"Marginais invadem a casa de uma família rica e dão vazão às suas anomalias, imobilizando e humilhando o dono e estuprando as mulheres. Alongamento de uma sequência de “O Bandido da Luz Vermelha” (a de Sergio Hingst e Liliana Kornblum, com o próprio e inacreditável Paulo Villaça no papel do tarado) ou de outra em “O Matador” com Maracy Mello e ainda Villaça! De certo modo, uma emulação (ah! Senhor Carlos Heitor Cony!) do entrecho de “Horas de Desespero” (“The Desperate Hours”), de Wyler, com Humphrey Bogart e Fredric March. O diretor, o amazonense Antonio Calmon, é o mesmo que revelou gosto visual mas acepções discutíveis em “O Capitão Bandeira Contra o Dr. Moura Brasil”. No elenco, a reunião de dois mitos do nosso cinema, cada um em seu plano e por motivos diferentes: Norma Benguel e Anselmo Duarte. Lamentavelmente e para corroborar que no ambiente de nossa cinematografia se ignoram as questões mais comezinhas, até mesmo de títulos de apresentação e publicidade fílmica, ambos, com todo o seu lastro e mesmo fazendo os papéis principais (coisa que nem sempre ocorre, coisa de que nunca cuida quem deve), não receberam o tratamento devido aos astros que realmente são (o que, ademais, teria elevado o “status” da película). Mas, em contrapartida, no mesmo cartaz, há uma apresentação de dois novos intérpretes, absolutamente sem sentido, absolutamente ignorante de que isto só se faz quando se lança de fato alguém que realmente vai ser a Ingrid Bergman de “Intermezzo” ou a Vivien Leigh de “...e o Vento Levou”."
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 06/06/76.
"Estranha a consagração de Hawks! Um diretor americano ao qual, a maioria da “crítica” que jamais se preocupa com “ninharias” de estrutura e ritmos cinemáticos, com “probleminhas” de estética, nele enxergavam essas virtudes, virtudes que, por sua vez, nunca percebiam quando mais do que flagrantes em outros diretores, em verdade muito mais cineastas. Enfim, só poderia mesmo ser assim! Aqui temos o conhecido tema de um atirador profissional (John Wayne) contratado por um barão de gado para espoliar um fazendeiro honesto. Mas naturalmente, no final, seguindo as normas do gênero, o mercenário “gunfighter” se coloca do lado da justiça. Talvez, o mérito maior desta “reprise” (aqui antes lançada a 18 de maio de 1968, no antigo Scala) seja permitir uma aferição do bom ator expontaneo tipo que era James Caan antes da fama."
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 06/06/76.
"O melhor filme de Stanley Kubrick. Muitos pontos acima da demagogia formal e da amargura-realista de cálculo de suas primeiras obras no experimentalismo do cinema independente (o aqui inédito “Fear and Desire”), na “classe-B” (“A Morte Passou por Perto”) ou na categoria intermediária (“O Grande Golpe”). Bem longe, felizmente, malogro clamoroso de “Lolita”. E afastado, ainda, da “inocência útil” do “Dr. Fantástico”, da inútil pompa técnico-artística e dos esbanjamentos de produção de “2001, Uma Odisséia no Espaço” ou ainda, do premonitório-exibicionista e sensacionalista de “A Laranja Mecânica” (aqui contraproducentemente vedado pela nossa censura). Um filme sobre uma misereanda farsa de guerra, passada ao tempo da I Mundial, na França, quando três soldados inocentes são sorteados ao acaso para morrer por fuzilamento e assim servir de “cortina de fumaça” para um erro ou um malogro qualquer na frente de batalha. Humana e realmente profunda e tocante, a fita nem parece de Kubrick, para sermos francos. Aqui originalmente lançada no circuito Marabá, em meados de outubro de 1958, “Paths of Glory”, ao que lembramos e juntamente com “Tempo de Guerra” (“Les Carabiniers”), de Godard, com “Sansão”, do polonês Wajda e com “Tri”, do iugoslavo Aleksandar Petrovic, constitui um dos raros apanhados realmente válidos sobre a guerra neste criminoso após-guerra, onde tanto e tanto, principalmente no cinema, se falou e se mistificou sobre o assunto."
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 15/08/76.
"Um misto de Gorki, Dostoievski e, talvez, Lafcadio Hearn. Uma aproximação com o redimido Kurosawa de “Ralé”, “Dodeskaden”, e “Hakuchi, o Idiota” (este já exibido pelo “Cinema Um” no Rio, mas ainda absurdamente inédito em São Paulo). Um filme de Masaki Kobayashi um dos mais “engajados” e, por isso mesmo, mais celebrados diretores do Japão, muitas vezes dado ao virtuosismo gratuito e ao proselitismo descabido (“Herança Fatídica”, “O Rio Kuroi”, “Harakiri”, “Rebelião”), mas às vezes também um humanista convincente (como nas seis épocas da primeira versão, a de 1959/61, de “Guerra e Humanidade”) ou um encenador do insólito e do caprichado, como em “Kwaidan” (“As Quatro Faces do Medo”), este por sinal derivado de contos do polonês que se tornou japonês: Hearn. Aqui a narrativa provém de um original de Shugoro Yamamoto, o mesmo autor de “Dodeskaden”. O roteiro foi escrito pela esposa do ator Nakadai, o que talvez não seja um bem. Mas a profunda humanidade de Yamamoto deve ter vencido os óbices. A fita num dos festivais de Taormina deu a Kobayashi o prêmio de melhor diretor e há dois anos foi saudada com o maior entusiasmo pela crítica argentina. A história se passa numa torva caverna da velha Edo (a antiga Tóquio), “ponto” de contrabandistas, negociantes inescrupulosos, assassinos, matricidas, meretrizes, monges depravados e apostatas, policiais corruptos, nobres decadentes, toda a escória humana. No elenco, o catatônico Nakadai é o protagonista. Mas há compensações como, por exemplo, a beleza e sensibilidade de Komaki Kurihara ou o nível do grande ator de “Kabuki” Kanemon Nakamura. Um filme japonês a ser visto, o que infelizmente já se tornou raridade neste nosso cada vez pior mercado exibidor. A ele, pois."
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 22/08/76.
"1939. São Paulo, quando faltavam fitas de classe para cinemas então importantes como o Rosário, o Broadway e o Alhambra (sem falar no saudoso Paramount, então criminosamente relegado a sala repetidora de programas duplos), esta fita foi jogada num cinema de pequenos programas-B, o Pedro II (27 de março daquele ano). E no entanto, de produção A européia que já era transformou-se logo mais num clássico respeitado em todo o mundo, um clássico que geralmente figura entre os cem ou os dez melhores de todo o cinema nos referendos de quase toda a crítica internacional. Foi depois, em outubro de 1959, já “reprisado” pelo Cine Normandie. É um libelo contra a guerra, no qual, no entanto, não há uma única grande cena de batalha, passando-se a ação em sua maior parte num campo de prisioneiros, onde Erich Von Stroheim é o oficial prussiano relutante entre carapuça do dever militar e um senso humanitário que os horrores do conflito não conseguiram destruir. Na cenografia, Eugene Lourié que depois faria bela carreira nos EUA como desenhista de produção(entre outros, “Verdoux”, de Chaplin, “Vidocq”, de Douglas Sirk, “Diary of a Chambermaid”, do próprio Renoir, com Paulette Goddard) e depois também como diretor (“O Monstro do Mar”, “The Giant Behemoth”)."
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 26/09/76.
"Motorista de estrada resolve enfrentar sozinho poderosa empresa que utiliza meios os mais brutais e inescrupulosos para forçar os profissionais ao transporte de mercadorias ilegal. O interessante seria saber porque, aonde, quem, como e qual – além do servilismo antecipado com que muitos se apavoram e julgam tornar mais “bonzinhos” os “donos da bola” – o tipo de violência, o gênero de “persuasão” que levou a aqui apresentarem esta fita em uma cópia original normalmente legendada para um “público seleto” e várias cópias dubladas para os cinemas freqüentados pelo “povão” ou pelo “povinho” (como depreciativamente muita gente mercenária e cínica costuma rotular aqueles que deveria corretamente chamar de o público), no intuito de testar a receptividade da nossa população à degradação cultural e à expoliação artística que é a dublagem. Não sabemos quais são os cinemas que vão exibir uma e outras. Agora urge uma reação à altura por parte de todos os espectadores aos interesses escusos que se escondem atrás de indecorosa medida. Mesmo porque a fita não é nenhuma obra de arte, ou nenhum divertimento realmente bem feito a ser obrigatoriamente visto."
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 10/10/76.
"Realmente um dos mais ambiciosos, trabalhados e custosos filmes produzidos ultimamente entre nós esta farandula sobre a imigração germânica ou (uma coisa ou outra?) a infiltração nazista e a permanência do espírito fascista no Sul ou no Brasil de 1936 a 1976. Devida ao mesmo Silvio Back dos polêmicos “Lance Maior” e “A Guerra dos Pelados”, a narrativa – com várias determinadas liberdades e efeitos – apresenta uma visão do problema que não poderia ser outra senão a do atual estágio da nossa “inteligentzia”. E, é claro, não se processa de maneira equivalente ao polemismo de Brecht & Pabst em “A Opera dos Pobres”, do R. A. Stemmle de “Berliner Ballade” ou do Rolf Thiele de “Das Madchen Rosemarie” (“Ídolo do Pecado”), “Moral 63” (“Alcova Secreta”), ou “Lulu”. E nem estaria em consonância com as advertências de Rosa Luxemburgo nem com os desesperados apelos das viúvas Krupskaya e Nathalia Sedova. Mas é obra beneficiada por sua complexidade e, sobretudo, pela maravilhosa paisagem e pelas imanências das regiões do Paraná e Santa Catarina que evoca e onde foi inteiramente “rodada”."
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 22/05/77.
"O momento supremo da “nouvelle vague” francesa é um dos três ou quatro, dos dois ou três mais intrigantes filmes de toda a História do Cinema. A memória, o ansiado, o temido, o acontecido, o sonhado, ou o que poderia ter sido ou o que será, tudo numa revolução narrativa e num hipnotizante depuramento clássico-expressionista de linguagem que aqui atingiu o inusitado, o inesperado e nunca mais pôde ser superado, continuado ou sequer repetido. A obra que de certa maneira encurralou seu próprio criador Alain Resnais num impasse, pois nem ele, nem outros cineastas mais puderam ir mais além, inovar mais nada. Filme de capital importância, aqui foi originalmente lançado no Cine Coral em novembro de 1962, “reprisado” em setembro de 65 no extinto St. Tropez posteriormente, em mais outra ocasião, se não nos enganamos, no próprio Coral. E ainda, a 6 de setembro de 1973, mais uma vez “reprisado” no Belas Artes-Portinari. Um impacto cinemático sempre a ver."
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 12/06/77.
"Uma obra fascinante, plena de uma vitalidade criadora nova e diferente, este primeiro – e até agora único – filme polonês de Polanski. No roteiro e diálogos a colaboração de outro polonês de imenso talento – o mesmo Jerzy Skolimowski que depois dirigiria – também como Polanski – primeiro em sua pátria e, logo a seguir no Exterior, duas outras obras-primas: respectivamente “A Barreira” e “O Ato Final”. A grande fita britânica de Polanski – e indubitavelmente uma das maiores de todo o cinema moderno – foi “Armadilha do Destino” (“Cul-de-Sac”). Aqui temos um triângulo mortal: um casal em viagem carregando todo o tipo de incompatibilidades e seu encontro com um jovem, de certo modo um precursor das pragas Beatles e “hippie”. Nesse encontro, um conflito terra a terra em seu deflagrar, mas cruel e premonitório no desencontro e convivência criminosa, uma espécie de símbolo do que logo mais iria assolar a atual sociedade. Um filme sempre digno de admiração e análise este que aqui foi primitivamente lançado no circuito Coral a 6 de dezembro de 1965, posteriormente “reprisado” pelo Cine Bretagne em junho de 1969 e, mais tarde reapresentado em mais de uma ou outra ocasião. Obrigatório."
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 31/07/77.
"Uma fantasia erótica, com heranças do cinema de “Zé do Caixão” (o próprio está no elenco, no papel de um demônio chamado assim mesmo: Sete Encruzilhada, o que dá ao filme também um indisfarçável elo de “ligação intelectual” com a macumba). Imaginado, produzido (a duras penas), escrito, criado (?), dirigido e hiper “estrelado” pela beleza quadragenária (ou década e meia além), pretendidamente à Jean Harlow ou Marilyn Monroe, que Rosangela Maldonado (a julgar pela aplicação de purpurina em “seta” e trajes) julga que pode ostentar impunemente em 1978. Na história ela é uma deusa de 2.000 anos de idade que “se conserva jovem e sedutora” dando a Zé do Caixão as almas dos inúmeros que ela consegue sugar com o beijo fatal, no “preciso momento” em que os pobres varões “mais estão cedendo à tentação”. Seu Sete, porém, é insaciável e mais almas masculinas exige, sob pena de deixá-la parecer a idade que realmente tem, se ela não lhe fornecer as toneladas do material em demanda. Uma “Ela, A Feiticeira”, “Boca do Lixo”? Ou um tremebundo “kitsch” do mesmo local para ser enviado de presente, com um “mimo” hispano-luso-afro-brasileiro a Betty Friedan? Ou talvez mais um “maravilhoso” filme nacional para ser adquirido de olhos vendados pela distribuidora-exibidora Hawai? Tudo é possível, menos a vitória – ainda que momentânea – da massa cinzenta."
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 19/11/78.
"Aceitação e concretização de um dos mais ambiciosos projetos do cinema italiano desde a “assunção” determinada internacionalmente pelos PC e “intelectuais” de todo este “snob”, farisaico e incorrigivelmente suicida mundo ocidental. Disposição de enormes custos e recursos de produção. E aqui está o novo filme (5 horas e 20 minutos na versão original, podado em mais de uma hora na versão internacional e aqui além de dividido em 2 partes ainda com cenas que passaram pela tesoura da censura), com elenco milionário (até a legendária Francesca Bertini, a belíssima e fatal “diva” das décadas de dez e vinte) no papel da Sóror Desolata, a irmã de Burt Lancaster. Intenção manifesta: começar com a execução de Mussollini e recuar até o início do século para fazer um mural “analítico” sobre o fascismo. Acontece porém que, ao que nos parece, a visão do fascismo de Bertolucci ainda é também a da “moléstia infantil” que já era pedra na inteligência, no realismo e na lucidez até dos velhos bolcheviques da revolução de outubro. Ademais, Bertolucci tem o “estilo” cinemático de contar em 330 minutos o que poderia fazê-lo até em menos de 160. Contudo, um filme cuidado, caprichado – não tem quase atores italianos, veio dublado em inglês mas tem La Bertini, tem Dominique Sanda, tem Laura Betti, tem Alida Valli – um filme importante, para quem acha que não pode prescindir de nada “que seja tido como importante”."
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 19/11/78.
"Segunda e última parte – a primeira ainda está sendo exibida no Cine Lumiére – do pretendido afresco de Bernardo Bertolucci sobre a Itália, desde a euforia da Unificação no “Ottocento”, passando pela “crise de crescimento” que culminou com a guerra de 14 e posterior ascensão do fascismo, até os dias da II Guerra Mundial e a libertação em 1945. Tudo através da existência e correlações de duas famílias dos agricultores do Vale do Pó, os Berlinghieri (os senhores) e os Daicó (camponeses e servos). Tudo muito ambicioso, muito cuidado, muito custoso, mas não era preciso 5 horas e 20 minutos para o relato, mesmo porque, tal como “O Conformista” já havia demonstrado, a idéia que Bertolucci tem do fascismo é mais a de um semi-abastado jovem de “sinistra” que pôde estudar cinema no famigerado “Centro Sperimentale”, de Roma, do que algo que corresponda à verdade (e quanto a isso, compare-se o que ele apresenta com o que realmente observaram e/ou reconstituíram Vancini em “La Lunga Notte Del 43” e “La Stagioni Del Nostro Amoré”, o Ettore Scola do recente “Um Dia Muito Especial” e até mesmo o onírico, sarcástico e narcísico mas indubitavelmente “conhecedor” Fellini em “Amarcord”)."
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 28/01/79.
"Oito estréias e duas “reprises” na semana. Cinco das estréias são americanas: “Isto Também era Hollywood”, “Maratona da Morte”, “A Última Loucura de Mel Brooks”, “A Violentada”, “Pelos Meus Direitos”. E as demais são “Polícia Contra Bandoleiros” (japonesa), “Zé Sexy Louco, Muito Louco por Mulher” (nacional) e “A Mariposa da Noite” (argentina). As “reprises” são “Caçada Sádica” (dos EUA) e “O Gladiador Invencível” (italiana).
Há uma fita de John Schlesinger com Laurence Olivier, há a estréia de Margaux Hemingway, há a “última loucura” de Mel Brooks. Mas o mais importante, o mais fascinante é a segunda parte de “That’s Entertainment”. Que traz Judy Garland, ainda menina e logo insubstituível cantora, “show woman”, atriz romântica, satírica, dramática. Que traz Ethel Waters no negro musical “Uma Cabana no Céu”, se bem que não traga os geniais Rex Ingram e Duke Ellington. Que não traz Frances Langford cantando aquele sensacional “Broadway Rhythm” em “Melodia da Broadway de 1936”, mas traz o fundamental e (no Brasil) perseguido produtor Arthur Freed cantando algumas notas de sua composição “Wedding of the Painted Doll”. Que não traz a sensualidade e a força telúrica espanhola do bailado “Niña”, com Gene Kelly, nem as expressionísticas seqüências da hipnose e enforcamento em “O Pirata”, nem ainda a imaginária ópera “Czaritza”, com música de Tschaikowski para Jeannette MacDonald & Nelson Eddy em “Primavera”. Mas traz Greta Garbo, sem John Barrymore, querendo ficar só em “Grand Hotel” e querendo ficar a sós com Melvyn Douglas em “Ninotchka”. Que traz Astaire & Ginger Rogers dançando em “Ciúme, Sinal de Amor”, traz William Powell & Myrna Loy, a maravilhosa Katharine Hepburn de “The Philadelphia Story”, “bits” de Laurel & Hardy, dos Marx & Margaret Dumont, Margaret O’Brien, Kathryn Grayson. E Mickey Rooney, Chevalier, Ann Sothern, Vivien Leigh, Clark Gable, Constance Bennett e tanta gente, e tantos trechos de filmes mais.
ISTO TAMBÉM ERA HOLLYWOOD
Seqüência a “Era uma Vez em Hollywood”, a coletânea de êxito mundial sobre os melhores (no julgamento de seu realizador Jack Haley Jr.) momentos da longa série de musicais (cerca de 200) que os estúdios da Metro produziram entre 1929 e 1958. Mais uma oportunidade para que aqui a crítica repita o medievalismo cometido quando da explosão estilística e renovadora do gênero entre 1943 e 1948 (de “Uma Cabana no Céu” a “O Pirata”). E repita também a falta de malícia ao se deixar apanhar encarando (exatamente como os “big boss” do estúdio teriam achado “produtivo”) apenas como distração, e não como uma antologia, um ensaio onde a criação artística, a seriedade e a montagem cinemática deveriam ter parte preponderante, a película anterior, aparecida em 1973.
No caso atual não houve o agrado esperado. Da crítica estrangeira atenta, conhecedora e responsável, claro. Mas não, como supõe Richard Gertner no “Motion Picture Herald” de 19 de maio último, porque “That’s nº 1” já havia esgotado o estoque, o “creme de la creme” dos “metro-musicais” de todos esses 30 anos. Mas sim porque essa era uma tarefa para ser realizada em conjunto por diretores exponenciais do gênero como Mamoulian, Lubitsch, Minnelli, em cooperação com um cineasta social, sociológico e humano como King Vidor, com talvez o Louis Malle que fez da mítica de Brigitte Bardot um documentário dramático e estético como “Vie Privée”, em colaboração com o Resnais que avançou e recuou no Tempo, na Memória e nas emoções dramáticas, visuais, musicais e de movimento em “Hiroshima” e “Marienbad” e com a perspectiva, também, de um crítico capaz de fazer de suas críticas atos de criação, de admiração, de unção e de humanismo como o inglês Tom Milne ao se debruçar sobre um filme de 44 anos atrás como “O Último Vôo”, a primeira direção americana de William Dieterle.
As omissões, a frieza, a diretriz comercial aqui estão, com certeza. E estará ainda uma apreciação geral, mais dispersiva, frívola e superficial que a que “adorou” “Era uma Vez...” Mas não importa. Porque, muito mais do que a oportunidade que poderiam dar os esforços de uma centena de cine-clubes em 30 anos, haverá a possibilidade, em trechos ao acaso, ao sabor da bilheteria, ao azar da falta de uma verdadeira edição, de uma criteriosa seleção, de uma maravilhosa criação, de se ver ou entrever o que de outra forma seria impossível.
Desde raridades como Jean Harlow em “Mademoiselle Dinamite”, como Bing Crosby cantando “Temptation” para Fifi D’Orsay em “Delírio de Hollywood”, como Judy Garland e Gene Kelly dando uma demonstração única de “Commedia Dell Arte” com o “Be a Clown” de “The Pirate”, como Fred Astaire cantando e dançando o extraordinário “Steppin Out with My Baby” em “Desfile de Páscoa”, até Greta Garbo que, segundo testemunha nosso companheiro Carlos Motta, emudeceu a sessão inaugural do último festival de Cannes quando apareceu dançando “La Chica Chaca”, no seu, à época, tão injustiçado canto de cisne “Two Faced Woman”."
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 19/12/76.
“Pseudopornô, comédia erótica (ou pornochanchada mesmo) produzida pela empresa do galã Carlo Mossy, não só para veículo estelar do próprio, mas para “faturar horrores”, que ele não oculta essa intenção. Na história três moças ricas e ociosas fazem uma aposta: quem transformaria um camelô num cavalheiro, no período de um mês? Mossy, o escolhido, é tratado a pão-de-ló mas tem inconvincentesescrúpulos românticos e moralistas. Por outra, a tarefa das meninas só seria necessária se os tempos não fossem esse que aí está. Mas como a fita parece ter sido baseada em “Irene, a Teimosa”, como o cartaz e as fotos coloridas estão surpreendentemente bem feitos e com certo gosto, como Mossy apesar da adesão ao mercantilismo do nosso cinema sempre é um tipo de alguma escola, e como desta vez o grupo de atrizes parece bonito e bem tratado, quem sabe algo menos degradante que o habitual poderá ter acontecido? Tomara, que já não é sem tempo.”
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 13/02/77.
“Quarto longa metragem de Maurice Capovilla. Os dois primeiros ele fez porque imaginou e quis: “Bebel, Garota Propaganda” e “O Profeta da Fome”. O terceiro reescreveu e dirigiu a nosso convite, baseado num “livro poético” escolhido pela atriz Amiria Veronese e projeto do qual Ozualdo Candeias havia desistido. Nova história e “script” porém eram seus, ele teve liberdade de fazer o que podia, dados urgência de tempo e algum compromisso com o “motivo” inicial. Mas certamente algo ligado ao cinema de Val Lewton ou ao “Belle de Jour” de Buñuel não se relacionava com a vivência ou a ambientação paulistana que muitos louvaram em “Bebel” e que parece ser o que mais o interessou no conto de João Antonio que agora levou à tela e do qual há referências ótimas e aguardamos o melhor resultado.”
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 27/11/77.
“Desde sua pré-história com “O Crime de Cravinhos” ou as várias versões dos mais de um reais “Crimes da Mala” até “O Assalto ao Trem Pagador”, e de “O Assalto” até o “oportuno” e “utilíssimo” “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia” que uma das “piéces de resistence” ou das “weakness” do cinema nacional vem sendo o aproveitamento de casos policiais ou crimes famosos. “O Caso Cláudia” não poderia escapar à regra, ainda que (como aliás no mundo todo, sobretudo no cinema norte-americano) para evitar aborrecimentos posteriores o mais prático seja sempre utilizar o chamariz da manchete e tratar o problema por analogias, tangentes e advertências. Aqui o caso é mais de Flávia (Kátia D’Angelo) que de Cláudia (a novata Lilian Stavik, em fugaz ponta). Evidentemente este não é o filme sobre o Piauí que o ferrenho mas reflexivo e aberto Miguel Borges (o mesmo do valiosamente visual “Pecado na Sacristia”) continua devendo ao cinema brasileiro, mas parece ser obra em que seu empenho de realizador sempre se faz sentir. Pelas fotos, há que salientar a propriedade da colocação do ator teatral Jonas Bloch no personagem decalcado em Michel Frank. E a seu propósito saem também crítica e reportagem nesta mesma edição de hoje.”
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 05/08/79.
“Um dos filmes mais esperados da moderna produção nacional. Estreando como diretor-autor, Alberto Ruschel situa-se num plano diverso de quase todos os seus colegas atores (Dionísio Azevedo, Jece Valadão, Aurélio Teixeira, Egidio Eccio, David Cardoso, John Herbert, Sergio Hingst) que também passaram à realização, obtendo uma obra certamente alheia a certos cânones, mas sem nunca desdenhar o insólito, o inédito, o poético, o estremamente pessoal, o absolutamente seu. A ação, praticamente um duo. Um velho marujo que vive num lugar isolado. A menina (Débora Duarte) que foge de uma provação pensando em suicídio e coloca-se sob sua proteção. E a volta dos criminosos, que ainda pensam em se vingar de sua vítima. Um filme estranho e bonito, “rodado” em maravilhosos locais do Rio Grande do Sul e que precisa ser devidamente apreciado.”
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 14/10/79.
“Nova realização de Fauzi Mansur. Quanto ao ponto de partida, uma espécie de “Uma Virgem para o Príncipe”, mas a ambientação (e as imposições medievais) trocados dos feudos renascentistas para o bairro do Canindé e os costumes e códigos de honra dos descendentes de italianos, trazendo um polígamo e feliz borracheiro (o basco Serafim Gonzales), só que preocupado porque seu sensível filho (Arlindo Barreto) anda em companhias dúbias e ainda não provou seus pendores para o sexo oposto. Tudo faz para resolver o problema, até mesmo recorrer aos bons ofícios da submissa amante (Helena Ramos, mais aceitável porque, como em “Bacalhau”, devolvida ao seu natural que é o ambiente suburbano e sem sofisticação alguma). Mas como peixe n’água deverá estar Rossana Ghessa, que como legítima italiana fica ótima em papéis populares, à Monica Vitti ou Mariângela Melato, conforme já o provou em “Convite ao Prazer” e na “comédia à italiana” em episódios: “As Secretárias que Fazem de Tudo”.”
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 11/10/81.
“O título vem naquela mesma “tradição” que desde a “chanchada” (não a atual “pornô” – referida) faz escola em nosso cinema, seja do Rio, paulista: “Esta é Fina”, “Pra Lá de Boa”, “Sai de Baixo”, “De Pernas pro Ar”, “É Com Este que Eu Vou”, “Não Adianta Chorar”, “A Vida é uma Gargalhada” e outros que tais, que obviamente nada tem a ver com a vida interior ou a transparência do espírito, personagens ou dramas de Virginia Woolf ou Katherine Mansfield. Do diretor Nascimento, em fins de 1976, aqui tivemos uma equivalência, coma produção de “Zé Sexy, Louco, Muito Louco por Mulher”. Se quisessem, ou soubessem, ou pensassem, com mais economia e até mais resultado, inclusive no plano internacional, poderiam ter mobilizado, do elenco, a beleza e juventude da balcânica Novany Novakovsky e, da cenografia, o apessoado de Waldir Siebert e plagiado ou repetido com algum realismo e alguma força de indagação a mais, aquele “Adão e Eva”, filme de só duas pessoas que os mexicanos há um quarto de século realizaram com os pruridos e a castidade da época, com uma ex-miss França, Christiane Martel, e um galã local, Carlos Baena, sem se atreverem a quase nada daquilo que hoje, principalmente aqui no Brasil, é fácil, fácil, à toa, à toa...”
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 14/02/82.
“Em vista do que resultou de sua formação, de suas influências da mineirice, carioquice e até mesmo paulistanice, em vista do que ele pode e quer ser, gosta e seus acólitos gostam nele, em vista, também, de seu tipo de cultura e de empenho, em vista do incoercível binômio, que lhe deu origem – o “cinema-novismo” como manifestação de uma sempiterna, sempre igual e nunca renovada classe dominante – não há dúvida que Joaquim Pedro de Andrade é um dos diretores não por demais prolíficos, mas mais bem-sucedidos do cinema nacional. E aqui está seu sexto longa-metragem, uma versão da mítica “Oswald de Andrade”, provavelmente feita com uma inventiva – a “porque me ufano” – à brasileira. E no qual, como uma espécie de mito e da trajetória de Tarsila do Amaral, Dina Sfat deverá ter, em seguida a “Eros” e, juntamente com “Álbum de Família”, seu terceiro “grand portrait” consecutivo num cinema, como o nosso, que muito precisa deles.”
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 21/02/82.