domingo, 30 de março de 2008

BEIJO NA BOCA

"Chega afinal a versão cinematográfica do caso Lou-Wanderley Quintão. Com outro rótulo, é claro, mas sempre aquele caso de sexo, passionalismo e crime que o senso de “oportunidade” do produtor-diretor Jece Valadão, assim que o mesmo aconteceu, logo pensou em filmar. Mas a produção agora, conjunta, é de Paulo Thiago e Pedro Carlos Rovai. A julgar pelo trailer parece que ambos não poderiam ter agido melhor, em que pesem certas características do ambiente, do cinema e até da linguagem carioca, sempre dando uma idéia errada que acontecimentos dramáticos não combinam com a esteriotipada imagem que muitos adoram criar, com os maneirismos e afetações a ela inerentes. De qualquer maneira, uma salutar incursão no plano de estrelismo positivo, ainda que só a personalíssima, promissora e meritória Cláudia Ohana e a veterana Joana Fomm acima de quaisquer (ou muitas) restrições. A ambientação promete ser boa."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 10/10/82.



DEZENOVE MULHERES E UM HOMEM

"A primeira fita de David Cardoso sem direção de Jean Garrett, com quem o industrioso “galã” havia obtido seus três últimos próprios e ponderáveis êxitos comerciais: “A Ilha do Desejo”, “Amadas e Violentadas”, “Possuídas pelo Pecado”. Garrett, agora independente, pessoal (e auspicioso) com “Excitação”. David prossegue e talvez tenha exacerbado a fórmula narciso-erótico-comercial de toda a sua filmografia como “astro-produtor”, mas agora acumula também as funções de diretor. Tomara que com o mesmo surpreendente élan e “boa mão” revelados por John Herbert. No elenco os realces deverão ir para Aldine Muller (sempre lembrando o tipo de jovem Margaret Lindsay), talvez para a reaparição de Lisa Negra, para Patrícia Scalvi(que constituiu revelação em “Presídio de Mulheres Violentadas” e parece um misto de Louise Platt, Margaret O’Brien e da escocesa Siobhan MacKenna, a Virgem Maria do último “Rei dos Reis”) e para atores como Miro Carvalho (com seu tipo interiorizado de rapaz índio), para o eficiente Nelson Morrison e para o tipo peculiar e efetivo do diretor Ozualdo Candeias."


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 12.06.77.


A FOME DO SEXO

"Mais um erotismo de encomenda, cumprido com a habitual diligência por Ody Fraga. Nada contra a encomenda, nem contra a diligência. Mas só com o provável tom e o lado adventício da obra, dois handicaps, que não são, em absoluto, inevitáveis. A história aqui parece a de “Idílio Proibido”, aquela última realização de Konstantin Tkaczenko em que a adulta Suely Fernandes cobiçava e envolvia até a morte um menino de 12 anos. Aryadne de Lima, que parece Capucine misturada a Joan Davis ou Charlotte Greenwood, apanha o marido em flagrante com a melhor amiga. Definitivamente ofendida, vai para Campos do Jordão e, apesar de assediada por um Arthur Rovedeer, cisma com um efebo daqueles típicos, que outro não é senão o frágil galãzinho do famigerado “A Filha de Calígula”. E o pior é que o referido acha que não tem vocação para gigolô e acaba preferindo sua antiga namoradinha (será que Danielle Ferrite?)."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 26/09/82.



A MULATA QUE QUERIA PECAR


"Outro nacional. Mas este da linha declaradamente “vexame”. O título já indica. De novo na co-montagem a já desaparecida Nazareth Ohana. Na história e roteiro o incrível “cômico” Paulo Silvino. E uma narrativa afim. Três casais em crise. A protagonista Bibi (Julciléa), “uma mulata sensacional, quer o desquite porque o marido Celso Faria vive paquerando as suas empregadas e suas amigas” (sic). Um outro casal vive atazanado pela sogra dele, Henriqueta Brieba. E o último par é de dois pombinhos não muito seráficos, mesmo porque o noivo é o bem desinibido (e bom ator e tipo) Antônio Pedro. Ao final, uma “festa” para espantar a “dor de cotovelo” e a qual todo mundo quer que descambe em orgia, sobretudo Julciléa. Pura “pornochanchada”, enfim. Embora pudesse ser outra coisa, caso os responsáveis se interessassem por um “específico fílmico” há mais de 60 anos definido como Cinema."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 02/12/79.


PORNÔ!

"Como “Aqui, Tarados!” e até mesmo “A Noite das Taras”, mais uma produção “hábil” de David Cardoso. Três histórias sumárias, um único autor-roteirista, três ambientes básicos, três diretores e sete figuras no elenco. Na primeira história, lembrando Stephane Audran e Jacqueline Sassard no chabroliano “As Corças”, Patrícia Scalvi e Maristela Moreno se encontram num luxuoso apartamento. Na segunda, David tem fixação por freiras e faz seu “date” Matilde Mastrangi vestir-se antes como tal. E na última, talvez com reminiscências do conto “O Espelho”, de Gastão Crulz, Zélia Diniz é uma cega que por meio de espelhos domina sexualmente e explora como criado Arthur Rovedeer (ótimo ator e tipo, como sempre) até que este descobre a artimanha e destrói todos os espelhos da casa."


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 28/06/81.


OS 7 GATINHOS

"Bergman foi profundamente marcado pelo clima “emilybronteano” e rígida e fria infância na casa de seu pai pastor protestante. Buñuel ficou indelevelmente estigmatizado pelo clericalismo de sua educação espanhola. Ambos transformaram isso nas revoltas e indagações sobre Deus em “Juventude”, “Sede de Paixões”, “O Silêncio” e nas blasfêmias de “Un Chien Andalou”, “L’Age d’Or”, “Viridiana”. A ficção de Nélson Rodrigues, verdadeiro epítome concentracionário de todas as taras e calamidades numa única unidade de tempo, espaço e família só pode vir da “Luta Democrática”, do nosso antigo “O Dia”, das manchetes “aglutinadas” de “Notícias Populares”. E com a absoluta exceção de uma das primeiras encenações ziembinskeanas de “Vestido de Noiva”, sempre nos parece absolutamente incongruente e inconvicente. Mas mais que a ficção, o que mais nos intrigaria é a maneira como se está desenrolando esse casamento de interesse ou conveniência entre o cinema-novismo e a dita “maldição” rodrigueana. E fiquemos por aqui..."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 20/04/80.



sexta-feira, 21 de março de 2008

AMOR BANDIDO *

“A formação “vivo o nosso Tempo”, “atuais universidades” ou “escolinhas de cinema” e “cineclubes” de Ana Carolina (33 anos), levou-a, em “Mar de Rosas”, a querer fazer “um ensaio ou uma reflexão sobre o Poder”, mas felizmente sua violência de espanhola de pai e mãe levaram-na, sem saber bem como, a esse grito de angústia imprecisa mas verdadeira que é “Mar de Rosas”. Já Bruno Barreto (agora 22 anos) neste “Amor Bandido”, demonstra uma visão de submundo que se aceitaria somente se vinda da idade e da experiência calejada de um repórter policial como José Louzeiro. E o que pasma é que parece que esta é uma idéia que ele tinha antes mesmo de fazer “A Estrela Sobe”, é seu projeto favorito e adiado há muito tempo. Mas quantos anos ele teria então? E desde que se trata de algo concebido como produto comercial (como todos os filmes seus, mesmo o infanto-adolescente “Tati, a Garota”) e produto de uma hipernacional, com a certeza de todos os respaldos de um poder e de um sistema, e ainda levando-se em conta que não se trata de alguém que cultua o policial ou o terrorífico, o espanto é maior. Se Ana Carolina exorcisou seus demônios interiores e o resultado foi um lancinante e puro grito feminino, que espécie de grito será este de Bruno? Sugawa aos 24 era terrível, mas seu terrível vinha de um ético e de um palpável amor à humanidade. Aqui é um terrível que nem Lovecraft ou Sheridan La Fanu seriam capazes, nem mesmo nos deteriorados Rio e São Paulo de hoje eles poderiam criar maior terror do que aquele que sentimos quando começa a se configurar qual é a atual atividade da personagem interpretado por Paulo Guarnieri. Em todo o caso, cinematograficamente o melhor filme do jovem diretor, embora nessa virtude os recursos de produção e os apoios e garantias de toda a ordem tenham um papel mais que preponderante.”

* Este filme será exibido no Canal Brasil nos dias 23/03, às 23:00hs, e 25/03, às 04:30hs.

Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 22/10/78.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

A EXTORSÃO *


"Um dos casos mais pungentes, talvez a ironia mais cruel da história do cinema brasileiro: justamente agora que conhecia finalmente o tão sonhado êxito, que boa parte da crítica mais lúcida, exigente ou responsável do País não se furtava, regozijava-se com o nível de criação alcançado por seus dois últimos trabalhos, o extraordinário, o pungente e belo “Relatório de um Homem Casado” e este “A Extorsão” que o crítico Ely Azeredo no “Jornal do Brasil” colocou em plano de absoluta exceção e que conquistou o prêmio de melhor filme e de melhor atriz coadjuvante para Suzana Faini no “Festival de Lages”, o batalhador Flávio Tambellini desaparece. Desaparece o homem a quem quase todos os que estão fazendo o melhor e mais amparado cinema no Brasil devem esse “simples”, esse “corriqueiro” fato de estarem trabalhando, criando, se realizando. Aqui, como no também citado e nunca suficientemente louvado “Relatório”, Tambellini utilizou-se de uma história de Rubem Fonseca e apresenta o desdobrar em leque, o movimento em espiral, a reação em cadeia de um processo de extorsão, de patologia e decadência, de contingência humana, terrível, confrangedor e quase simbólico. Um filme dos mais necessariamente a serem vistos em todo o cinema atual, um filme que também – a exemplo do que sucedeu com “O Passageiro”, de Antonioni – jamais a C.I.C. e o novo circuito Metro deveriam ter lançado sem a devida publicidade e da maneira apressada como o fizeram. De qualquer maneira, já está em exibição. E isso é suficiente e esclarecedor. A ele, obrigatoriamente. Pois outro, não haverá nunca mais."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 25/04/76.

* Este filme será exibido no Canal Brasil, dia 29/02, à 00:00h.

A ILHA DOS PRAZERES PROIBIDOS *

"Carlão Reichenbach (moço de sete instrumentos, inclusive aqueles, fortíssimos, de ser ótimo fotógrafo e câmera), dando conta de uma encomenda comercial erótico-comercial do produtor Galante e da empresa Sul-“Ouro”. Bela e perigosa jornalista é enviada à “Ilha dos Prazeres Extremos” a fim de dar cabo de três pessoas: um rebelde político e um casal de refugiados por motivos não muito claros. Carlão adora o cinema tipo deboche. “Udigrudi” (rótulo de mau gosto) como o fazem Julio Bressane, Candeias, Sganzerla (e esta fita ele a realizou pensando na iconoclastia de “A Mulher de Todos”, dirigida pelo último).
O ator Olindo Dias faz o papel de Luc Mollet, na verdade nome de um crítico “nouvelle vague” que dirigiu um filme talvez afim, chamado “Les Contrabandiers”. A atriz Neide Ribeiro parece vulgarmente bonita na tela, mas suas colegas de elenco, Meyre Vieira e Zilda Mayo precisam urgentemente trocar seus clichês “sexy”, uma para papéis como o que Gloria Holden representou no longínquo (1936) “A Filha de Drácula” e outra mais numa linha cômica entre Charlotte (Pernalonga) Greenwood e Betty Garrett. O argentino Carlos Casan já foi ator de Torre-Nilsson, Fernando Ayala e do francês Charles Deray."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 14/01/77.

* Este filme será exibido no Canal Brasil, dia 22/02, às 02:10hs.

MAR DE ROSAS *

"A formação de Ana Carolina foi a de uma típica intelectual local de nossas duas últimas décadas. Décadas nas quais o mal maior não foi própria (ou impropriamente?) as ditaduras, mas a mediocridade generalizada e inarredável e, sobretudo, o “macaqueamento” e o dirigismo cultural (de situação ou de oposição, tanto faz) a transfomar principalmente aqueles que mais se jactavam de respaldados justo na maior cota de massa mais dócil para futuros aplaudidores dos “Big Brothers”. Linda moça, interessando-se pelo “polemismo” vigente e superpassível no cinema, deixou o curso de medicina quase no fim e partiu com afinco para a liça, começando com um curta-metragem não por acaso denominado assim mesmo – “Lavra-Dor”...Mas oito filmes pelo estilo e há uns três ou quatro anos a estréia no “longa”com um documentário de 90 minutos sobre tema que para ela só podia ser extemporâneo: “Getulio Vargas”...Surpreendentemente e ainda que não abjurando (mas amadurecendo?) sua formação e o que seria lícito esperar dela, Ana Carolina consegue fazer seu segundo longa-metragem. Este “Mar de Rosas”, muito em prol da mulher mas não “feminista” na forma negativa da palavra e no qual o absurdo e as repressões (antigamente dizia-se as dificuldades, os desencontros, as misérias, a siséria) da vida e do moderno ser humano estão muito bem retratados e esmiuçados. Desde o “enigmático” crítico e excelente realizador francês Pierre Kast até o diretor paulista Walter Hugo Khouri, mais Ely Azeredo e outros críticos do Rio (só o júri de seleção do festival de Gramado é que achou que o filme não “se enquadrava em seus propósitos” e rejeitou-o no começo deste ano) a acolhida foi imediatamente entusiástica e agradavelmente surpreendida, o filme enviado à França e a nova cineasta bem prestigiada na Europa. Na história, uma mulher (La Benguel, em bem-vinda “reentrée”) não sabe se quer ou não romper com o marido (Carvana). Mas seguida e/ou espicaçada pela filha, sintomaticamente adolescente (Cristina Pereira), mata-o e foge, levando consigo a pouco equilibrada menor. Vem porém a ser seguida (ou perseguida) por um carro negro, dirigido evidentemente por alguém. O marido, que não teria morrido? Ou outro homem, que tanto poderia ser um medíocre/inocente tal o pai da menina como um terrível “porco chauvinista” (Otávio Augusto), exemplar típico do “male animal”? O tema parece que fascina. E fascina também a maneira pela qual Ana Carolina – “escolas de comunicações” e “contestarices” à parte, à distância ou mesmo esquecidas – dá um mergulho na condição da mulher, da família e dos impasses de nossos dias. Que não são lá muito diferente daquilo que sempre existiu – mudou só o “background”, o desgaste ou a degeneração de etiquetas e cortesias, o relaxo ou insânia nas modas e penteados, os inúteis abusos de linguagem, o descaro no se servir velhos tabus sob novos e mistificadores rótulos, mas a luta pela vida continua a mesma. Um filme a ver e analisar com todo o carinho."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 24/09/78.

* Este filme será exibido no Canal Brasil, dia 27/02, às 04:30hs.







O OLHO MÁGICO DO AMOR *

"Inacreditável, inesperado. De onde menos se poderia esperar (ou seja, uma exdrúxula aliança ou conluio entre a “Boca do Lixo”, os “ensinamentos fílmicos” da ECA-USP, do cineclubismo com jactâncias de classe dirigente, aliada ao comercialismo dos lamentáveis tycoons locais que só aceitam, ou mesmo impõem, filmes segundo suas visões preguiçosas, incultas e rotineiras do que fossem as únicas exigências da confluência da avenida São João com a Ipiranga) resultou um filme mágico, que é o que de mais feliz, consistente e artístico o cinema brasileiro produziu nos últimos 30 anos. Sem copiar e sem ser propriamente parecido com Belle de Jour, de Buñuel, ou com o genial “Dillinger está Morto”, de Marco Ferreri, é realmente uma simbiose ou equivalência, em termos nossos, dessas duas obras-primas do cinema mundial. Produção barata (o produtor Fragano informa-nos ter custado, com cópias e tudo, apenas seis milhões de cruzeiros), é o tipo de filme que se pode fazer quando existem duas coisas importantíssimas que se chamam talento e circunstâncias favoráveis. Como “Dillinger”, quase não tem história, como Belle de Jour, é uma projeção de anseios ou de uma realidade. Mas realidade que, embora não deliberadamente pervertida, é “apenas” observada com um visível cabedal de cultura e de gosto, de conhecimento estético e humano. Sem pretensão descabida ou maldosa, um apanhado dos mais bem logrados, de uma incoercível tendência para a degradação, para a destruição. Tudo em nome do que impera num mundo circundante, sem perspectivas e sem valores que tenham sido transmitidos como dignos de ideal ou preservação. Perfeito em tudo, da concepção à intriga, roteiro e direção, da produção à execução, com interpretação, cenografia, fotografia, música, montagem como nunca vimos amalgamar-se e funcionar tanto em condições brasileiras, um filme único que revela em sua dupla de diretores, Ícaro Martins, José Antonio Garcia, duas figuras que concretizaram o que parecia impossível: arte cinemática num ambiente e num momento terrível como este entre nós. Um filme com ousadia sexual, como se destinado para o Cine Marabá, Art-São Paulo, Marrocos ou Windsor, mas para ser degustado no Cine Liberty e para o mesmo público dos Cines Astor, Bristol ou Belas Artes, quando este está no melhor estágio de alcance artístico e de sua auto-estima de espectador culto, sensível e exigente. Obrigatório."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 06/03/82.

* Este filme será exibido no Canal Brasil, dia 28/02, às 02:00hs.

OS VAGABUNDOS TRAPALHÕES *

"Renato Aragão, porém, não receia a concorrência da Copa. Para ele, a atual maior bilheteria popular e familiar do cinema brasileiro, basta aproximar-se o período de férias e está ótimo. Ele produz mesmo seus dois filmes anuais para a ocasião e não precisa mais nada. O diabo é que, embora tenha tido o acerto de voltar a mobilizar o talento do iugoslavo J. B. Tanko (o maior e mais competente artesão de nosso cinema e quase um mago na manipulação da imagem e do ritmo, da condução geral), Aragão está não só com êxito subindo à cabeça, como também se deixando influenciar por certas falácias, imposições e lugares-comuns politicóides do meio: agora quase que se desculpa dos Ladrões de Bagdá, Cinderelos, Robin Hoods e Ali Babás de que se andou utilizando e invoca sua infância e criação no Ceará, em meio à miséria. Não precisa. Ninguém vai duvidar que ele não seja produto local. Mas podemos temer que esteja calculando demais e se deixando levar por outras miragens, sobretudo a do êxito fácil. Mesmo porque, reportando-se a outros personagens que já interpretou, a este filme não é estranha a influência de um fenômeno e um êxito que não é só de casa – a infância desvalida e massacrada tipo “Pixote”. No elenco, causa espécie a presença de uma atriz de outro escalão como Denise Dumont no segundo papel feminino."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 20/06/82.

* Este filme será exibido no Canal Brasil, dia 22/02, às 07:00hs.







CANDELABRO ITALIANO ("Rome Adventure")

"Um dos mais bem sucedidos filmes “romântico-turisticos” do tempo em que quase que exclusivamente a Itália (estranho fenômeno dos recalques e injustiças, desconversas e remorsos coletivos surgidos após a II Grande Guerra) estava na Moda, como ambiente de realismo e de sonho, como mítica de “dolce vita” e de cartão postal. Como tal, realmente funcionou para o substrato mais geral. E teve, sobretudo, o mérito de revelar uma linda figura de burguesinha e excelente atriz a franco-americana Suzanne Pleshette – que só não se firmou como “grande estrela” porque o “mood” do cinema mundial já não estava mais tão afeito como antes a valorização dos encantos da feminilidade. A fita aqui foi lançada no Cine Paissandu (a 25 de março de 1963) e depois, entre outras apresentações, já “reprisada” pelo antigo Scala e Astor (a 20 de abril de 1970)."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 09/05/76.

Homenagem à atriz falecida no dia 19 de janeiro.

domingo, 2 de dezembro de 2007

LILIAN, A SUJA *

"A idéia até que não é má e ainda que encenada adventiciamente daria margem a uma produção comercial-corrente dotada de epidérmico mas razoável interesse. Claro, não vamos pensar numa mitológica Louise Brooks vagando expressionisticamente pelas ruas soturnas de Berlim ou da Hamburgo de fins dos anos 20, como sob a batuta de Pabst em “A Caixa de Pandora” ou “Diário de uma Pecadora”. Mas não seria má matéria-prima esta idéia de uma moça traumatizada e perdida pela miséria e pelo arrimo devido à mãe paraplégica, além de humilhada e assediada pelo patrão boçal durante o expediente do único emprego que conseguiu arranjar numa época de recessão. E que, à noite transforma-se em uma implacável caçadora de homens, os quais acaba matando ao fim de cada noitada de sexo enlouquecido. Ao que parece trata-se do fac símile antecipado de um filme holandês da atual safra erótica que um dos financiadores behind teria visto por lá ou tomado conhecimento, via comentários ou publicações especializadas. Nada contra. Só que melhor se tudo à la Pabst e a la Louise Brooks/Fritz Kortner/Francis Lederer. Aqui como diretor, co-autor e iluminador-câmera temos a inegável competência, na última função, de Antonio Meliande. Em vez de Louise, Lia Furlin. E no lugar dos Kortner ou Lederer necessários, não um Hingst, um Rovedeer ou um José Lucas, como a princípio nos informaram, e sim Felipe Levy, José Carlos Braga, e o até apropriado Roque Rodrigues, talvez tão apropriado quanto um dos próprios técnicos utilizados - Beppe Lampa, com seu tipo de “popolone” italiano do Norte. Como a paralítica e dependente, Leonor Lambertini. A verificar?"

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 03/01/82.

* Este filme será exibido no Canal Brasil, dias 12/12 à meia-noite e 15/12 às 04:30hs.

AMADA AMANTE *

"Em “Amante Muito Louca” tínhamos o intencional “desmascaramento” das limitações de uma família classe média do Rio em vilegiatura em Cabo Frio. Aqui temos o atritamento de uma outra, esta vinda do interior paulista para o mundo totalmente oposto (será?) da forçada mitificação carioca de Copacabana, Leblon ou Ipanema. O quarto filme de Cláudio Cunha (os anteriores foram “O Clube das Infieis”, “O Dia que o Santo Pecou” e “Vítimas do Prazer – Snuff”, esta, por sinal, particularmente valorizada pela excepcional criação interpretativa de um carioca, Hugo Bidet). E uma das mais ambiciosas e bem escoradas produções paulistas da nova fase porque passa o cinema brasileiro em geral. No elenco, o grande trunfo de prestígio e atração é a presença de Sandra Bréa, que aqui contracena com Luis Gustavo, Rogério Fróes, Neusa Amaral e em participação especial, Carlos Imperial. A fita foi inteiramente “rodada” no Rio e deverá se constituir num dos melhores êxitos de exibição da atual temporada."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 23/07/78.

* Este filme será exibido no Canal Brasil, dias 20 à meia-noite e 24 às 4:00hs.

ARIELLA *

"E já que estamos falando em liberação, eis que por meio do senso seletivo ou faro para a bilheteria do produtor Rovai, um nome maldito, uma escritora invectivada como Cassandra Rios, chega ao cinema. E com a sorte de contar na direção com um elemento como o veterano ator John Herbert, o qual em seus dois e bem menos ambiciosos episódios de estréia em “Cada um Dá o que Tem” e “Já não se Faz Amor como Antigamente” revelou-se um realizador de cinema surpreendente, que para nós – tipo de filme à parte – fazia até pensar nos requintes e no domínio rítmico-plástico e de elenco de um E. A. Dupont. A história é de uma órfã que ao descobrir que fora enganada por seus falsos pais e irmãos (em verdade tios e primos) resolve partir para a vingança. Ao ser lançado no Rio o filme bateu recordes de bilheteria e é de se esperar que o mesmo ocorra aqui."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 02/11/80.

* Este filme será exibido no Canal Brasil, dia 27/12, à meia-noite.



A FLAUTA MÁGICA ("Trollflöjten")


"Segundo a maioria, de certo modo a mesma maioria que Bergman teve deliberadamente ignorando-o ou contra si quando da absoluta revelação e florescência criadora de “Sede de Paixões”, “Juventude”, “Mônica”, “Noites de Circo”, e, em certos casos, até “O Silêncio” e “Gritos e Sussurros”, a primeira real transposição ou aproveitamento de uma ópera em cinema. Bergman é um deus Jano: tanto tem sua face de Dr. Jekyll (os filmes citados, mais “Fangelse”, “Morangos Silvestres”, “Persona”) como também pode se tornar um terrível Mr. Hyde (“A Fonte da Donzela”, “Sorrisos de uma Noite de Amor”, “Vergonha”, “O Sétimo Selo”, “A Hora do Lobo”, “Sasom I en Spegel”, “O Rosto”). Um criador genial, com uma riqueza e uma prodigalidade como talvez jamais tenha havido outro e, ao mesmo tempo, um potentado restrito, fechado sobre si mesmo, que mesmo não pretextando uma irredutível personalidade e linha criadora, deixa que o Tempo vá passando irremediavelmente sobre, por exemplo, cabedais ou milagres da Suécia e do cinema mundial como Greta Garbo, Ingrid Bergman, Viveca Lindfors, deixa morrer esquecido e amargurado um ator único como Ake Gromberg (o intérprete de “Noites de Circo”), mas insiste em Gunnar Bjornstrand e Max Von Sydow, repete situações e temas (no mínimo “facilitados” pela existência de Strindberg) e torna a convocar uma e outra mesma grande atriz, sem que isso acrescente para ele, para elas ou para o público e a arte do cinema. Mas foi Bergman quem criou “Sede de Paixões” (ainda que sob influxos da alma angustiada de Strindberg) e criou “Gritos e Sussurros”, de certo modo o mais essencial filme contestatário de todo este imoral após guerra. E “A Flauta Mágica”, além de música de Mozart é um filme seu."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 26/12/76.

ALPHAVILLE (“Alphaville, Une Étrange Aventure de Lemmy Caution”)

"Um Godard no apogeu do seu prestígio e fôlego como realizador-autor. O assunto – ataque à coação, “defesa” da Liberdade – é o prato predileto para direitistas de alto bordo e para “esquerdistas” de convenção e oportunismo, uns e outros sempre farisaicos e doidivanas e, claro, sempre agindo inconscientemente e em conjunto para afundar mais o barco da pobre convivência humana. Aliás, não se trata de melhor Godard, que isto fica com a sofisticação de “Uma Mulher é Uma Mulher”, com o sarcástico mas real pacifismo de “Tempo de Guerra”, com o cínico e gozador anti mao-stalinismo de “A Chinesa” e com o “charme”, algo enigmático, de “O Desprezo”. Godard, embora todo o seu talento e capacidade, foi – em seu campo – um dos que mais contribuíram para ajudar a deteriorar o mundo nisso que aí está, sem nenhuma salvaguarda dos essenciais valores que haviam sido sedimentados e sem nenhuma nova luz ou “No Gordio” para os males existentes. A fita aqui foi originalmente lançada a 21 de outubro de 1966, nos antigos Cines Scala e Picolino."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 19/06/77.

A GUERRA DAS VALSAS (“Walzerkrieg”)

"Com o advento do som e durante toda a década de trinta, o gênero “opereta” encontrou sua expressão peculiar e insuperada no cinema alemão. Otimismo, paroxismo de movimento e alegria, procura do maior descompromisso (as cicatrizes da última guerra e os fantasmas da depressão nos EUA eram sensações por demais insuportáveis e que precisavam ser esquecidas ou ignoradas). Mas nem por isso todo aquele movimento em salões imperiais e alegres estalagens de histórias de cinderelas e príncipes encantados (ou vice-versa), de polimento europeu, de “savoir vivre” implicavam numa ausência de denso delineamento humano, de voraz e sensorialíssima maneira de enxergar homens e mulheres e suas paixões, seus méritos, seus sentimentos, e até suas mesquinharias. Mas sempre seus sonhos...realizados. Este filme, aqui originalmente lançado na Sala Vermelha do Odeon, a 30 de abril de 1934 (em versão francesa com Fernand Gravey e Janine Crispin) foi um dos mais comentados. Na história, a Rainha Vitória, sabendo da fama musical da Viena envia o diretor do “Real Ballet” de Londres a fim de escolher um músico para a corte inglesa. Isso provoca verdadeira competição, quase uma guerra musical entre Johann Strauss e Joseph Lanner, os dois expoentes do gênero na terra de Sissi. O diretor Ludwig Berger, um dos antológicos do cinema alemão dos anos 20 (também dirigiu um terço da versão inglesa de “O Ladrão de Bagdad”, a de 1940 com Conrad Veidt e Sabu e a melhor de todas) e era um elemento dos mais capazes. Examinando-se ficha técnica e elenco, quase que só encontramos elementos que já então eram ou depois iriam se tornar antologia, com grandes atuações em seu ativo: o Berger, os maravilhosos cenógrafos Rohrig & Herlth, intérpretes como a malograda Renate Muller, Adolf Wohlbruck, Paul Horbiger, Karel Stepanek, Hanna Waag e, mesmo, o galã Willy Fritsch, mais o roteirista Rob Liebmann de “O Anjo Azul”, o lendário iluminador Hoffman. Oportunidade rara de respirar outro ar, mais limpo e estimulante, e, ao mesmo tempo, apreciar cinema realizado com todos os requintes de uma época em que ainda se admirava o cultivo e o bom gosto."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo de 25/05/80.


segunda-feira, 3 de setembro de 2007

KARINA, OBJETO DE PRAZER *

"Possivelmente um Jean Garrett cinematicamente efetivo – isto é, naquele gosto, procura de significação e domínio visual de certos momentos de “A Ilha do Desejo” (principalmente o das sevicias que praticava o chinês sádico e gigantesco), “Excitação” (a suave beleza fotográfica), “A Força dos Sentidos” (o tom de sobrenatural que ia envolvendo a festinha na casa de praia) e “A Mulher que inventou o Amor” (todo o cuidado para mostrar a transformação de Aldine Muller de moça suburbana a objeto de trato). Na história, porém – sempre o ponto menos evoluído e mais popularesco dos filmes da rua do Triunfo – o lugar comum ou a ingenuidade sensacionalista de sempre. Aqui, utilizando o condimento “machista” (filha de pescador, comprada por marginal de beira do cais que a usa até como objeto de empréstimo) ou a momentosidade tipo liberação-feminina (a brutalidade lúbrica dos dois homens leva as duas heroínas ao homicidio e ao lesbianismo). Um dos vilões é o veterano e sempre dominante Luigi Picchi. Mas, a julgar pelas fotos em branco e preto dos stands, é o capricho visual com que Garrett tratou Angelina Muniz que deverá constituir a nota do filme.”

Publicado originalmente no “O Estado de S. Paulo” de 12/09/82.

* Este filme será exibido no Canal Brasil, no dia 12, à meia-noite.