domingo, 22 de fevereiro de 2009

O DESEJO FINAL ("Joe Hill”)


"O que “Sacco e Vanzetti” foi para o cinema italiano, este “Joe Hill” é para o sueco: o libelo contra o injustiçamento de um idealista de seu país em meio à engrenagem da Justiça americana. A ação começa com o jovem Joseph Hillstrom (19 anos) e seu irmão aportando em 1910 à nova terra, cheios de esperanças, sujeitando-se a todos os trabalhos inferiores que as sociedades reservam aos imigrantes pobres e que não conhecem seu idioma. Joe procura amenizar sua vida com a apreciação da música e compondo canções românticas, mas será depois, ao transformar-se em organizador sindical, colhido por obscuras evidências e acabará condenado à morte em circunstâncias nebulosas, que o tornam uma legenda que depois acaba mais ou menos perdida. O Thommy Berggren de “Elvira Madigan” interpreta o papel título e a fita marca mais um tento de versatilidade e gosto pela pesquisa de estilo e assunto na carreira de Bo Widerberg, o mesmo de “O Bairro do Corvo”, “Karlek 65” e o aqui também inédito “Adalen 31”. “Joe Hill”, filme, ficou quase nove anos interditado pela nossa censura – cumpre fazer-lhe justiça agora. Obrigatório.”



Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 05/10/80.

UM TRAPALHÃO MANDANDO BRASA (“Hardly Working”)


"Nunca um retorno conseguiu reatar um ciclo de prestigio, nem mesmo quando o veículo empolgava o mundo: Póla Negri em “Mazurka” (34), Gloria Swanson em Sunset Boulevard (50), etc. Pois aqui está Jerry Lewis, depois do interregno que se sucedeu a seu quase fatal acidente de há um decênio. É verdade que a gradativa consciência (a exemplo de Bogdanovich, em outra área) que fomos tendo que fora a ajuda do diretor-coreógrafo Herbert Ross e do mito Bogart em “Sonhos de um Sedutor” e de uma ou outra coisa esporádica, Woody Allen é incapaz de ocupar o lugar deixado por Jerry e comete horrores como “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” ou debilidades como “Manhattan”, talvez ajude.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 12/04/81.

OS IRMÃOS CARA DE PAU (“The Blues Brothers”)


“Musical atual e sobre dois malandros (Belushi, Aykroyd) que saem da cadeia. E, de novo, a antiga fórmula do orfanato onde os protagonistas foram criados e que agora passa por dificuldades financeiras. Mas, além das intervenções de Ray Charles, Aretha Franklin (afora a veterana Kathleen Freeman, a manequim Twiggy, o diretor Spielberg), há uma atração fora de série com Cab Calloway no papel do padre que ajudou a criar a dupla, ensinou-lhes religião e a amar a música. Uma das figuras míticas do “jazz”, ou melhor, da criação do “swing”, o “colored” Calloway, exuberante, frenético, irresistível, que foi o sucessor de Duke Ellington no lendário “Cotton Club” de Nova York, e, de certo modo, o pioneiro de muito o que fizeram e ainda fazem artistas de todas as partes do mundo (Mickey Rooney, Desi Arnaz, Miguelito Valdez, Presley, Little Richard e, com o devido respeito, Betty Hutton, Virginia O’Brien, Judy, Lisa Minnelli, Janis, Bette Midler, Donna Summer, além também de nossa melhor Elis Regina). Vi-mo-lo pela primeira vez num filme de Al Jolson, em 1936, “Canta e Serás Feliz”, impossível esquecer sua energia, alegria, dádiva de vida.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 12/04/81.

SOB AS INSÍGNIAS DAS ARMAS (“Kotei no Inai Hachigatsu”)


"Novo filme de Satsuo Yamamoto, diretor japonês de talento (foi ele quem refilmou há uns cinco anos para a Nikkatsu o cíclico e celebrado romance antibelicista “Ningem no Joken” (“Guerra e Humanidade”); dessa vez sob o título brasileiro foi “Guerra e Homem”. Esquerdista, ou melhor stalinista convicto, Yamamoto, entretanto não costuma tirar disso tanto proveito nem fazer tanto estardalhaço quanto seus colegas – japoneses e estrangeiros. Aqui temos a história de um imaginário levante que iria acontecer no Japão de 1980, quando uma parte de seu exercito resolve se rebelar. O título original significa “O Imperador está Ausente no mês de Agosto de 1980”. Além de Yamamoto, credenciais com a música de Masaru Sato e com participações no elenco do nível de Rentaro Mikuni, Tetsuro Tamba e outros.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 26/04/81.

DECAMERON (“Il Decamerone”)


"Erudito, intelectual e ao mesmo tempo compulsivamente fascinado pelo popular, pelo dialetal e até mesmo o popularesco, Pasolini não poderia mesmo deixar de realizar esta versão de um grupo de histórias de Boccaccio, nas quais aparecem Ciappelletto (Franco Citti), Andreuccio, de Perugia (Davoli), Masetto de Laporechio, Alibech, Isabella, Girolamo e Salvestra, Peronella (Ângela Luce) e outras figuras típicas da ficção do satírico fiorentino nascido em Paris. E também Giotto e a Madonna aparecem na interpretação do próprio cineasta e de Silvana Mangano. Um Decamerone pasoliniano, inclusive com a liberdade de situar a Toscana e o mundo de Florença na Companhia e com dialeto napolitano. Houve ainda outras liberdades, mas estas em termos de moral cinematográfica da época que, inclusive, fizeram com que a nossa censura e os cinematografistas (distribuidores, exibidores) postergassem seu lançamento de 72 até hoje. Irreverente, neo-realisticamente caprichada, perfeito exemplo de um período de mais vitalidade criadora do realizador, a fita tem indiscutível élan e expressão, e constitui um dos mais importantes lançamentos da atual temporada.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 31/08/80.

OS CONTOS DE CANTERBURY (“I Racconti di Canterbury”)


"Filme com o qual Píer Paolo Pasolini conquistou o Grande Premio “Urso de Ouro” no festival de Berlim – 1972. É o segundo de uma trilogia à qual pertencem “Decameron” (71, e aqui marcado por nossa censura, mais ou menos, até o ano passado) e o também na mira, mas já a ponto de liberação, “As Mil e Uma Noites”, de 74. Trilogia voltada para uma espécie de epicurismo, ou alegria, ou aceitação da vida tal qual ela é segundo a “ideologia neo-realista” dos primeiros tempos em que ela encantava os que adoram catarses de determinado tipo. Aqui, para dar vasão a esse espírito, o cineasta serviu-se da obra de Geofrey Chaucer, escritor inglês do século XIV, aproveitando seus aspectos de irreverência, sarcasmo e malicia, e fez locações em ambientes reais, nos arredores de Londres, e com todos os diálogos em inglês. Alguns dos atores italianos mais caros a Pasolini, como Laura Betti, Ninetto Davoli e Franco Citti, bem como o terrível inglês Hugh Griffith, a americana Josephine Chaplin (irmã de Geraldine), estão no elenco. E o próprio realizador, que em “Decameron” interpretava o pintor Giotto, aqui faz o papel de Chaucer mesmo.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 19/07/81.

AS MIL E UMA NOITES DE PASOLINI (‘Il Fiore Delle Mille e Una Notte”)


"O penúltimo filme com que Pasolini encerrou sua chamada “trilogia da vida” na qual já havia abordado Boccaccio (71) com Il Decamerone e Chaucer (72) com I Racconti di Canterbury. Todos aqui tiveram problemas com nossa nada atilada censura e só chegaram com o atraso que sabemos (este é de 74!), deixando, como sempre, o ambiente brasileiro em situação de vexame e primitivismo ante o consenso internacional. Do cineasta restam agora para vermos apenas sua derradeira realização Saló o le 120 Gionarte di Sodoma (75/76), elogiadíssimo gráfico e semidocumentário longo também por inícios de 70 feito para a televisão italiana (“Appunti per una Orestiade Africana”), bem como outro longa “Comizi d’Amore (65), mais um documentário (“La Rage”) e duas outras fitas de várias histórias realizadas conjuntamente com outros diretores: Capriccio all’Italiana (66) e “Amore e Rabbia” (69). No caso presente, o cineasta foi beber na fonte das lendas islamíticas do Alf Laylah wa-Laylah, ou seja as “As Mil e Uma Noites”. Pelo jeito o mood poderá ser mais italiano que árabe, como aliás aconteceu com o “inglesismo” de “Canterbury”, mas ninguém irá queixar-se disso, só interessando se o filme, que conquistou o “Prêmio Especial do Júri” em Cannes-74, segundo dizem, deva ser bem mais efetivo que “Canterbury”, embora possa não ser mais envolvente que Il Decameron.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 06/12/81.


quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

PARANÓIA

"Marginais invadem a casa de uma família rica e dão vazão às suas anomalias, imobilizando e humilhando o dono e estuprando as mulheres. Alongamento de uma sequência de “O Bandido da Luz Vermelha” (a de Sergio Hingst e Liliana Kornblum, com o próprio e inacreditável Paulo Villaça no papel do tarado) ou de outra em “O Matador” com Maracy Mello e ainda Villaça! De certo modo, uma emulação (ah! Senhor Carlos Heitor Cony!) do entrecho de “Horas de Desespero” (“The Desperate Hours”), de Wyler, com Humphrey Bogart e Fredric March. O diretor, o amazonense Antonio Calmon, é o mesmo que revelou gosto visual mas acepções discutíveis em “O Capitão Bandeira Contra o Dr. Moura Brasil”. No elenco, a reunião de dois mitos do nosso cinema, cada um em seu plano e por motivos diferentes: Norma Benguel e Anselmo Duarte. Lamentavelmente e para corroborar que no ambiente de nossa cinematografia se ignoram as questões mais comezinhas, até mesmo de títulos de apresentação e publicidade fílmica, ambos, com todo o seu lastro e mesmo fazendo os papéis principais (coisa que nem sempre ocorre, coisa de que nunca cuida quem deve), não receberam o tratamento devido aos astros que realmente são (o que, ademais, teria elevado o “status” da película). Mas, em contrapartida, no mesmo cartaz, há uma apresentação de dois novos intérpretes, absolutamente sem sentido, absolutamente ignorante de que isto só se faz quando se lança de fato alguém que realmente vai ser a Ingrid Bergman de “Intermezzo” ou a Vivien Leigh de “...e o Vento Levou”."


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 06/06/76.



EL DORADO

"Estranha a consagração de Hawks! Um diretor americano ao qual, a maioria da “crítica” que jamais se preocupa com “ninharias” de estrutura e ritmos cinemáticos, com “probleminhas” de estética, nele enxergavam essas virtudes, virtudes que, por sua vez, nunca percebiam quando mais do que flagrantes em outros diretores, em verdade muito mais cineastas. Enfim, só poderia mesmo ser assim! Aqui temos o conhecido tema de um atirador profissional (John Wayne) contratado por um barão de gado para espoliar um fazendeiro honesto. Mas naturalmente, no final, seguindo as normas do gênero, o mercenário “gunfighter” se coloca do lado da justiça. Talvez, o mérito maior desta “reprise” (aqui antes lançada a 18 de maio de 1968, no antigo Scala) seja permitir uma aferição do bom ator expontaneo tipo que era James Caan antes da fama."


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 06/06/76.

GLÓRIA FEITA DE SANGUE ("Paths of Glory")

"O melhor filme de Stanley Kubrick. Muitos pontos acima da demagogia formal e da amargura-realista de cálculo de suas primeiras obras no experimentalismo do cinema independente (o aqui inédito “Fear and Desire”), na “classe-B” (“A Morte Passou por Perto”) ou na categoria intermediária (“O Grande Golpe”). Bem longe, felizmente, malogro clamoroso de “Lolita”. E afastado, ainda, da “inocência útil” do “Dr. Fantástico”, da inútil pompa técnico-artística e dos esbanjamentos de produção de “2001, Uma Odisséia no Espaço” ou ainda, do premonitório-exibicionista e sensacionalista de “A Laranja Mecânica” (aqui contraproducentemente vedado pela nossa censura). Um filme sobre uma misereanda farsa de guerra, passada ao tempo da I Mundial, na França, quando três soldados inocentes são sorteados ao acaso para morrer por fuzilamento e assim servir de “cortina de fumaça” para um erro ou um malogro qualquer na frente de batalha. Humana e realmente profunda e tocante, a fita nem parece de Kubrick, para sermos francos. Aqui originalmente lançada no circuito Marabá, em meados de outubro de 1958, “Paths of Glory”, ao que lembramos e juntamente com “Tempo de Guerra” (“Les Carabiniers”), de Godard, com “Sansão”, do polonês Wajda e com “Tri”, do iugoslavo Aleksandar Petrovic, constitui um dos raros apanhados realmente válidos sobre a guerra neste criminoso após-guerra, onde tanto e tanto, principalmente no cinema, se falou e se mistificou sobre o assunto."


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 15/08/76.

AQUI TERMINA O INFERNO ("Inochi Bonifuro")

"Um misto de Gorki, Dostoievski e, talvez, Lafcadio Hearn. Uma aproximação com o redimido Kurosawa de “Ralé”, “Dodeskaden”, e “Hakuchi, o Idiota” (este já exibido pelo “Cinema Um” no Rio, mas ainda absurdamente inédito em São Paulo). Um filme de Masaki Kobayashi um dos mais “engajados” e, por isso mesmo, mais celebrados diretores do Japão, muitas vezes dado ao virtuosismo gratuito e ao proselitismo descabido (“Herança Fatídica”, “O Rio Kuroi”, “Harakiri”, “Rebelião”), mas às vezes também um humanista convincente (como nas seis épocas da primeira versão, a de 1959/61, de “Guerra e Humanidade”) ou um encenador do insólito e do caprichado, como em “Kwaidan” (“As Quatro Faces do Medo”), este por sinal derivado de contos do polonês que se tornou japonês: Hearn. Aqui a narrativa provém de um original de Shugoro Yamamoto, o mesmo autor de “Dodeskaden”. O roteiro foi escrito pela esposa do ator Nakadai, o que talvez não seja um bem. Mas a profunda humanidade de Yamamoto deve ter vencido os óbices. A fita num dos festivais de Taormina deu a Kobayashi o prêmio de melhor diretor e há dois anos foi saudada com o maior entusiasmo pela crítica argentina. A história se passa numa torva caverna da velha Edo (a antiga Tóquio), “ponto” de contrabandistas, negociantes inescrupulosos, assassinos, matricidas, meretrizes, monges depravados e apostatas, policiais corruptos, nobres decadentes, toda a escória humana. No elenco, o catatônico Nakadai é o protagonista. Mas há compensações como, por exemplo, a beleza e sensibilidade de Komaki Kurihara ou o nível do grande ator de “Kabuki” Kanemon Nakamura. Um filme japonês a ser visto, o que infelizmente já se tornou raridade neste nosso cada vez pior mercado exibidor. A ele, pois."


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 22/08/76.



A GRANDE ILUSÃO ("La Grand Ilusion")

"1939. São Paulo, quando faltavam fitas de classe para cinemas então importantes como o Rosário, o Broadway e o Alhambra (sem falar no saudoso Paramount, então criminosamente relegado a sala repetidora de programas duplos), esta fita foi jogada num cinema de pequenos programas-B, o Pedro II (27 de março daquele ano). E no entanto, de produção A européia que já era transformou-se logo mais num clássico respeitado em todo o mundo, um clássico que geralmente figura entre os cem ou os dez melhores de todo o cinema nos referendos de quase toda a crítica internacional. Foi depois, em outubro de 1959, já “reprisado” pelo Cine Normandie. É um libelo contra a guerra, no qual, no entanto, não há uma única grande cena de batalha, passando-se a ação em sua maior parte num campo de prisioneiros, onde Erich Von Stroheim é o oficial prussiano relutante entre carapuça do dever militar e um senso humanitário que os horrores do conflito não conseguiram destruir. Na cenografia, Eugene Lourié que depois faria bela carreira nos EUA como desenhista de produção(entre outros, “Verdoux”, de Chaplin, “Vidocq”, de Douglas Sirk, “Diary of a Chambermaid”, do próprio Renoir, com Paulette Goddard) e depois também como diretor (“O Monstro do Mar”, “The Giant Behemoth”)."


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 26/09/76.

INFERNO NO ASFALTO ("White Line Fever")

"Motorista de estrada resolve enfrentar sozinho poderosa empresa que utiliza meios os mais brutais e inescrupulosos para forçar os profissionais ao transporte de mercadorias ilegal. O interessante seria saber porque, aonde, quem, como e qual – além do servilismo antecipado com que muitos se apavoram e julgam tornar mais “bonzinhos” os “donos da bola” – o tipo de violência, o gênero de “persuasão” que levou a aqui apresentarem esta fita em uma cópia original normalmente legendada para um “público seleto” e várias cópias dubladas para os cinemas freqüentados pelo “povão” ou pelo “povinho” (como depreciativamente muita gente mercenária e cínica costuma rotular aqueles que deveria corretamente chamar de o público), no intuito de testar a receptividade da nossa população à degradação cultural e à expoliação artística que é a dublagem. Não sabemos quais são os cinemas que vão exibir uma e outras. Agora urge uma reação à altura por parte de todos os espectadores aos interesses escusos que se escondem atrás de indecorosa medida. Mesmo porque a fita não é nenhuma obra de arte, ou nenhum divertimento realmente bem feito a ser obrigatoriamente visto."


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 10/10/76.

ALELUIA, GRETCHEN

"Realmente um dos mais ambiciosos, trabalhados e custosos filmes produzidos ultimamente entre nós esta farandula sobre a imigração germânica ou (uma coisa ou outra?) a infiltração nazista e a permanência do espírito fascista no Sul ou no Brasil de 1936 a 1976. Devida ao mesmo Silvio Back dos polêmicos “Lance Maior” e “A Guerra dos Pelados”, a narrativa – com várias determinadas liberdades e efeitos – apresenta uma visão do problema que não poderia ser outra senão a do atual estágio da nossa “inteligentzia”. E, é claro, não se processa de maneira equivalente ao polemismo de Brecht & Pabst em “A Opera dos Pobres”, do R. A. Stemmle de “Berliner Ballade” ou do Rolf Thiele de “Das Madchen Rosemarie” (“Ídolo do Pecado”), “Moral 63” (“Alcova Secreta”), ou “Lulu”. E nem estaria em consonância com as advertências de Rosa Luxemburgo nem com os desesperados apelos das viúvas Krupskaya e Nathalia Sedova. Mas é obra beneficiada por sua complexidade e, sobretudo, pela maravilhosa paisagem e pelas imanências das regiões do Paraná e Santa Catarina que evoca e onde foi inteiramente “rodada”."


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 22/05/77.



O ANO PASSADO EM MARIENBAD ("L'année dernière à Marienbad")

"O momento supremo da “nouvelle vague” francesa é um dos três ou quatro, dos dois ou três mais intrigantes filmes de toda a História do Cinema. A memória, o ansiado, o temido, o acontecido, o sonhado, ou o que poderia ter sido ou o que será, tudo numa revolução narrativa e num hipnotizante depuramento clássico-expressionista de linguagem que aqui atingiu o inusitado, o inesperado e nunca mais pôde ser superado, continuado ou sequer repetido. A obra que de certa maneira encurralou seu próprio criador Alain Resnais num impasse, pois nem ele, nem outros cineastas mais puderam ir mais além, inovar mais nada. Filme de capital importância, aqui foi originalmente lançado no Cine Coral em novembro de 1962, “reprisado” em setembro de 65 no extinto St. Tropez posteriormente, em mais outra ocasião, se não nos enganamos, no próprio Coral. E ainda, a 6 de setembro de 1973, mais uma vez “reprisado” no Belas Artes-Portinari. Um impacto cinemático sempre a ver."


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 12/06/77.

A FACA NA ÁGUA ("Nóż w wodzie")

"Uma obra fascinante, plena de uma vitalidade criadora nova e diferente, este primeiro – e até agora único – filme polonês de Polanski. No roteiro e diálogos a colaboração de outro polonês de imenso talento – o mesmo Jerzy Skolimowski que depois dirigiria – também como Polanski – primeiro em sua pátria e, logo a seguir no Exterior, duas outras obras-primas: respectivamente “A Barreira” e “O Ato Final”. A grande fita britânica de Polanski – e indubitavelmente uma das maiores de todo o cinema moderno – foi “Armadilha do Destino” (“Cul-de-Sac”). Aqui temos um triângulo mortal: um casal em viagem carregando todo o tipo de incompatibilidades e seu encontro com um jovem, de certo modo um precursor das pragas Beatles e “hippie”. Nesse encontro, um conflito terra a terra em seu deflagrar, mas cruel e premonitório no desencontro e convivência criminosa, uma espécie de símbolo do que logo mais iria assolar a atual sociedade. Um filme sempre digno de admiração e análise este que aqui foi primitivamente lançado no circuito Coral a 6 de dezembro de 1965, posteriormente “reprisado” pelo Cine Bretagne em junho de 1969 e, mais tarde reapresentado em mais de uma ou outra ocasião. Obrigatório."


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 31/07/77.

A DEUSA DE MARMORE, ESCRAVA DO DIABO


"Uma fantasia erótica, com heranças do cinema de “Zé do Caixão” (o próprio está no elenco, no papel de um demônio chamado assim mesmo: Sete Encruzilhada, o que dá ao filme também um indisfarçável elo de “ligação intelectual” com a macumba). Imaginado, produzido (a duras penas), escrito, criado (?), dirigido e hiper “estrelado” pela beleza quadragenária (ou década e meia além), pretendidamente à Jean Harlow ou Marilyn Monroe, que Rosangela Maldonado (a julgar pela aplicação de purpurina em “seta” e trajes) julga que pode ostentar impunemente em 1978. Na história ela é uma deusa de 2.000 anos de idade que “se conserva jovem e sedutora” dando a Zé do Caixão as almas dos inúmeros que ela consegue sugar com o beijo fatal, no “preciso momento” em que os pobres varões “mais estão cedendo à tentação”. Seu Sete, porém, é insaciável e mais almas masculinas exige, sob pena de deixá-la parecer a idade que realmente tem, se ela não lhe fornecer as toneladas do material em demanda. Uma “Ela, A Feiticeira”, “Boca do Lixo”? Ou um tremebundo “kitsch” do mesmo local para ser enviado de presente, com um “mimo” hispano-luso-afro-brasileiro a Betty Friedan? Ou talvez mais um “maravilhoso” filme nacional para ser adquirido de olhos vendados pela distribuidora-exibidora Hawai? Tudo é possível, menos a vitória – ainda que momentânea – da massa cinzenta."


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 19/11/78.


1900, PARTE I (Novecento Atto I)


"Aceitação e concretização de um dos mais ambiciosos projetos do cinema italiano desde a “assunção” determinada internacionalmente pelos PC e “intelectuais” de todo este “snob”, farisaico e incorrigivelmente suicida mundo ocidental. Disposição de enormes custos e recursos de produção. E aqui está o novo filme (5 horas e 20 minutos na versão original, podado em mais de uma hora na versão internacional e aqui além de dividido em 2 partes ainda com cenas que passaram pela tesoura da censura), com elenco milionário (até a legendária Francesca Bertini, a belíssima e fatal “diva” das décadas de dez e vinte) no papel da Sóror Desolata, a irmã de Burt Lancaster. Intenção manifesta: começar com a execução de Mussollini e recuar até o início do século para fazer um mural “analítico” sobre o fascismo. Acontece porém que, ao que nos parece, a visão do fascismo de Bertolucci ainda é também a da “moléstia infantil” que já era pedra na inteligência, no realismo e na lucidez até dos velhos bolcheviques da revolução de outubro. Ademais, Bertolucci tem o “estilo” cinemático de contar em 330 minutos o que poderia fazê-lo até em menos de 160. Contudo, um filme cuidado, caprichado – não tem quase atores italianos, veio dublado em inglês mas tem La Bertini, tem Dominique Sanda, tem Laura Betti, tem Alida Valli – um filme importante, para quem acha que não pode prescindir de nada “que seja tido como importante”."


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 19/11/78.

1900, PARTE 2 (Novecento Atto II)


"Segunda e última parte – a primeira ainda está sendo exibida no Cine Lumiére – do pretendido afresco de Bernardo Bertolucci sobre a Itália, desde a euforia da Unificação no “Ottocento”, passando pela “crise de crescimento” que culminou com a guerra de 14 e posterior ascensão do fascismo, até os dias da II Guerra Mundial e a libertação em 1945. Tudo através da existência e correlações de duas famílias dos agricultores do Vale do Pó, os Berlinghieri (os senhores) e os Daicó (camponeses e servos). Tudo muito ambicioso, muito cuidado, muito custoso, mas não era preciso 5 horas e 20 minutos para o relato, mesmo porque, tal como “O Conformista” já havia demonstrado, a idéia que Bertolucci tem do fascismo é mais a de um semi-abastado jovem de “sinistra” que pôde estudar cinema no famigerado “Centro Sperimentale”, de Roma, do que algo que corresponda à verdade (e quanto a isso, compare-se o que ele apresenta com o que realmente observaram e/ou reconstituíram Vancini em “La Lunga Notte Del 43” e “La Stagioni Del Nostro Amoré”, o Ettore Scola do recente “Um Dia Muito Especial” e até mesmo o onírico, sarcástico e narcísico mas indubitavelmente “conhecedor” Fellini em “Amarcord”)."


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 28/01/79.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

ISTO TAMBÉM ERA HOLLYWOOD ("That's Entertainment, Part 2")


"Oito estréias e duas “reprises” na semana. Cinco das estréias são americanas: “Isto Também era Hollywood”, “Maratona da Morte”, “A Última Loucura de Mel Brooks”, “A Violentada”, “Pelos Meus Direitos”. E as demais são “Polícia Contra Bandoleiros” (japonesa), “Zé Sexy Louco, Muito Louco por Mulher” (nacional) e “A Mariposa da Noite” (argentina). As “reprises” são “Caçada Sádica” (dos EUA) e “O Gladiador Invencível” (italiana).

Há uma fita de John Schlesinger com Laurence Olivier, há a estréia de Margaux Hemingway, há a “última loucura” de Mel Brooks. Mas o mais importante, o mais fascinante é a segunda parte de “That’s Entertainment”. Que traz Judy Garland, ainda menina e logo insubstituível cantora, “show woman”, atriz romântica, satírica, dramática. Que traz Ethel Waters no negro musical “Uma Cabana no Céu”, se bem que não traga os geniais Rex Ingram e Duke Ellington. Que não traz Frances Langford cantando aquele sensacional “Broadway Rhythm” em “Melodia da Broadway de 1936”, mas traz o fundamental e (no Brasil) perseguido produtor Arthur Freed cantando algumas notas de sua composição “Wedding of the Painted Doll”. Que não traz a sensualidade e a força telúrica espanhola do bailado “Niña”, com Gene Kelly, nem as expressionísticas seqüências da hipnose e enforcamento em “O Pirata”, nem ainda a imaginária ópera “Czaritza”, com música de Tschaikowski para Jeannette MacDonald & Nelson Eddy em “Primavera”. Mas traz Greta Garbo, sem John Barrymore, querendo ficar só em “Grand Hotel” e querendo ficar a sós com Melvyn Douglas em “Ninotchka”. Que traz Astaire & Ginger Rogers dançando em “Ciúme, Sinal de Amor”, traz William Powell & Myrna Loy, a maravilhosa Katharine Hepburn de “The Philadelphia Story”, “bits” de Laurel & Hardy, dos Marx & Margaret Dumont, Margaret O’Brien, Kathryn Grayson. E Mickey Rooney, Chevalier, Ann Sothern, Vivien Leigh, Clark Gable, Constance Bennett e tanta gente, e tantos trechos de filmes mais.


ISTO TAMBÉM ERA HOLLYWOOD


Seqüência a “Era uma Vez em Hollywood”, a coletânea de êxito mundial sobre os melhores (no julgamento de seu realizador Jack Haley Jr.) momentos da longa série de musicais (cerca de 200) que os estúdios da Metro produziram entre 1929 e 1958. Mais uma oportunidade para que aqui a crítica repita o medievalismo cometido quando da explosão estilística e renovadora do gênero entre 1943 e 1948 (de “Uma Cabana no Céu” a “O Pirata”). E repita também a falta de malícia ao se deixar apanhar encarando (exatamente como os “big boss” do estúdio teriam achado “produtivo”) apenas como distração, e não como uma antologia, um ensaio onde a criação artística, a seriedade e a montagem cinemática deveriam ter parte preponderante, a película anterior, aparecida em 1973.

No caso atual não houve o agrado esperado. Da crítica estrangeira atenta, conhecedora e responsável, claro. Mas não, como supõe Richard Gertner no “Motion Picture Herald” de 19 de maio último, porque “That’s nº 1” já havia esgotado o estoque, o “creme de la creme” dos “metro-musicais” de todos esses 30 anos. Mas sim porque essa era uma tarefa para ser realizada em conjunto por diretores exponenciais do gênero como Mamoulian, Lubitsch, Minnelli, em cooperação com um cineasta social, sociológico e humano como King Vidor, com talvez o Louis Malle que fez da mítica de Brigitte Bardot um documentário dramático e estético como “Vie Privée”, em colaboração com o Resnais que avançou e recuou no Tempo, na Memória e nas emoções dramáticas, visuais, musicais e de movimento em “Hiroshima” e “Marienbad” e com a perspectiva, também, de um crítico capaz de fazer de suas críticas atos de criação, de admiração, de unção e de humanismo como o inglês Tom Milne ao se debruçar sobre um filme de 44 anos atrás como “O Último Vôo”, a primeira direção americana de William Dieterle.

As omissões, a frieza, a diretriz comercial aqui estão, com certeza. E estará ainda uma apreciação geral, mais dispersiva, frívola e superficial que a que “adorou” “Era uma Vez...” Mas não importa. Porque, muito mais do que a oportunidade que poderiam dar os esforços de uma centena de cine-clubes em 30 anos, haverá a possibilidade, em trechos ao acaso, ao sabor da bilheteria, ao azar da falta de uma verdadeira edição, de uma criteriosa seleção, de uma maravilhosa criação, de se ver ou entrever o que de outra forma seria impossível.

Desde raridades como Jean Harlow em “Mademoiselle Dinamite”, como Bing Crosby cantando “Temptation” para Fifi D’Orsay em “Delírio de Hollywood”, como Judy Garland e Gene Kelly dando uma demonstração única de “Commedia Dell Arte” com o “Be a Clown” de “The Pirate”, como Fred Astaire cantando e dançando o extraordinário “Steppin Out with My Baby” em “Desfile de Páscoa”, até Greta Garbo que, segundo testemunha nosso companheiro Carlos Motta, emudeceu a sessão inaugural do último festival de Cannes quando apareceu dançando “La Chica Chaca”, no seu, à época, tão injustiçado canto de cisne “Two Faced Woman”."


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 19/12/76.