sábado, 9 de junho de 2007

CIDADÃO KANE ("CITIZEN KANE")


"Mais uma oportunidade (a televisão e os cine-clubes têm dado exaustivamente, a maior parte delas, a primeira porém com o inconveniente vexatório da dublagem) para o exame ou reexame deste filme, atualmente, talvez, o mais louvado e o mais famoso da História do Cinema. Quando aqui foi originalmente lançado (antigo Cine Bandeirantes, 18 de setembro de 1941), estava-se em plena guerra, não havia a segurança oracular de uma prévia consulta a crítica estrangeira e, assim, aqueles poucos que ousaram compreendê-lo e aplaudi-lo, no mínimo foram taxados de louco, cultura Coca-Cola, imaturos etc. Mas após seu lançamento tardio em Paris, com o derrame de elogios e literatura da crítica francesa, aí então já não havia mais dúvida: tratava-se mesmo de uma obra ímpar, de tudo aquilo que os europeus estavam apreciando. De qualquer maneira, a obra posterior de Welles e exibições especiais anteriores a primeira "reprise" de "Kane" no Cine Picolino (26 de agosto de 1965) suscitaram controvérsias e posições opostas entre muitos dos que, em 41, haviam ousado gostar da película e todos aqueles que já então não mais podiam deixar de apoiar irrestritamente uma película que a crítica mundial corrente (a mesma que sempre fala em "Potemkin", "A Grande Ilusão", "Ladrões de Bicicletas", "Luzes da Cidade" etc.) agora consagrava. Como Resnais, que depois do "boom" inicial de "Hiroshima" e "Marienbad" nunca mais pôde sustentar a mesma mítica (e ao contrário de Antonioni, que agora com "O Passageiro: Profissão Reporter" - que por sinal, desde ontem voltou à exibição, no Cine Biarritz - parece ainda maior do que no tempo da trilogia "La Aventura" - "La Notte" - "L'Eclisse" ou de "Blow-Up"), o fato é que urge uma análise diversa do surgimento de Welles e sua primeira obra, de seu teor de americanidade e do teor de sua forma e de sua revolução visual e sonora. E aqui está, como dissemos, mais uma oportunidade (a fita, aliás, a 8 de julho de 68, teve uma "reprise" meio clandestina no Cine Can Can, além de ter sido reexibida pelo "Cinema de Arte Bijou" em várias outras ocasiões)."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" em 29/08/76.

3 comentários:

Ronald Perrone disse...

Nossa, Sérgio! Bem que você disse pra esperar surpresas! Excelente texto sobre Kane, mas gostei mesmo foi dos comentários sobre Antonioni e Resnais, muito bem colocados, citados, perfeito!

Ah, lá no Cine Art fiz uma pequena resenha do filme da sua musa, Isabelle Hupert em Um Assunto de Mulheres, do Chabrol. Além de outras coisas...

abraços!

sergio disse...

Eu também gostei muito dos comentários do Biáfora sobre Antonioni e Resnais, Ronald!

Opa, logo mais vou verificar o que vc disse sobre meu filme preferido da musa :)

Até mais, Ronald, abraço!

Roberto Queiroz disse...

Não é à toa que Cidadão Kane é considerado um dos maiores filmes de todos os tempos. Se até o Orson Welles considera o filme o marco da sua carreira (ele próprio admite que nunca mais conseguiu trabalhar num filme do jeito que ele queria como fez em Cdadão Kane). Estou querendo rever O Processo, mas não o encontro em lugar nenhum.

(http://claque-te.blogspot.com): Zodíaco, de David Fincher.