição” rodrigueana. E fiquemos por aqui..."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 20/04/80.



sexta-feira, 21 de março de 2008

AMOR BANDIDO *

“A formação “vivo o nosso Tempo”, “atuais universidades” ou “escolinhas de cinema” e “cineclubes” de Ana Carolina (33 anos), levou-a, em “Mar de Rosas”, a querer fazer “um ensaio ou uma reflexão sobre o Poder”, mas felizmente sua violência de espanhola de pai e mãe levaram-na, sem saber bem como, a esse grito de angústia imprecisa mas verdadeira que é “Mar de Rosas”. Já Bruno Barreto (agora 22 anos) neste “Amor Bandido”, demonstra uma visão de submundo que se aceitaria somente se vinda da idade e da experiência calejada de um repórter policial como José Louzeiro. E o que pasma é que parece que esta é uma idéia que ele tinha antes mesmo de fazer “A Estrela Sobe”, é seu projeto favorito e adiado há muito tempo. Mas quantos anos ele teria então? E desde que se trata de algo concebido como produto comercial (como todos os filmes seus, mesmo o infanto-adolescente “Tati, a Garota”) e produto de uma hipernacional, com a certeza de todos os respaldos de um poder e de um sistema, e ainda levando-se em conta que não se trata de alguém que cultua o policial ou o terrorífico, o espanto é maior. Se Ana Carolina exorcisou seus demônios interiores e o resultado foi um lancinante e puro grito feminino, que espécie de grito será este de Bruno? Sugawa aos 24 era terrível, mas seu terrível vinha de um ético e de um palpável amor à humanidade. Aqui é um terrível que nem Lovecraft ou Sheridan La Fanu seriam capazes, nem mesmo nos deteriorados Rio e São Paulo de hoje eles poderiam criar maior terror do que aquele que sentimos quando começa a se configurar qual é a atual atividade da personagem interpretado por Paulo Guarnieri. Em todo o caso, cinematograficamente o melhor filme do jovem diretor, embora nessa virtude os recursos de produção e os apoios e garantias de toda a ordem tenham um papel mais que preponderante.”

* Este filme será exibido no Canal Brasil nos dias 23/03, às 23:00hs, e 25/03, às 04:30hs.

Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 22/10/78.