quinta-feira, 16 de julho de 2009

OS MENINOS ("Quien Puede Matar a un Niño?")


"Claro, não vamos falar nas infantas de Velasquez. Mas tanto a literatura mediana, como o teatro e o cinema comerciais e mesmo o jornalismo imediatista espanhol (isso para não lembrar seus segmentos hispano-americanos) sempre fizeram sentimentalismo e até extrema demagogia com a criança e seu mundo. Pois é a criança, e seu universo mágico, indiferente ou terrorífico, que vem servindo para que o cinema da Espanha dê uma arrancada tão plena de maturidade artística e tão surpreendentemente ousada no plano humano e político, como vimos em "Cria Cuervos", de Saura e "O Espírito da Colméia", de Erice. E ao que parece agora com este "Quien Puede Matar a un Niño?" uma outra terrificante alegoria à loucura do mundo moderno. Na história um casal estrangeiro - a mulher grávida - fica isolado numa ilha habitada somente por meninos, que como aqueles do filme inglês "A Aldeia dos Amaldiçoados" ou como "Os Pássaros" de Hitchcock estão dominados por estranha e niilista sanha assassina. A fita foi considerada pela crítica francesa como a melhor de 1976. E pelo "Variety" norte-americano como a mais inquietante do cinema espanhol em muitos anos. O diretor, Narciso Ibañez Serrador, era um dos mais conceituados atores da fase mais próspera do cinema argentino. Uma obra a verificar, obrigatoriamente."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 04/02/79.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

O GRANDE DESBUM


"Quase uma transcrição da peça de Martins Penna, tal como a encenou Antonio Pedro no teatro carioca e com esse trabalho ganhando o Prêmio Moliere. O encenador dividiu a direção cinematográfica com Braz Chediak, que com ele fez também o roteiro. Parece que estamos diante de teatro filmado, mesmo porque Chediak para a façanha, ao contrário de "Navalha na Carne" não contou com a presença carismática de Glauce Rocha. A peça original "As Desgraças de uma Criança", apesar de seu tom farsesco foi tratada por Penna com a seriedade de 1887. É isso que lhe dá sabor: as sombras sagradas de Labiche ("O Chapéu de Palha da Itália") e Beaumarchais ("O Barbeiro de Sevilha") não podiam deixar de estar presentes. A jovem senhora Rita (Tessy Callado) vai à Missa do Galo e deixa a aia Madalena (Marília Pera) tomando conta de seu bebê. Mas a aia igualmente quer espiar a festa e deixa seu amante Pacífico (o próprio co-encenador Antonio Pedro, também ator e, aliás, bom como tal e como tipo) vigiando a criança. Esta estranha e chora. Pacífico então veste-se de mulher para que ela o tome pela aia e fique calma. Aí chega Manoel Igreja (Ney Latorraca), que supondo que Pedro é Marília tenta seduzí-lo. Complicam-se então os qui-pro-quós, bem na linha dos séculos 18 e 19. Resta saber agora se todo este rosário de implicações e decorrências, no atual impasse em que está o cinema nacional, foi levado a termo da maneira conveniente."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 18/02/79.

GOLPE DE ESTADO À ITALIANA ("Vogliamo i Colonnelli")

"Apesar de um tanto atrasada e apesar de não sermos fanáticos por Monicelli, sempre ele tem mais obras interessantes em seu ativo que os outros diretores da semana. Por exemplo, os episódios de "As Rainhas" e de "As Bruxas", o humor "cafone" de "La Ragazza con la Pistola", o bom aproveitamento de Anna Magnani em "Risate di Gioia", os prêmios de "Os Companheiros", a "onda" feita em torno de seus dois "Brancaleone". Aqui Monicelli faz uma sátira talvez não maldosa, mas bem observada, aos golpes de estado, ao golpe dos coronéis gregos em particular. Na história, Tognazzi parece ser Grifoni, um deputado que tenta reunir vários oficiais reformados para abocanhar o poder. "Volpe Nera" (Raposa Negra) é a senha, mas o plano fracassa bem "à la buffa"; e à Tognazzi outro remédio não resta senão tentar exportá-lo para outros países, na esperança de que em algum deles funcione melhor. Não é co-produção, mas, no elenco central estão dois elementos do cinema francês: - o antes ótimo François Perier e o sempre quase canastrão Claude Dauphin. Verifiquemos."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 01/04/79.

CORAÇÃO DE CRISTAL ("Herz aus Glas")


"Depois de tantos filmes realmente políticos, humana e artisticamente empenhados Werner Herzog não precisa provar talento nem sua sinceridade de engajamento. Mas a crítica internacional e mais a nacional, viciadas como estão nesse tipo de máfia para o sossego e a garantia de acesso a honrarias e bem remunerados postos de comando (acrescidos ao vezo de querer sempre participar das cristas da onda, dos blocos do poder e do consenso comum e de ser a celebrada "maioria compacta", enfim) parece que andou lhe cobrando essa prova inútil e até ridícula a propósito desta fita, na qual ele, inspirado no folclore e nas legendas bávaras, faz uma espécie de arqueologia e ao mesmo tempo premonição ou avaliação de um apocalipse que, pelo visto, está próximo. No mínimo, o apocalipse da ética e da cultura que a humanidade criou ou acumulou desde que começou a raciocinar. Claro, o assunto não é para o eterno otimismo festivo, mas preferimos acreditar no cineasta de "Aguirre, a Cólera dos Deuses" e "O Enigma de Kaspar Hauser" e procurar as relações que esta sua fita poderá ter com o grande romantismo alemão e com o mergulho na poesia elemental que lembramos do realmente excepcional "Das Blaue Licht" ("A Luz Azul"), o famoso e aqui comercialmente inédito "filme de montanha" que Leni Riefenstahl dirigiu em 1932. A ver urgentemente e sem os famigerados "parti-pris"."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 22/04/79.

terça-feira, 14 de julho de 2009

PERIGO NA MONTANHA ENFEITIÇADA ("Return from Witch Mountain")

"Seqüência de "A Montanha Enfeitiçada" ("Escape to With Mountain"), a produção de Disney na qual um menino Tony Malone (Ike Isenmann) e sua irmã Tia (Kim Richards), dotados de poderes paranormais e de misteriosa origem - provavelmente vindos de outro planeta - caíam na alça de mira de um multimilionário (Ray Milland) e seu terrível empregado e acólito (Donald Pleasence) para que o potentado, utilizando os dois órfãos, conseguisse seu louco sonho de dominar o mundo. Claro, nessa primeira aventura os orfãozinhos eram ajudados e salvos pelo bondoso Eddie Albert. Aqui a coisa deverá ser mais séria, isto é os perigos mais tremendos e a salvação mais problemática. Não porque agora o "super vilão" é Christopher Lee, o pretenso êmulo ou sucessor de Bela Lugosi, que em vez personalidade de fato fascinantemente satânica do mítico ator húngaro mais parece uma velha moralista e digestiva "menagère". Mas sim porque sua comparsa é a eterna Bette Davis, sempre imbatível e implacável, se bem que este não seja o tipo de filme que ela ainda mereceria ter à sua livre escolha. Quem sabe ainda Hollywood acorde e resolva aproveitá-la em papéis na linha da Martha de "Quem Tem Medo de Virginia Wolf?" (que, parece, ela fez no teatro e queria repetir no cinema mas a preocupação com a bilheteria do momento fez com que entregassem à ineficácia Elizabeth Taylor). Ou ao papel de Clara em "A Visita da Velha Senhora" que confiaram a uma Ingrid Bergman bela, doce, simpática e ainda jovem demais no filme de Bernhard Wicki. Enfim, pela primeira vez, excluindo é claro os casos das figuras animadas da madrasta de "Branca de Neve" e da Madame Medusa de "Bernardo e Bianca", pela primeira vez numa fita de Disney o principal, o toque melhor deverá ser dado por uma personagem má."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 29/04/79.

O IMPORTANTE É AMAR ("L'important C'Est D'Aimer")

"Reabre-se finalmente o Cine Gazetinha. E, a julgar pelas referências da crítica francesa, de maneira louvável, com um filme muito elogiado e que deu o prêmio "Cesar", de melhor atriz do cinema da França em 75, a Romy Schneider. Ela aqui interpreta uma atriz fracassada, que sobrevive fazendo papéis aviltantes em filmes pornográficos, até que lhe surge uma possibilidade de reabilitação com bom papel ou peça teatral séria. A heroína agarra-se com todo o desespero à oportunidade, mas os obstáculos materiais, morais e afetivos que lhe surgem pelo caminho exigem esforço sobre-humano. O diretor Andrzej Zulawski nasceu na Polônia em 1940, formou-se pelo IDHEC em 1957 e logo mais já era assistente de seu compatriota e xará Wajda em "Sansão", "Cinzas" e no episódio de "O Amor aos 20 Anos". Na fotografia está o argentino Ricardo Aronovich, de importante atuação no nosso cinema com "Os Cafajestes" e "Os Fuzis". Segundo um crítico de Paris o filme significa "A aparição da inteligência no cinema comercial francês". Para outro é "uma obra-prima". No elenco, além de Romy, que de qualquer maneira com prêmios e elogios ou não, sempre foi maravilhosa, duas curiosidades: - a famosa atriz e modelo "pornô" Claudine Beccarie e o veteraníssimo Sylvain, que na versão silenciosa de "La Passion de Jeanne D'Arc" (realizada por Carl Dreyer, com Renée Falconetti e Antonin Artaud, em 1928, e a mais famosa de todas) fazia o terrível inquisidor reverendo Cauchon."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 06/05/79.

CHANTAGEM E CONFISSÃO ("Blackmail")

"Como aconteceu na programação de arte do extinto "Marachá-Augusta", já começa a dar seus frutos a ida de Álvaro Moya para a TV Tupi. Um dos sinais, este "Ciclo Hitchcock", que apresentará boa parte dos filmes inéditos da primeira fase inglesa do cineasta. Este filme, aqui comercialmente inédito (como os nove primeiro silenciosos e os oito primeiros sonoros do realizador de "Vertigo"), é de 1929 e a princípio foi "rodado" mudo. Mas veio o som e então a possibilidade de adicionar-lhe ruídos, música e falas. Acontece porém que a estrela, a alemã Anny Ondra, não sabia inglês ou não tinha suficiente dicção e assim foi "dublada" por Joan Barry, o que iria prejudicar-lhe a carreira na Grã-Bretanha. Anos depois ela se casaria com o boxeador Max Schmelling e voltaria a tentar a sorte na Alemanha. Juntamente com "The Lodger", de 26, "Blackmail" constituiu um dos dois maiores êxitos de Hitch nesses seus começos. Segundo referências críticas, o toque hitchcockiano já está bem palpável na narrativa. "Blackmail" vem "dublado", mas vem, ainda que com meio século de atraso e via a pequena tela da TV. Mas antes tarde do que nunca, e antes pouco do que nada. A ele, pois."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 24/06/79.

ESPOSAMANTE ("Mogliamante")

"Mas numa ótica atual, não há dúvida que a estréia mais satisfatória destes sete dias de cinema é esta nova realização de Marco Vicario, o antigo ator que se iniciou como diretor em excelente plano de exigência cinemática com "As Horas Nuas" (1964) mas logo no ano seguinte se afirmava quase que apenas mais comercialmente com uma aventura policial á italliana como "Sete Homens de Ouro". Aqui Vicario parece ter voltado um tanto ao clima de "As Horas Nuas", de permeio com semelhanças a obras de prestígio de outros colegas seus como Mauro Bolognini ("Ferramonti", "Per le Antidre Scale"), Patroni-Griffi ("Divina Creatura"), Monicelli ("Os Companheiros"). Na história, o desencontro de um casal. A mulher Antonia (Laura Antonelli), sente-se insatisfeita com o desinteresse do marido, Luigi (Mastroianni), negociante de vinhos, anarquista militante e mulherengo inveterado. Uma intriga política obriga Luigi a procurar passar por morto e se refugiar no sótão da casa de um vizinho, Vincenzo (Gastone Moschin). Ignorando que o marido esteja vivo, Antonia se liberta e passa a se redescobrir como mulher e, ao mesmo tempo, a descobrir as outras verdades sobre a existência e a personalidade do marido, até que um imprevisto põe novamente face a face o homem, derrotado, e a esposa, conscia de todo o seu fascínio feminino. A ação se passa no início do século e isso - segundo voz geral - permitiu um primoroso trabalho de reconstituição de época, todo um requinte de produção. Também segundo referências unânimes, o melhor filme de Vicario desde sua promissora estréia em "Le Ore Nude" e um dos melhores do cinema italiano nestas duas últimas temporadas."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 15/07/79.

HISTÓRIAS QUE NOSSAS BABÁS NÃO CONTAVAM

"A Cinedistri, que começou e cresceu sempre à sombra e ao deleite do fenômeno "chanchada", e "chanchada" preferível e principalmente carioca, só mesmo ela poderia ser a pioneira do gênero que, ao que parece, agora vai criar mais este seu "novo grande esforço de produção" - não uma "pornô-chanchada" como "O Bem Dotado" etc. mas um "pornô-conto-de-fadas" (como aliás já se andou falando em outros países). Aqui é Branca de Neve que entra em causa, aproveitando construção típica existente, não lembramos onde, e provavelmente parte das roupas e adereços de "Independência ou Morte" e do ainda inédito mas anterior "O Caçador de Esmeraldas". E assim temos uma Clara das Neves na pele da mulatinha Adele Fátima e sete anões "tarados" - sete não, porque um é muito doméstico e entra na ação para propiciar um final bem mais de acordo com as intenções da película cujo próprio folheto publicitário classifica de "sátira à brasileira", "repleta do mais requintado e autêntico humor...e que atinge em sua plenitude os padrões de qualidade das maiores produções internacionais" (sic). Uma coisa é verdade: na atual "conjuntura" de nosso inefável cinema, até que a fita tem uma propriedade, dentro de seus propósitos (ou devemos dar uma de "rebelde" universitário ou intelectual de "esquerda festiva" e falar em "proposta", em "espaço cultural", "nível de leitura" e outras gírias "transcendentes" que a cada minuto são inventadas para deslumbrar os "off" situacionismo "dolce vita"?): a mobilização de Meiry Vieira, com o seu tipo de vampiro-1927, de mulher-aranha ou viúva negra, inegavelmente adequada para a rainha perversa que manda matar a pobre enteada, não por inveja da beleza, mas porque ela poderá por-lhe em perigo o trono (isto é, o poder e dinheiro) e o príncipe encantado de quem é amante. Esta sim, uma tacada de mestre!"

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo", de 18/11/79.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

TARA, PRAZERES PROIBIDOS

"O tipo da história imaginada não para qualquer retrato ou tipo de observação ou aprofundamento, mas apenas para causar o impacto (sensacionalista) hoje considerado obrigatório pelos estrategistas da produção, distribuição, exibição e quem sabe algo além...Noiva (Mariclaire Brant) e filha (Patricia Scalvi) de um viúvo (André Lopes) "após algumas desilusões com homens, acabam se encontrando"...Para agravar a situação perigosos marginais, fugindo da polícia, invadem a chácara onde o estranho triângulo estava confinado, submetendo ao imaginável não só as duas moças como também a empregada (Tania Poncio), até que o caseiro (Alexandre Dressler) resolve reagir. E o final - feliz ou regenerador? - torna-se previsível. O diretor Castellini é o mesmo co-roteirista ou colaborador de alguns filmes do produtor Mansur e já estreou na direção com "As Amantes Latinas" (não confundir com o filme de Sidney Magal, também já exibido). No elenco, menção para Patricia Scalvi, que lembra Margaret O'Brien, Shioban McKenna ou Claire Bloom e que, apesar do tipo "mignon", tem o porte e "charme" de alguma específica atriz escossesa."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 30/12/79.

Patricia Scalvi, que agora é dubladora, falando de sua profissão.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

O SEMINARISTA


“Uma surpresa. De certo modo o único filme “não torto”, o filme de emoções e proposições mais diretas e mais normais apresentado no último festival de Gramado. Uma revelação vinda de Geraldo Santos Pereira, que anteriormente com seu irmão Renato havia realizado “Rebelião em Vila Rica”, “Grande Sertão – Veredas” e “A Balada dos Infiéis”. A história deriva de uma obra romântica de Bernardo Guimarães (um Bernardo Guimarães longe, felizmente, dos desvios e exageros de “A Escrava Isaura”) e deu em resultado um filme que exceto algumas pouco graves assimetrias formais, uma abrupta, questionável e mal equacionada, ainda que intensa e bonita sequencia de amor físico no pré-final, tem belíssimos momentos de inspiração: a chuva que, separando materialmente, aproxima em sentimento os dois amantes, a caminhada de Louise Cardoso até a cerca carregando o cesto de roupas, a maravilhosa imagem da cabana sob a tempestade noturna com a palmeira fustigada pelo vento. Este nosso “O Seminarista” de certo modo lembra “Torgus” o estranho e impressivo filme alemão que Hans Kobe dirigiu em 1922. E o drama religioso, vindo do romantismo de Guimarães, na época atual adquire um tom de registro das restrições de um tempo, muito válido para tempos posteriores e para outros cerceamentos e imposições. No elenco, revelações com Eduardo Machado (que lembra o Paulo José do início em “O Padre e a Moça”) e com Louise Cardoso (que lembra também algo da Eliane Lage de “Caiçara”), uma caracterização fidelíssima ao espírito do tempo com Nildo Parente e um ou dois lampejos da maior essencialidade com o excepcional Xandó Batista de “O Predileto”. Um filme brasileiro reconfortante e obrigatório.”


Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 15/05/77.

MULHER PECADO (?)


“Filme da dupla Isabel Sarli-Armando Bó, que aqui esteve proibido pela censura por vários anos, como comprova a presença no elenco do elemento do nossos rádios, TV e teatro, Ciro Bassini, que faleceu em 16 de outubro de 1971. Isabel foi “Miss Argentina”, em 1955 ou 56 competindo com a brasileira Emilia Correia Lima e logo descoberta por Bó para o cinema. Isso com “El Trueno Entre las Hojas” (58), que no entanto aqui passou depois de “Sabalerod” (59). Prosseguiu com “Índia” (60), “Y el Demonio Creó a los Hombres” (60), “Favela” (de 61 e ao que parece o único em real co-produção com ou produção no Brasil), “Lujuria Tropical”, “La Leona”, “La Diosa Impura” (64), “La Mujer Del Zapatero”, “Los Dias Callentes” (65), “La Tentaciona Desnuda” (66), “La Señora Del Intendente”, “La Mujer de Mi Padre” (67/68). Depois vieram “Tentação Nua”, que nada tem a ver com a fita anterior de igual título original e que aqui passou devidamente remontada, enxertada e adaptada como fita brasileira em meados de 70 mas que, com o seu verdadeiro título e produtora (SIFA) argentinos, de “Extasis Tropical”, passou ao mesmo tempo em Nova York. E vieram ademais “Fogo” (“Fuego”), aqui em janeiro de 73; “Mariposa da Noite” (“Una Mariposa en la Noche”), aqui em 13 de dezembro de 1976; “Desejo da Carne” que não podemos saber qual é e nos chegou a 26 de dezembro de 1977. Finalmente, a 11 de dezembro do ano passado “Luxuria Tropical” que veio como sendo o lançamento retardado não de “Lujuria Tropical” mas sim de “La Mujer de Mi Padre”. Alguém pode entender o “imbroglio”? O fato é que a censura e as ligas femininas da Argentina vetaram os filmes do casal e embora eles façam sucesso comercial até na Inglaterra, a solução oficiosa ou passaporte são “rodagens” disfarçadas extras e/ou providenciais no Brasil ou Paraguai.”


Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 29/04/79.

ALCATRAZ, FUGA IMPOSSÍVEL (“Escape from Alcatraz”)


“O diretor Don Siegel é um caso raríssimo. Ao que lembramos assim de momento, o único na história do cinema que quarto de século após sua revelação – “Justiça Tardia” (“The Verdict”), Warner, 46 – após interregnos e filmes de algum ou nenhum interesse, reaparece e se firma com uma obra-prima absoluta, uma “reussite” até deslocada no contexto e na mediocridade estabelecida do ano (ou da década?) de sua realização: “O Estranho que nós Amamos” (“The Beguiled”) – Hollywood, 1971. É verdade que em 56 ele já havia obtido outro, mais pelo tema de “science fiction” – aqui no Brasil, praticamente impossível de ser aferido, pois à época de seu lançamento veio numa das mais típicas e sintomáticas cópias “hechitas en casa” – “Vampiros de Almas”. E, oito anos depois, fazia a refilmagem para a TV de um clássico de Siodmak, “Os Assassinos” (“The Killers”), tão apreciada que acabou adquirida para lançamento mundial nos cinemas de verdade. Agora de novo está Siegel de volta. É verdade que arcando com o peso da sociedade (compulsória desde o êxito da ajuda ou associação com o ator-produtor Clint Eastwood em “O Estranho”...). Mas talento é talento e sempre se poderá esperar algo do cineasta que aqui trata de misteriosa ou hipotética escapada dos únicos três convictos que talvez tenham conseguido fugir da ilha-presídio de Alcatraz, em seus 29 anos de sombrio funcionamento. Hoje, ‘Alcatraz”, fechada em 1963, está aberta à visitação turística desde 1973.”


Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 18/11/79.

A DAMA DO SEXO. É HORA DE SABER QUE SUA MULHER QUER SAIR DA ROTINA (?)


“Eis no que dá a ação quinta-coluna de certo tipo de crítica e teóricos paulistas quando, ao contrário dos cariocas, faz o que faz com São Paulo propiciando piadas como o último aborto na APCA. Com que motivação e com que respeito os financiadores, distribuidores ou exibidores paulistanos vão-se arriscar a programações mais límpidas se o escárneo e o apedrejamento é a regra para qualquer tentativa empenhada? Assim o monopólio do “sério” fica para o regional, o sestroso, o afro-sincrético que se perpetra além fronteiras de Queluz, onde está instalada a glória, o dinheiro fácil, a consagração pré-combinada, a sensação de poderio pela qual todos ficam alucinados. Com os filmes do Rio, jamais cariocas, baianos, mineiros, gaúchos e os Quislings paulistas se atrevem a falsas exigências como as que aqui nos fazem e que aliás lá na Guanabara seriam rebatidas da maneira mais “cangaceira” possível. Explicação mais viável: rivalidades pessoais, imediatismo, nenhuma afinidade, repulsa mesmo pelas fontes luso-cristão-européias que o cinema de São Paulo tem em essência. Manda pois a coerência – adorem uma fita como esta!”


Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 13/01/80.

GORDOS E MAGROS


“A última (foi exibida na quinta-feira) das co-produções da Embrafilme que sua distribuidora viu-se compelida a colocar por somente um dia no festival nacional do Cinesesc. Estréia do fotógrafo Mario Carneiro na direção. Na concepção e na pronta e prazerosa aceitação de tudo, os sempiternos demônios interiores da xenofobia e do maniqueísmo ideológico. Um mundo de gordos (ricos, burgueses, culpados) devora o gueto dos magros: os pobres, os desamparados, os ignorados, os humilhados e ofendidos, que nunca são aqueles que há 30 ou 15 anos vêm se beneficiando da imaturidade política e profilática que impera neste país. A crítica carioca afim, e a colonizada por ela, só poderia adorar e ver inteligência e carapuças geniais em tudo. Talvez veja mesmo – é a afinidade eletiva, o nivelamento cultural e de interesses, as amizades e inimizades, patota enfim. Ah! Como certos grupos nunca perdem seus vezos, certas tendências nunca são modificadas. Getúlio Vargas sempre disse lutar contra os males do perrepismo, que passaram por uma metempsicose para ele mesmo. O Brasil tanto falou contra o matreirismo pessedista que está ai, ainda vivo e redivivo como se nunca houvesse sido desmascarado.”


Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 06/04/80.

O PREÇO DE UMA VIDA (“Musukoyo”)


“Um menino (Ken Tanaka), filho único, é assassinado por um débil mental (Shinobu Otake). O pai, enlouquecido ante a impotência da justiça, procura, como na sentença bíblica, tomá-la em suas próprias mãos, inclusive para que o fato não se repita e outros pais venham a sofrer o mesmo. A fita ficou em quinto lugar entre as dez melhores de 1979, escolhidas pelo Kinema Junpô, a revista quase oficial do cinema japonês. O primeiro lugar coube a uma direção de Shohei Imamura, que assim voltou ao realce no cinema de sua terra. E, tanto numa como noutra, o ator considerado melhor foi Tomisaburo Wakayama, intérprete realmente excepcional, o mesmo das séries dos bonzo malandro e do renegado vingador e o qual, há mais de 10 anos, vimos apontando como uma espécie de Charles Laughton da melhor fase (anos 32 a 34), época do Nero de “O Sinal da Cruz”, do uxoricida de “Castigo do Céu”, do louco doutor Moreau de “A Ilha das Almas Selvagens”, o protagonista de “Os Amores de Henrique VIII” e o pai incestuoso de “A Família Barret”, quando ele ainda não tinha a total consciência, suficiência ou maneirismos de sua elogiada técnica teatral. Contudo, nesta fita japonesa duas más reaparições: a do diretor Kinoshita, sempre pretencioso mas pouco eficiente, e da “estrela” Hideko Takamine, invariavelmente desenxabida e estomagada. Nos demais papéis, os experientes Takahiro Tamura, que era galã no Shochiku e Sayuri Yoshinaga, uma das estrelinhas jovens da penúltima fase da Nikkatsu.”


Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 02/08/81.

É TRISTE SER HOMEM, 24ª época (“Otoko Wa Tsurayo-Haru no Yume”)


“Esta série do casadouro e sempre rejeitado caixeiro-viajante interpretado por Kiyoshi Atsumi e realizada por Yoji Yamada chega à vigésima quarta fita. Parece que já chegaram à trigésima e que a próxima deverá ser parcialmente “rodada” no Brasil. Esperemos que Yamada escolha para a namoradinha auri-verde do herói uma real, jovem e bonita atriz, e não alguma exagerada cantora de forró-turístico, senão o vexame será o habitual, sempre que chega algum desavisado (ou não tão ingênuo) cineasta de fora. Neste filme número 24, a ação se passa nos Estados Unidos e de lá foi mobilizado apenas um ator, o desconhecido Herb Edelson. A atriz que faz a irmã do protagonista é também Chieko Baisho, como sempre uma personalidade apagada, embora intérprete eficiente. E pela enésima vez está no elenco, num daqueles papéis de calmo e tranqüilo ancião que o consagraram, o veteraníssimo (e ainda vivo?) Chishu Ryu, o excepcional característico que era quase a projeção inconsciente, a imagem alter ego do falecido Yasujiro Ozu, talvez o mais representativo e clássico diretor de todo o cinema japonês.”


Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 27/12/81.

MAÇA (“The Apple”)


“Musical (dos EUA ou, talvez, de Israel), provavelmente desservido pela múltipla atuação do medíocre Menahem Golan. No entanto, o cenógrafo Jürgen Kiebach e a figurinista Ingrid Zoré são os mesmos e excepcionais de “Tiro de Misericórdia”. A ação gira em torno do poder do “rock” no ano de 1994. Não será um tanto prematuro, ou um tanto “ficção científica”, pensar que daqui a 13 anos o “rock” continuará mandando nesta verdadeira areia movediça em que se estão transformando a vida e a sociedade em nosso planeta? Bastará que alguém invente algum satânico dispositivo, tipo antigo rádio combinado com TV, mas sem necessitar estação transmissora e dependendo apenas de um dial maluco que capte imagens e sons que se estarão passando em qualquer local e hora sem precisar mais nada que algum cruzamento de tabelinhas e o mundo inteiro, “privacidade” (vá também lá a palavra pernóstica) alguma, segredo algum, esconderijos quaisquer, ficarão a salvo da devassa ou da bisbilhotice dos possíveis futuros seis, oito ou dez bilhões de seres à deriva que estarão saturando o planeta. Segundo a sinopse, “a época é 1994 e o mundo estará completamente louco. Essa loucura exterioriza-se principalmente através da música. Sua explosão maior acontece num festival de música transmitido mundialmente através de 99 canais dolby, que desencadeia uma verdadeira orgia de emoções e histeria. Pandi (Grace Kennedy) e Dandi (Allan Love) são os astros de rock do momento e apresentam seu último sucesso The Bim que está preparado para levar todos ao delírio. Nos bastidores estão Bogdalov (o horrível Vladek Sheybal), o diabólico promotor do festival e seu assistente Shake (Ray Shell), ocupadíssimo em manter o frenesi da música alucinante. De repente, algo sai errado. Dois novatos, Alphie (George Gilmour) e Bibi (Catherine Mary Stewart), entram no palco para defender a composição deles, concorrente no festival...”. O pior, ou o irônico é que com toda essa pretensão futurológica, desde o advento do sonoro em 1929, de certo modo, tal tipo de história e de “problemática” já foi feita e invectivada como “escapista e superficial”, pelo menos um milhar de vezes.”


Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 10/01/82.

CORPOS ARDENTES (“Body Heat”)


“Uma das poucas e gratas surpresas que o cinema de Hollywood tem podido nos dar nos últimos tempos. Esta primeira direção de Lawrence Kasdan. Como que o roteirista desse convencionalíssimo e ultra-comercial “Os Caçadores da Arca Perdida” e também dos incolores “Cuidado com meu Guarda Costas” e “Brincou com Fogo...Saiu Fisgado” pôde fazer um filme que, talvez mais que o “Chinatown”, de Polanski, reporta-nos ao melhor clima daquilo que os críticos franceses talvez com certa impropriedade chamam de o “cinema noir” americano? A crítica e folhetos dos EUA falam de semelhanças com “Pacto de Sangue”, “The Maltese Falcon”, “Sunset Boulevard”. Quanto aos dois primeiros, principalmente “Pacto”, a asserção é perfeita. A fita tem clima, tem um erotismo velado, agora não tão velado, aliás, mas poderoso; tem um tom de queda em pecado, de desafio ao abismo que lembra mesmo o melhor “elã” daqueles tempos em que Fred MacMurray, Humphrey Bogart, Dick Powell, Wendell Corey e outros viam-se emaranhados na selva de asfalto e alumínio, cristal e concreto que eram compelidos a enfrentar na vida americana da depressão e do sonho, da guerra e de seu perplexo tempo imediatamente após. Mas, mais que por Kasdan, “Body Heat” existe por via de um ator e personalidade singular: o William Hurt que já havíamos visto em “Testemunha Fatal” e “Viagens Alucinantes” e que, parecendo um álgido e longilíneo Gene Hackman, constitui a maior revelação do cinema norte-americano no último decênio. Um tipo de letão ou lituano, com uma vibração contida e um fogo de convicção, como Hollywood não parecia mais que poderia dar guarida.”


Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 06/06/82.

A MARCA DA PANTERA (“Cat People”)


“O pobre Val Lewton jamais poderia imaginar que, 40 anos depois, seria refilmado seu maravilhoso “Sangue de Pantera”, o filme de duração (73 minutos), orçamento, elenco, ficha técnica e apoio-B, com que ele iniciou sua hoje antológica série terrorífica de 11 obras-primas nos estúdios da RKO, de 1942 a 45 (o citado, mais “A Morta Viva”, “O Homem Leopardo”, “A Sétima Vítima”, “O Fantasma dos Mares”, “A Maldição do Sangue de Pantera”, “A Ilha dos Mortos”, “O Túmulo Vazio”, “Asilo Sinistro”, além de “Mademoiselle Fifi” e “Youth Runs Wild”). A série, praticamente descoberta pela crítica brasileira, que a princípio apressou-se atribuí-la ao diretor Jacques Tourneur, só porque isso lisonjeava seu anti-americanismo e sua francofilia, e o singular produtor, logo em meados de 43, a princípio “suspeitado” e imediatamente após (44) o denominador comum evidente com “A Maldição do...”, decididamente localizado por este crítico, seriam posteriormente (48/50), época de sua programação por nós feita no “Clube de Cinema de São Paulo”, que depois resultaria na “Cinemateca Brasileira” ridicularizados e atacados por outros críticos e facção dominante no “Clube”, então fanáticos só pela “europeice” e pelo “neo-realismo” (como será facílimo comprovar consultando os jornais da época), só há uns sete anos, com o livro que o estudioso americano Joe Siegel publicou na Inglaterra, é que viriam a ser mundialmente reconhecidos e definitivamente consagrados. “Sangue de Pantera” agora vem em Technicolor, 118 minutos, equipe extensa e dispendiosa (como atualmente é moda, dumping ou chantagem) e sob a direção do calvinista Paul Schrader (muito longe do humanismo e laicidade cultos de Lewton). Muito modificado, também, e trazendo Nastassia Kinski no papel que foi da então injustiçada Simone Simon e Malcolm McDowell transformando o médico ateu e conquistador de Tom Conway num irmão licantrópico e incestuoso. Vejamos, mesmo porque, como diz a nem sempre sábia sabedoria popular, não há como um dia depois de outro.”


Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 05/12/82.