domingo, 1 de junho de 2008

LUZ DEL FUEGO


““A Embrafilme não produz, não financia, nem se associa a pornochanchadas” – essa é uma saída muito hábil, como todas que sempre se arranjam neste país, onde quase nunca o cinema deixou de ser a falta de auto-estima e de planificação séria e conseqüente. Aqui em São Paulo, como sempre o desbragado populismo (a la antigo Partido Social Progessista) até que é mais bobo e mais inócuo, porque não tem (ou não pode ter) sequer a esperteza de usar celofane, literatura ou rosselinismos como “Eu Te Amo”, “A Dama do Lotação”, “Dona Flor”, “Sete Gatinhos”, “Iracema, Uma Transa Amazônica”, e por aí. Ademais, sexo ou erotismo puro não excluem a observação humana, a qualidade artística, o valor estético (e muita obra metida a social ou combativa pode ser, na realidade, bem mais pornográfica porque pervertedora). Só que é preciso haver quem faça por um motivo de criação e estilo e não para “faturar” ou só tapear. A que tipo pertencerá esta carreira mais “Praça Tiradentes” do que precursora de contestação feminista de “Luz del Fuego”, que David Neves realizou com todo o aval da “Embra” e “inteligentzia” carioca? E será que o papel era mesmo para a magrinha Lucélia Santos ou mais para a pesadona Mara Prado, aliás paulistas ambas?”

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 04/04/82.

domingo, 4 de maio de 2008

CÍRCULO DE DOIS AMANTES ("Circle of two")

“O crítico do Motion Picture Herald não gostou do filme. Mas não iremos deixar passar em branco a oportunidade de apreciar mais uma direção de Jules Dassin. A história gira em torno de um pintor de 60 anos, que se exilou voluntariamente nos arredores de Toronto e há dez anos não conseguia pintar nenhum quadro, até que encontra uma estudante de 16 e que igualmente se apaixona por ele. Richard Burton e a ex-atriz infantil Tatum O’Neal vivem esses papéis. Parece que Dassin teve problemas com os produtores, que remontaram o filme a sua revelia, e não queria assiná-lo. Mas mesmo assim – insista-se – este deve ser visto, mesmo porque o grande diretor revelado pela Metro em 1942 (o “short” “A Lenda do Coração”, inspirado em Poe) o thriller “Algemas para Dois”, as comédias com Susan Peters (“Cuidado com Mamãe”) e Marsha Hunt (“Sua Criada, Obrigada”, “Uma Carta para Eva”) e depois na Europa, o cineasta de Melina Mercouri em “Nunca aos Domingos”, “Promessa ao Amanhecer” e “Phaedra” e “Corações Desesperados” (este, também com Romy Schneider, e escrito por Marguerite Duras) parece que está doente, com problemas cardíacos e voltou à Grécia para ser cuidado por Melina, de cuja saúde, também, há maus boatos.”

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 26/09/82.


Homenagem ao diretor falecido no dia 31/03/08.

DIÁRIO DE UM ITALIANO ("Diario di un italiano")

“Tanto a literatura como o cinema italianos que abordam os anos 20 ou 30, em média conseguem um encanto tão específico quanto outras manifestações artísticas do país que tratam do seu período “ottocentista”, ou da primeira década deste século. É só lembrar certos filmes de Visconti (como “Senso” por exemplo) ou o “Cronaca Familiare”, de Zurlini, ou ainda “La Viaccia”, “Senilitá”, “O Belo Antonio”, “A Herança Ferramonti”, a maioria aliás do esteta Bolognini. Seria injusto igualmente não ir mais antes e lembrar também o “Pequeno Mundo Antigo”, de Soldati-40 ou “L’Edera”, de Augusto Genina-50, este baseado em romance de Grazzia Deledda, bem como algumas outras recriações desse tipo de clima feitas por cineastas hoje esquecidos, como Gianni Franciolini ou Flavio Calzavara. Claro, é uma peculiaridade peninsular e portanto natural, espontânea e que dificilmente pode deixar de manifestar-se. E ela está toda aqui neste filme bonito e pleno de sentimento e delicadeza do novato (ou bissexto) Sergio Capogna baseado num conto, “Vanda” de Vasco Pratolini. Gira sobre o romance entre o filho de um socialista assassinado e uma moça judia na Itália de 1938, prestes a se envolver na II guerra. A ação começa em 1920 e se passa toda em Florença. A personagem título é interpretada pela estreante Mara Venier, mas a grande presença, claro, só poderia mesmo ser a veterana e sempre maravilhosa Alida Valli.”

Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 18/05/80.

O IMPÉRIO CONTRA ATACA ("The Empire Strikes Back")

“Não deixa de causar espécie pensar que, com tudo o que já houve de pesquisa, descoberta, cristalizações, esforços, conseqüência artística e luta e coerência profissionais no cinema mundial (de Méliès ao cinema dinamarquês de Asta Nielsen e Waldemar Psilander; dos pioneiros italianos à década de Irving Thalberg na Metro, quando o estúdio passou à frente da indústria do globo e, inclusive, manteve Greta Garbo; da aurora do cinema alemão com o Expressionismo dos anos 10 e 20 até hoje com Werner Herzog; do cinema sueco de Sjostrom e Stiller à explosão polonesa no último pós-guerra; da “avant garde” francesa ao atual cinema italiano, e deste à “nouvelle vague”; do prestígio soviético ao depuramento absoluto dos japoneses) custa a crer que, com isto tudo, o cinema tenha-se desmantelado em toda a parte para que, em termos de viabilidade material, o cetro fique com a fita como “Guerra das Estrelas”! agora temos está continuação, produzida mas não dirigida pelo mesmo George Lucas (que aqui a confiou, não com muita crença, a Irvin Kershner). Aliás, não bem continuação, pois o filme anterior era baseado no quarto episódio de uma história e esta é baseada na nona e, a seguir, segundo o próprio Lucas, virão, com a devida numeração em ordem os episódios anteriores e posteriores. Indústria e técnica material e tremendo derrame de recursos financeiros antes e acima da arte. Para quem gostou...”

Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 20/07/80.

KUMOKIRI MIZAEMON, O JUSTICEIRO ("Kumokiri Mizaemon")

“Pela ambição a grande espetáculo de “background” samurai, pelos custos que, de uma forma ou outra, tiveram de ser dispendidos, pela longa-metragem, inerente aos filmes épicos (160 minutos), pelo extenso e, em muitos casos, valioso grupo de intérpretes que foi necessário mobilizar, ainda que a atual maré não ande boa para o cinema japonês (como de resto, não o anda para a maioria dos cinemas de outros países, exceção feita, talvez, aos da Alemanha, Itália, Hungria, e Iugoslávia), uma fita de certo empenho e apuro que possivelmente vale a pena examinar. No papel principal o terrível e nada japonês Tatsuya Nakadai, que Kurosawa, na falta de seu ator predileto, Toshiro Mifune, em má hora resolveu convocar, tornando a emenda pior do que o soneto (mesmo porque, Mifune, com a idade anda ficando mais contido e de certo modo já faz parte da mítica kurosaweana). Aqui o catatônico, “poseur” e aparvalhado Nakadai é um ladrão que se pretende tipo Robin Hood e tem como amantes fiéis nada menos que a sensível e suave veterana Shima Iwashita e a belíssima novata Keiko Matsuzaka. Em seu encalço está o “kabukeano” Somegoro Ichikawa, este sim um ator de verdade e dos melhores que o cinema, e os teatro moderno e clássico do Japão há uns 20 anos, contam. Entre as outras verdades e eficiências do elenco estão Joe Shishido (como um massagista cego), o também tão “kabukeano” Koshiro Matsumoto (ator, talvez, até mais clássico e distinguido que Ichikawa), além do sempre marcante e importante Tetsuro Tamba”.

Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 19/04/81.

O PREDILETO

“A grande surpresa do cinema paulista nos últimos tempos, esta estréia no longa-metragem, esta primeira obra, esta quase obra-prima de Roberto Palmari, um técnico que durante anos silenciosamente desejou fazer cinema e militou na TV, no cinema publicitario, tendo também – sempre sem alarde – por três anos ido estudar seu “metier” na Itália. De um romance de João Alphonsus saiu um filme com pontos de contato com muito do que de melhor no gênero se fez no cinema internacional, de Von Sternberg (“O Anjo Azul”) a De Sica (“Umberto D”), passando um pouco pelo Bergman de “Morangos Silvestres” ou por alguns clássicos do Expressionismo alemão. Certas imposições ou certas “concepções” do nosso ambiente, certa entrega ao “regional” ou ao “linguajar” às vezes delimitam um pouco a obra, mas o resultado é sempre CINEMA, de ponta a ponta, com uma grande fotografia do igualmente estreante (no longa) Geraldo Gabriel, com grandes papéis dados a Jofre Soares e Othon Bastos, com um bom resultado obtido por Suzana Gonçalves, com uma inesperada Wanda Kosmos, um Abrahão Farc que é humanidade pura e ininterrupta e com um Xandó Batista no maior dia de sua carreira e num dos mais patéticos personagens de toda a história do cinema brasileiro. Grande vencedor (melhor filme, ator, roteiro e fotografia) num festival “perigoso” e quase sempre saudoso dos “dirigismos” dos festivais de Brasília como o festival de Gramado, “O Predileto” é um filme nacional que rompe barreiras, que dá margem a esperanças, que se torna plenamente obrigatório."

Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 14/03/76.

O ÚLTIMO TANGO EM ROMA ("Ultimo Tango a Zagarol")

“Para o Monthly Film Bulletin inglês menos uma paródia e mais um pastiche do injustamente celebrado (como todos os que aqui conhecemos) filme de Bertolucci. O “injustamente” vem por nossa conta. Na história, Franco Franchi, além da tremenda demanda de alimentos e sexo que lhe faz a esposa Gina Rovere, ainda é explorado pela mesma como camareiro, porteiro e faxineiro no hotel suspeito de que ela é proprietária. Desesperado procura alugar apartamento só para si, mas ai encontra uma jovem (a estranha Martine Beswick) que só não o violenta porque o “zip” do jeans dele enguiça. Mas não consegue escapar e acaba sendo filmado com a alucinada Martine (que, depois ele descobre, ao invés de modernosa liberada ou ninfomaníaca, é uma mera e profissional prostituta), por uma Jane Fonda da TV italiana, louca por escândalo e Ibope (Franca Valeri). Tentando ainda salvar-se Franco dispara contra Martine, mas a arma falha, e, acuado pelas duas, só pode implorar desesperado: “Manteiga!”. Para o crítico Tom Milne, de qualquer maneira, o filme com Brando e Maria Schneider é muito mais engraçado.”

Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 06/07/80.

domingo, 30 de março de 2008

BEIJO NA BOCA

"Chega afinal a versão cinematográfica do caso Lou-Wanderley Quintão. Com outro rótulo, é claro, mas sempre aquele caso de sexo, passionalismo e crime que o senso de “oportunidade” do produtor-diretor Jece Valadão, assim que o mesmo aconteceu, logo pensou em filmar. Mas a produção agora, conjunta, é de Paulo Thiago e Pedro Carlos Rovai. A julgar pelo trailer parece que ambos não poderiam ter agido melhor, em que pesem certas características do ambiente, do cinema e até da linguagem carioca, sempre dando uma idéia errada que acontecimentos dramáticos não combinam com a esteriotipada imagem que muitos adoram criar, com os maneirismos e afetações a ela inerentes. De qualquer maneira, uma salutar incursão no plano de estrelismo positivo, ainda que só a personalíssima, promissora e meritória Cláudia Ohana e a veterana Joana Fomm acima de quaisquer (ou muitas) restrições. A ambientação promete ser boa."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 10/10/82.



DEZENOVE MULHERES E UM HOMEM

"A primeira fita de David Cardoso sem direção de Jean Garrett, com quem o industrioso “galã” havia obtido seus três últimos próprios e ponderáveis êxitos comerciais: “A Ilha do Desejo”, “Amadas e Violentadas”, “Possuídas pelo Pecado”. Garrett, agora independente, pessoal (e auspicioso) com “Excitação”. David prossegue e talvez tenha exacerbado a fórmula narciso-erótico-comercial de toda a sua filmografia como “astro-produtor”, mas agora acumula também as funções de diretor. Tomara que com o mesmo surpreendente élan e “boa mão” revelados por John Herbert. No elenco os realces deverão ir para Aldine Muller (sempre lembrando o tipo de jovem Margaret Lindsay), talvez para a reaparição de Lisa Negra, para Patrícia Scalvi(que constituiu revelação em “Presídio de Mulheres Violentadas” e parece um misto de Louise Platt, Margaret O’Brien e da escocesa Siobhan MacKenna, a Virgem Maria do último “Rei dos Reis”) e para atores como Miro Carvalho (com seu tipo interiorizado de rapaz índio), para o eficiente Nelson Morrison e para o tipo peculiar e efetivo do diretor Ozualdo Candeias."


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 12.06.77.


A FOME DO SEXO

"Mais um erotismo de encomenda, cumprido com a habitual diligência por Ody Fraga. Nada contra a encomenda, nem contra a diligência. Mas só com o provável tom e o lado adventício da obra, dois handicaps, que não são, em absoluto, inevitáveis. A história aqui parece a de “Idílio Proibido”, aquela última realização de Konstantin Tkaczenko em que a adulta Suely Fernandes cobiçava e envolvia até a morte um menino de 12 anos. Aryadne de Lima, que parece Capucine misturada a Joan Davis ou Charlotte Greenwood, apanha o marido em flagrante com a melhor amiga. Definitivamente ofendida, vai para Campos do Jordão e, apesar de assediada por um Arthur Rovedeer, cisma com um efebo daqueles típicos, que outro não é senão o frágil galãzinho do famigerado “A Filha de Calígula”. E o pior é que o referido acha que não tem vocação para gigolô e acaba preferindo sua antiga namoradinha (será que Danielle Ferrite?)."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 26/09/82.



A MULATA QUE QUERIA PECAR


"Outro nacional. Mas este da linha declaradamente “vexame”. O título já indica. De novo na co-montagem a já desaparecida Nazareth Ohana. Na história e roteiro o incrível “cômico” Paulo Silvino. E uma narrativa afim. Três casais em crise. A protagonista Bibi (Julciléa), “uma mulata sensacional, quer o desquite porque o marido Celso Faria vive paquerando as suas empregadas e suas amigas” (sic). Um outro casal vive atazanado pela sogra dele, Henriqueta Brieba. E o último par é de dois pombinhos não muito seráficos, mesmo porque o noivo é o bem desinibido (e bom ator e tipo) Antônio Pedro. Ao final, uma “festa” para espantar a “dor de cotovelo” e a qual todo mundo quer que descambe em orgia, sobretudo Julciléa. Pura “pornochanchada”, enfim. Embora pudesse ser outra coisa, caso os responsáveis se interessassem por um “específico fílmico” há mais de 60 anos definido como Cinema."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 02/12/79.


PORNÔ!

"Como “Aqui, Tarados!” e até mesmo “A Noite das Taras”, mais uma produção “hábil” de David Cardoso. Três histórias sumárias, um único autor-roteirista, três ambientes básicos, três diretores e sete figuras no elenco. Na primeira história, lembrando Stephane Audran e Jacqueline Sassard no chabroliano “As Corças”, Patrícia Scalvi e Maristela Moreno se encontram num luxuoso apartamento. Na segunda, David tem fixação por freiras e faz seu “date” Matilde Mastrangi vestir-se antes como tal. E na última, talvez com reminiscências do conto “O Espelho”, de Gastão Crulz, Zélia Diniz é uma cega que por meio de espelhos domina sexualmente e explora como criado Arthur Rovedeer (ótimo ator e tipo, como sempre) até que este descobre a artimanha e destrói todos os espelhos da casa."


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 28/06/81.


OS 7 GATINHOS

"Bergman foi profundamente marcado pelo clima “emilybronteano” e rígida e fria infância na casa de seu pai pastor protestante. Buñuel ficou indelevelmente estigmatizado pelo clericalismo de sua educação espanhola. Ambos transformaram isso nas revoltas e indagações sobre Deus em “Juventude”, “Sede de Paixões”, “O Silêncio” e nas blasfêmias de “Un Chien Andalou”, “L’Age d’Or”, “Viridiana”. A ficção de Nélson Rodrigues, verdadeiro epítome concentracionário de todas as taras e calamidades numa única unidade de tempo, espaço e família só pode vir da “Luta Democrática”, do nosso antigo “O Dia”, das manchetes “aglutinadas” de “Notícias Populares”. E com a absoluta exceção de uma das primeiras encenações ziembinskeanas de “Vestido de Noiva”, sempre nos parece absolutamente incongruente e inconvicente. Mas mais que a ficção, o que mais nos intrigaria é a maneira como se está desenrolando esse casamento de interesse ou conveniência entre o cinema-novismo e a dita “maldição” rodrigueana. E fiquemos por aqui..."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 20/04/80.



sexta-feira, 21 de março de 2008

AMOR BANDIDO *

“A formação “vivo o nosso Tempo”, “atuais universidades” ou “escolinhas de cinema” e “cineclubes” de Ana Carolina (33 anos), levou-a, em “Mar de Rosas”, a querer fazer “um ensaio ou uma reflexão sobre o Poder”, mas felizmente sua violência de espanhola de pai e mãe levaram-na, sem saber bem como, a esse grito de angústia imprecisa mas verdadeira que é “Mar de Rosas”. Já Bruno Barreto (agora 22 anos) neste “Amor Bandido”, demonstra uma visão de submundo que se aceitaria somente se vinda da idade e da experiência calejada de um repórter policial como José Louzeiro. E o que pasma é que parece que esta é uma idéia que ele tinha antes mesmo de fazer “A Estrela Sobe”, é seu projeto favorito e adiado há muito tempo. Mas quantos anos ele teria então? E desde que se trata de algo concebido como produto comercial (como todos os filmes seus, mesmo o infanto-adolescente “Tati, a Garota”) e produto de uma hipernacional, com a certeza de todos os respaldos de um poder e de um sistema, e ainda levando-se em conta que não se trata de alguém que cultua o policial ou o terrorífico, o espanto é maior. Se Ana Carolina exorcisou seus demônios interiores e o resultado foi um lancinante e puro grito feminino, que espécie de grito será este de Bruno? Sugawa aos 24 era terrível, mas seu terrível vinha de um ético e de um palpável amor à humanidade. Aqui é um terrível que nem Lovecraft ou Sheridan La Fanu seriam capazes, nem mesmo nos deteriorados Rio e São Paulo de hoje eles poderiam criar maior terror do que aquele que sentimos quando começa a se configurar qual é a atual atividade da personagem interpretado por Paulo Guarnieri. Em todo o caso, cinematograficamente o melhor filme do jovem diretor, embora nessa virtude os recursos de produção e os apoios e garantias de toda a ordem tenham um papel mais que preponderante.”

* Este filme será exibido no Canal Brasil nos dias 23/03, às 23:00hs, e 25/03, às 04:30hs.

Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 22/10/78.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

A EXTORSÃO *


"Um dos casos mais pungentes, talvez a ironia mais cruel da história do cinema brasileiro: justamente agora que conhecia finalmente o tão sonhado êxito, que boa parte da crítica mais lúcida, exigente ou responsável do País não se furtava, regozijava-se com o nível de criação alcançado por seus dois últimos trabalhos, o extraordinário, o pungente e belo “Relatório de um Homem Casado” e este “A Extorsão” que o crítico Ely Azeredo no “Jornal do Brasil” colocou em plano de absoluta exceção e que conquistou o prêmio de melhor filme e de melhor atriz coadjuvante para Suzana Faini no “Festival de Lages”, o batalhador Flávio Tambellini desaparece. Desaparece o homem a quem quase todos os que estão fazendo o melhor e mais amparado cinema no Brasil devem esse “simples”, esse “corriqueiro” fato de estarem trabalhando, criando, se realizando. Aqui, como no também citado e nunca suficientemente louvado “Relatório”, Tambellini utilizou-se de uma história de Rubem Fonseca e apresenta o desdobrar em leque, o movimento em espiral, a reação em cadeia de um processo de extorsão, de patologia e decadência, de contingência humana, terrível, confrangedor e quase simbólico. Um filme dos mais necessariamente a serem vistos em todo o cinema atual, um filme que também – a exemplo do que sucedeu com “O Passageiro”, de Antonioni – jamais a C.I.C. e o novo circuito Metro deveriam ter lançado sem a devida publicidade e da maneira apressada como o fizeram. De qualquer maneira, já está em exibição. E isso é suficiente e esclarecedor. A ele, obrigatoriamente. Pois outro, não haverá nunca mais."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 25/04/76.

* Este filme será exibido no Canal Brasil, dia 29/02, à 00:00h.

A ILHA DOS PRAZERES PROIBIDOS *

"Carlão Reichenbach (moço de sete instrumentos, inclusive aqueles, fortíssimos, de ser ótimo fotógrafo e câmera), dando conta de uma encomenda comercial erótico-comercial do produtor Galante e da empresa Sul-“Ouro”. Bela e perigosa jornalista é enviada à “Ilha dos Prazeres Extremos” a fim de dar cabo de três pessoas: um rebelde político e um casal de refugiados por motivos não muito claros. Carlão adora o cinema tipo deboche. “Udigrudi” (rótulo de mau gosto) como o fazem Julio Bressane, Candeias, Sganzerla (e esta fita ele a realizou pensando na iconoclastia de “A Mulher de Todos”, dirigida pelo último).
O ator Olindo Dias faz o papel de Luc Mollet, na verdade nome de um crítico “nouvelle vague” que dirigiu um filme talvez afim, chamado “Les Contrabandiers”. A atriz Neide Ribeiro parece vulgarmente bonita na tela, mas suas colegas de elenco, Meyre Vieira e Zilda Mayo precisam urgentemente trocar seus clichês “sexy”, uma para papéis como o que Gloria Holden representou no longínquo (1936) “A Filha de Drácula” e outra mais numa linha cômica entre Charlotte (Pernalonga) Greenwood e Betty Garrett. O argentino Carlos Casan já foi ator de Torre-Nilsson, Fernando Ayala e do francês Charles Deray."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 14/01/77.

* Este filme será exibido no Canal Brasil, dia 22/02, às 02:10hs.

MAR DE ROSAS *

"A formação de Ana Carolina foi a de uma típica intelectual local de nossas duas últimas décadas. Décadas nas quais o mal maior não foi própria (ou impropriamente?) as ditaduras, mas a mediocridade generalizada e inarredável e, sobretudo, o “macaqueamento” e o dirigismo cultural (de situação ou de oposição, tanto faz) a transfomar principalmente aqueles que mais se jactavam de respaldados justo na maior cota de massa mais dócil para futuros aplaudidores dos “Big Brothers”. Linda moça, interessando-se pelo “polemismo” vigente e superpassível no cinema, deixou o curso de medicina quase no fim e partiu com afinco para a liça, começando com um curta-metragem não por acaso denominado assim mesmo – “Lavra-Dor”...Mas oito filmes pelo estilo e há uns três ou quatro anos a estréia no “longa”com um documentário de 90 minutos sobre tema que para ela só podia ser extemporâneo: “Getulio Vargas”...Surpreendentemente e ainda que não abjurando (mas amadurecendo?) sua formação e o que seria lícito esperar dela, Ana Carolina consegue fazer seu segundo longa-metragem. Este “Mar de Rosas”, muito em prol da mulher mas não “feminista” na forma negativa da palavra e no qual o absurdo e as repressões (antigamente dizia-se as dificuldades, os desencontros, as misérias, a siséria) da vida e do moderno ser humano estão muito bem retratados e esmiuçados. Desde o “enigmático” crítico e excelente realizador francês Pierre Kast até o diretor paulista Walter Hugo Khouri, mais Ely Azeredo e outros críticos do Rio (só o júri de seleção do festival de Gramado é que achou que o filme não “se enquadrava em seus propósitos” e rejeitou-o no começo deste ano) a acolhida foi imediatamente entusiástica e agradavelmente surpreendida, o filme enviado à França e a nova cineasta bem prestigiada na Europa. Na história, uma mulher (La Benguel, em bem-vinda “reentrée”) não sabe se quer ou não romper com o marido (Carvana). Mas seguida e/ou espicaçada pela filha, sintomaticamente adolescente (Cristina Pereira), mata-o e foge, levando consigo a pouco equilibrada menor. Vem porém a ser seguida (ou perseguida) por um carro negro, dirigido evidentemente por alguém. O marido, que não teria morrido? Ou outro homem, que tanto poderia ser um medíocre/inocente tal o pai da menina como um terrível “porco chauvinista” (Otávio Augusto), exemplar típico do “male animal”? O tema parece que fascina. E fascina também a maneira pela qual Ana Carolina – “escolas de comunicações” e “contestarices” à parte, à distância ou mesmo esquecidas – dá um mergulho na condição da mulher, da família e dos impasses de nossos dias. Que não são lá muito diferente daquilo que sempre existiu – mudou só o “background”, o desgaste ou a degeneração de etiquetas e cortesias, o relaxo ou insânia nas modas e penteados, os inúteis abusos de linguagem, o descaro no se servir velhos tabus sob novos e mistificadores rótulos, mas a luta pela vida continua a mesma. Um filme a ver e analisar com todo o carinho."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 24/09/78.

* Este filme será exibido no Canal Brasil, dia 27/02, às 04:30hs.







O OLHO MÁGICO DO AMOR *

"Inacreditável, inesperado. De onde menos se poderia esperar (ou seja, uma exdrúxula aliança ou conluio entre a “Boca do Lixo”, os “ensinamentos fílmicos” da ECA-USP, do cineclubismo com jactâncias de classe dirigente, aliada ao comercialismo dos lamentáveis tycoons locais que só aceitam, ou mesmo impõem, filmes segundo suas visões preguiçosas, incultas e rotineiras do que fossem as únicas exigências da confluência da avenida São João com a Ipiranga) resultou um filme mágico, que é o que de mais feliz, consistente e artístico o cinema brasileiro produziu nos últimos 30 anos. Sem copiar e sem ser propriamente parecido com Belle de Jour, de Buñuel, ou com o genial “Dillinger está Morto”, de Marco Ferreri, é realmente uma simbiose ou equivalência, em termos nossos, dessas duas obras-primas do cinema mundial. Produção barata (o produtor Fragano informa-nos ter custado, com cópias e tudo, apenas seis milhões de cruzeiros), é o tipo de filme que se pode fazer quando existem duas coisas importantíssimas que se chamam talento e circunstâncias favoráveis. Como “Dillinger”, quase não tem história, como Belle de Jour, é uma projeção de anseios ou de uma realidade. Mas realidade que, embora não deliberadamente pervertida, é “apenas” observada com um visível cabedal de cultura e de gosto, de conhecimento estético e humano. Sem pretensão descabida ou maldosa, um apanhado dos mais bem logrados, de uma incoercível tendência para a degradação, para a destruição. Tudo em nome do que impera num mundo circundante, sem perspectivas e sem valores que tenham sido transmitidos como dignos de ideal ou preservação. Perfeito em tudo, da concepção à intriga, roteiro e direção, da produção à execução, com interpretação, cenografia, fotografia, música, montagem como nunca vimos amalgamar-se e funcionar tanto em condições brasileiras, um filme único que revela em sua dupla de diretores, Ícaro Martins, José Antonio Garcia, duas figuras que concretizaram o que parecia impossível: arte cinemática num ambiente e num momento terrível como este entre nós. Um filme com ousadia sexual, como se destinado para o Cine Marabá, Art-São Paulo, Marrocos ou Windsor, mas para ser degustado no Cine Liberty e para o mesmo público dos Cines Astor, Bristol ou Belas Artes, quando este está no melhor estágio de alcance artístico e de sua auto-estima de espectador culto, sensível e exigente. Obrigatório."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 06/03/82.

* Este filme será exibido no Canal Brasil, dia 28/02, às 02:00hs.

OS VAGABUNDOS TRAPALHÕES *

"Renato Aragão, porém, não receia a concorrência da Copa. Para ele, a atual maior bilheteria popular e familiar do cinema brasileiro, basta aproximar-se o período de férias e está ótimo. Ele produz mesmo seus dois filmes anuais para a ocasião e não precisa mais nada. O diabo é que, embora tenha tido o acerto de voltar a mobilizar o talento do iugoslavo J. B. Tanko (o maior e mais competente artesão de nosso cinema e quase um mago na manipulação da imagem e do ritmo, da condução geral), Aragão está não só com êxito subindo à cabeça, como também se deixando influenciar por certas falácias, imposições e lugares-comuns politicóides do meio: agora quase que se desculpa dos Ladrões de Bagdá, Cinderelos, Robin Hoods e Ali Babás de que se andou utilizando e invoca sua infância e criação no Ceará, em meio à miséria. Não precisa. Ninguém vai duvidar que ele não seja produto local. Mas podemos temer que esteja calculando demais e se deixando levar por outras miragens, sobretudo a do êxito fácil. Mesmo porque, reportando-se a outros personagens que já interpretou, a este filme não é estranha a influência de um fenômeno e um êxito que não é só de casa – a infância desvalida e massacrada tipo “Pixote”. No elenco, causa espécie a presença de uma atriz de outro escalão como Denise Dumont no segundo papel feminino."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 20/06/82.

* Este filme será exibido no Canal Brasil, dia 22/02, às 07:00hs.







CANDELABRO ITALIANO ("Rome Adventure")

"Um dos mais bem sucedidos filmes “romântico-turisticos” do tempo em que quase que exclusivamente a Itália (estranho fenômeno dos recalques e injustiças, desconversas e remorsos coletivos surgidos após a II Grande Guerra) estava na Moda, como ambiente de realismo e de sonho, como mítica de “dolce vita” e de cartão postal. Como tal, realmente funcionou para o substrato mais geral. E teve, sobretudo, o mérito de revelar uma linda figura de burguesinha e excelente atriz a franco-americana Suzanne Pleshette – que só não se firmou como “grande estrela” porque o “mood” do cinema mundial já não estava mais tão afeito como antes a valorização dos encantos da feminilidade. A fita aqui foi lançada no Cine Paissandu (a 25 de março de 1963) e depois, entre outras apresentações, já “reprisada” pelo antigo Scala e Astor (a 20 de abril de 1970)."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 09/05/76.

Homenagem à atriz falecida no dia 19 de janeiro.