
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 04/02/79.
Críticas de Rubem Biáfora, selecionadas por Sergio Andrade



“Uma surpresa. De certo modo o único filme “não torto”, o filme de emoções e proposições mais diretas e mais normais apresentado no último festival de Gramado. Uma revelação vinda de Geraldo Santos Pereira, que anteriormente com seu irmão Renato havia realizado “Rebelião
Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 15/05/77.
“Filme da dupla Isabel Sarli-Armando Bó, que aqui esteve proibido pela censura por vários anos, como comprova a presença no elenco do elemento do nossos rádios, TV e teatro, Ciro Bassini, que faleceu em 16 de outubro de 1971. Isabel foi “Miss Argentina”, em 1955 ou 56 competindo com a brasileira Emilia Correia Lima e logo descoberta por Bó para o cinema. Isso com “El Trueno Entre las Hojas” (58), que no entanto aqui passou depois de “Sabalerod” (59). Prosseguiu com “Índia” (60), “Y el Demonio Creó a los Hombres” (60), “Favela” (de 61 e ao que parece o único em real co-produção com ou produção no Brasil), “Lujuria Tropical”, “
Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 29/04/79.
“O diretor Don Siegel é um caso raríssimo. Ao que lembramos assim de momento, o único na história do cinema que quarto de século após sua revelação – “Justiça Tardia” (“The Verdict”), Warner, 46 – após interregnos e filmes de algum ou nenhum interesse, reaparece e se firma com uma obra-prima absoluta, uma “reussite” até deslocada no contexto e na mediocridade estabelecida do ano (ou da década?) de sua realização: “O Estranho que nós Amamos” (“The Beguiled”) – Hollywood, 1971. É verdade que em 56 ele já havia obtido outro, mais pelo tema de “science fiction” – aqui no Brasil, praticamente impossível de ser aferido, pois à época de seu lançamento veio numa das mais típicas e sintomáticas cópias “hechitas en casa” – “Vampiros de Almas”. E, oito anos depois, fazia a refilmagem para a TV de um clássico de Siodmak, “Os Assassinos” (“The Killers”), tão apreciada que acabou adquirida para lançamento mundial nos cinemas de verdade. Agora de novo está Siegel de volta. É verdade que arcando com o peso da sociedade (compulsória desde o êxito da ajuda ou associação com o ator-produtor Clint Eastwood em “O Estranho”...). Mas talento é talento e sempre se poderá esperar algo do cineasta que aqui trata de misteriosa ou hipotética escapada dos únicos três convictos que talvez tenham conseguido fugir da ilha-presídio de Alcatraz, em seus 29 anos de sombrio funcionamento. Hoje, ‘Alcatraz”, fechada em 1963, está aberta à visitação turística desde
Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 18/11/79.
“Eis no que dá a ação quinta-coluna de certo tipo de crítica e teóricos paulistas quando, ao contrário dos cariocas, faz o que faz com São Paulo propiciando piadas como o último aborto na APCA. Com que motivação e com que respeito os financiadores, distribuidores ou exibidores paulistanos vão-se arriscar a programações mais límpidas se o escárneo e o apedrejamento é a regra para qualquer tentativa empenhada? Assim o monopólio do “sério” fica para o regional, o sestroso, o afro-sincrético que se perpetra além fronteiras de Queluz, onde está instalada a glória, o dinheiro fácil, a consagração pré-combinada, a sensação de poderio pela qual todos ficam alucinados. Com os filmes do Rio, jamais cariocas, baianos, mineiros, gaúchos e os Quislings paulistas se atrevem a falsas exigências como as que aqui nos fazem e que aliás lá na Guanabara seriam rebatidas da maneira mais “cangaceira” possível. Explicação mais viável: rivalidades pessoais, imediatismo, nenhuma afinidade, repulsa mesmo pelas fontes luso-cristão-européias que o cinema de São Paulo tem
Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 13/01/80.
“A última (foi exibida na quinta-feira) das co-produções da Embrafilme que sua distribuidora viu-se compelida a colocar por somente um dia no festival nacional do Cinesesc. Estréia do fotógrafo Mario Carneiro na direção. Na concepção e na pronta e prazerosa aceitação de tudo, os sempiternos demônios interiores da xenofobia e do maniqueísmo ideológico. Um mundo de gordos (ricos, burgueses, culpados) devora o gueto dos magros: os pobres, os desamparados, os ignorados, os humilhados e ofendidos, que nunca são aqueles que há 30 ou 15 anos vêm se beneficiando da imaturidade política e profilática que impera neste país. A crítica carioca afim, e a colonizada por ela, só poderia adorar e ver inteligência e carapuças geniais
Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 06/04/80.
“Um menino (Ken Tanaka), filho único, é assassinado por um débil mental (Shinobu Otake). O pai, enlouquecido ante a impotência da justiça, procura, como na sentença bíblica, tomá-la em suas próprias mãos, inclusive para que o fato não se repita e outros pais venham a sofrer o mesmo. A fita ficou em quinto lugar entre as dez melhores de 1979, escolhidas pelo Kinema Junpô, a revista quase oficial do cinema japonês. O primeiro lugar coube a uma direção de Shohei Imamura, que assim voltou ao realce no cinema de sua terra. E, tanto numa como noutra, o ator considerado melhor foi Tomisaburo Wakayama, intérprete realmente excepcional, o mesmo das séries dos bonzo malandro e do renegado vingador e o qual, há mais de 10 anos, vimos apontando como uma espécie de Charles Laughton da melhor fase (anos
Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 02/08/81.
“Esta série do casadouro e sempre rejeitado caixeiro-viajante interpretado por Kiyoshi Atsumi e realizada por Yoji Yamada chega à vigésima quarta fita. Parece que já chegaram à trigésima e que a próxima deverá ser parcialmente “rodada” no Brasil. Esperemos que Yamada escolha para a namoradinha auri-verde do herói uma real, jovem e bonita atriz, e não alguma exagerada cantora de forró-turístico, senão o vexame será o habitual, sempre que chega algum desavisado (ou não tão ingênuo) cineasta de fora. Neste filme número
Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 27/12/81.
“Musical (dos EUA ou, talvez, de Israel), provavelmente desservido pela múltipla atuação do medíocre Menahem Golan. No entanto, o cenógrafo Jürgen Kiebach e a figurinista Ingrid Zoré são os mesmos e excepcionais de “Tiro de Misericórdia”. A ação gira em torno do poder do “rock” no ano de 1994. Não será um tanto prematuro, ou um tanto “ficção científica”, pensar que daqui a 13 anos o “rock” continuará mandando nesta verdadeira areia movediça em que se estão transformando a vida e a sociedade em nosso planeta? Bastará que alguém invente algum satânico dispositivo, tipo antigo rádio combinado com TV, mas sem necessitar estação transmissora e dependendo apenas de um dial maluco que capte imagens e sons que se estarão passando em qualquer local e hora sem precisar mais nada que algum cruzamento de tabelinhas e o mundo inteiro, “privacidade” (vá também lá a palavra pernóstica) alguma, segredo algum, esconderijos quaisquer, ficarão a salvo da devassa ou da bisbilhotice dos possíveis futuros seis, oito ou dez bilhões de seres à deriva que estarão saturando o planeta. Segundo a sinopse, “a época é 1994 e o mundo estará completamente louco. Essa loucura exterioriza-se principalmente através da música. Sua explosão maior acontece num festival de música transmitido mundialmente através de 99 canais dolby, que desencadeia uma verdadeira orgia de emoções e histeria. Pandi (Grace Kennedy) e Dandi (Allan Love) são os astros de rock do momento e apresentam seu último sucesso The Bim que está preparado para levar todos ao delírio. Nos bastidores estão Bogdalov (o horrível Vladek Sheybal), o diabólico promotor do festival e seu assistente Shake (Ray Shell), ocupadíssimo em manter o frenesi da música alucinante. De repente, algo sai errado. Dois novatos, Alphie (George Gilmour) e Bibi (Catherine Mary Stewart), entram no palco para defender a composição deles, concorrente no festival...”. O pior, ou o irônico é que com toda essa pretensão futurológica, desde o advento do sonoro em 1929, de certo modo, tal tipo de história e de “problemática” já foi feita e invectivada como “escapista e superficial”, pelo menos um milhar de vezes.”
Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 10/01/82.
“Uma das poucas e gratas surpresas que o cinema de Hollywood tem podido nos dar nos últimos tempos. Esta primeira direção de Lawrence Kasdan. Como que o roteirista desse convencionalíssimo e ultra-comercial “Os Caçadores da Arca Perdida” e também dos incolores “Cuidado com meu Guarda Costas” e “Brincou com Fogo...Saiu Fisgado” pôde fazer um filme que, talvez mais que o “Chinatown”, de Polanski, reporta-nos ao melhor clima daquilo que os críticos franceses talvez com certa impropriedade chamam de o “cinema noir” americano? A crítica e folhetos dos EUA falam de semelhanças com “Pacto de Sangue”, “The Maltese Falcon”, “Sunset Boulevard”. Quanto aos dois primeiros, principalmente “Pacto”, a asserção é perfeita. A fita tem clima, tem um erotismo velado, agora não tão velado, aliás, mas poderoso; tem um tom de queda em pecado, de desafio ao abismo que lembra mesmo o melhor “elã” daqueles tempos
Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 06/06/82.
“O pobre Val Lewton jamais poderia imaginar que, 40 anos depois, seria refilmado seu maravilhoso “Sangue de Pantera”, o filme de duração (73 minutos), orçamento, elenco, ficha técnica e apoio-B, com que ele iniciou sua hoje antológica série terrorífica de 11 obras-primas nos estúdios da RKO, de
Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 05/12/82.