“Já está longe o tempo (como passa!)
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 12/03/78.
Críticas de Rubem Biáfora, selecionadas por Sergio Andrade
“Já está longe o tempo (como passa!)
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 12/03/78.
“Por que se chama “Daniel, o Capanga de Deus” se é livro todo a base de imagens, personagens e episódios (intencionalmente) desconexos, como um Henry Miller diluído (ou “readers digestizado”?) de “Sexus”, “Nexus” ou “Plexus” e bastante “aprés” “la lettre”? E porque desmistificação do cangaço se as fotos expostas nos cinemas (aliás bonitas mas intelectualizadas demais para um filme que claramente avança pelo prestígio televisivo de Regina Duarte, e em dois papéis, o que deve ter sido bastante difícil para a mística caseira da eterna e campônia “jeune fille” utilizada em “Lance Maior” e “Chão Bruto”) sugerem obra muito para delírios de mitomanias eróticas de “ids” masculinos? Aliás, estas reincidências de especularem sobre os nus ou os não-nus de Regina Duarte é um “problema” que só concerne aos dilemas de “pruderie” das “menageres” que se escravizam à obrigação seriada e dulcurosa das telenovelas. Obrigação que de forma alguma pode condizer com a plasticidade tipo John Korty (o diretor húngaro do estranhíssimo “A Corrente da Vida”) que a citada coleção de fotos faz supor. Audácia criativa? Ou confusionismo intencionalmente nacional? De qualquer maneira, a estréia no longo-metragem de um (conhecido? Controvertido?) ex-realizador de curtas publicitários que poderá criar ou desejar polêmica.”
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 22.01.78.
“Comédia erótica e carioca típica de Carlo Mossy. E não podemos incriminar completamente o jovem ator-produtor por não se arriscar ou não empenhar mais, pois quando ele tenta caprichar um pouco (“As Granfinas e o Camelô”) ou mudar de linha (o “sério” e aqui ainda inédito “Ódio”) arca com resultados na bilheteria. Muita coisa está errada – e muito! – no cinema brasileiro e não cabe a ninguém, isoladamente, tentar salvar a pátria.”
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 12.02.78.
"A julgar pelo “trailler” um dos melhores filmes de recente Minnelli (fora, naturalmente, os da fase áurea de “Uma Cabana no Céu”, “Agora Seremos Felizes”, “O Ponteiro da Saudade”, dos trechos de “Ziegfeld Follies”, “O Pirata”) e lembrando muito, como atmosfera, plasticidade e intenções o controvertido (teria sido malogrado mais por causa de Barbra Streisand?) “Num Dia Claro de Verão”. Aqui um pouco da fábula da Gata Borralheira de encontro com uma personagem que tanto pode ser a Estela adulta de “Grandes Esperanças” de Dickens, como a heroína do faulknereano “Uma Rosa Para Emily”, como ainda a velha senhora da “Visita”, de Durrenmatt. A fita foi “rodada” na Europa, melhor falando na Itália, uma Itália imutável, ainda entre o sonho do “Ottocento” e os dias agitados da Via Veneto. Liza Minnelli é a pequena camareira que sonha com o êxito. Ingrid é a velha fada, a grande dama cujo passado é o de um “Kane” ou um “Monsieur Arkadin” de saias. Uma antiga e fabulosa condessa, mas felizmente, sempre Ingrid Bergman. E talvez ótimas oportunidades também para veteranos ou excelências como Charles Boyer, Ferzetti, Nazzari, Anna Proclemer. E, ainda, quem sabe para a linda filha de Ingrid, Isabella Rossellini. A ver, claro."
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 21/05/78.
“Homenagem nostálgica à velha São Paulo do tempo em que ainda havia garoa, ruas escuras, cabarés segundo o modelo francês e uma vida boêmica (não obstante a população ser oito, dez ou doze vezes menor) parecida às das capitais internacionais, como Paris, Budapest, Madrid, Buenos Aires. Ou quase um filme de caráter biográfico? Ou um “hommage” mais à velha e sempre recordada Buenos Aires dos estertores da milonga e da ascenção de Gardel? De qualquer maneira a história de um conquistador à “vieille maniere”, um tanto estranha, um tanto “traduzidamente” chamado Tertuliano Jatobá da Silva, mais nome de jagunço ou cangaceiro do que de contemporâneo de Valentino, Ricardo Cortez, Adolphe Menjou, Paraguassú, Batista Junior. Tertuliano, ou melhor Tézinho é Paulo José, o Rei da Noite, enquanto que Marília Pêra, muito misto de Barbara Streisand e de Dulcina de Morais, é Pupi, a sensação dos “auberges” de Cristal, dos “Moulin Rouge” das antigas ruas Aurora, Sete de Abril ou Amador Bueno. E a atriz de formação circense, Vic Militello, elogiadíssima pela equipe realizadora, faz a esposa predatória e infiel de Tézinho. Aqui o cenógrafo Laonte Klawa poderá ter encontrado ótima oportunidade. A fita lança um novo diretor paulista, na pessoa do rumeno-argentino Hector Babenco, o mesmo que participou de “O Fabuloso Fitipaldi” e que já trabalhou na Sincro Filmes e, ao que parece, também no cinema publicitário. E no elenco suplementar, duas figuras efetivas do cinema de São Paulo: Francisco Curcio e Carlos Bucka, além da beleza loura de Dorothée Marie Bouvier.”
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 09/05/76.
"Um Kurosawa da fase do sarcasmo (“Sanjuro”, “A Fortaleza Escondida”, “Os Homens que Pisaram na Cauda do Tigre”). Interessante, portanto, agora uma revisão e um confronto com o Kurosawa da fase (ou dos filmes, já que tendências e resultados se alternam e até se antagonizam) mais humanista geralmente influenciada pela grande literatura russa de Tolstoi, Dostowievski: “Ralé”, “Hakuchi, o Idiota”, de certo modo sendo licito aqui também incluir “Viver”, “Akahige, o Barba-Ruiva” e o redentor “Dodeskaden, o Caminho da Vida”, obras baseadas em originais ou de outras fontes. Aqui temos a trajetória irônica de um “samurai” de aluguel, espécie de um “wandering hero” ou um “Shane” do oeste americano às avessas. O ator predileto do cineasta, Toshiro Mifune, naturalmente tem o papel titular, o papel principal. Mas os “essenciais” do elenco são outros: Susumu Fujita, Akira Nishimura, Seisaburo Kawazu, os falecidos Eijro Tono, Daisuke Kato, Kyo Sazauka, mais Takashi Shimura, a kabukeana Isuzu Yamada, a lindíssima Yoko Tsukasa. A fita aqui foi originalmente lançada a 10 de novembro de 1962, na sempre lembrada fase japonesa do Cine Scala, hoje, Belas Artes – Centro."
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 13/06/76.
“Combinação de mistério e intriga com corrupção política, ambição, chantagem e outros ingredientes propícios para que o “engagé” Hiromichi Horikawa, antigo discípulo de Kurosawa, dê vazão às suas ferrenhas convicções sobre o que seja proselitismo, crítica social. O mal não é propriamente o engajamento, mas sobretudo a tendência ao “virtuosismo”, aos formalismos e ao exagero, bem como a falta de vibração cinemática do diretor. Na história, político inescrupuloso às vésperas da eleição recorre a ministro do partido contrário, prometendo-lhe virar bandeira em troca de apoio econômico. O ministro entrega vultosa quantia, mas o emissário do político, sabendo que não pode ser processado por roubo, uma vez que o dinheiro está ligado à corrupção e a manobras ilegais, desaparece disposto a realizar seus sonhos e ambições pessoais. Como se depreende, apesar de Horikawa, a impressão é de que a história é muito nossa conhecida. E não só no ambiente da política...No elenco, o grande veterano Fumio Watanabe e, como o enganado ministro, Eitaro Ozawa.”
“Importante realização japonesa de 1955, posterior a “Hakuchi, o Idiota” (que o “Cinema Um” do Rio já trouxe e exibiu mas parece não estar querendo lançar
“Justamente quando deixou de fazer apelações a um sarcasmo e a “utilidades” convenientes à “festiva” (não bem o que anda confessando Yves Montand), pendendo, como era natural e inevitável, para um humanismo bem à Gorki, à peculiaridades legítimas e anímicas de uma silenciosa vivência oriental, Kurosawa caiu em desgraça e isso não deve ter sido só conseqüência do menor êxito comercial do inesperado “Dodes’kaden”. Como soe ocorrer, o isolamento foi tão cruel, a decepção e o estupor foram tão fortes que o cineasta até chegou à tentativa de suicídio. A possibilidade de recuperação veio com esta fita, que os estúdios soviéticos aceitaram co-produzir e que, no dizer da maioria, surge envolta em uma profunda beleza graças ao retrato que faz de um homem solitário e solidário a solidão que ele pressente no mundo. De certo modo, o drama real da existência do guia asiático “Dersu Uzala” tem muitos pontos de contactos com o de outra personagem antológica do cinema japonês, o pescador e vigia de Hokkaido que passou toda sua vida num farol do norte gelado de seu país – papel do grande Hisaya Morishige em “O Homem do Horizonte” o filme também clássico de Seiji Hisamatsu. “Dersu Uzala”, personagem russo que realmente existiu, levado à tela ganhou o “Oscar” de melhor filme de 1976 e agora dará, talvez, novo alento à carreira do cineasta de “Ralé”, “Viver”, “Rashomon” e tantas obras elogiadas e premiadas internacionalmente. A ver, sem dúvida alguma.” Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 02/10/77.
“Masaichi Nagata, era diretor-geral da Daiei, foi o produtor pessoal de “RashoMon” e o artífice maior dos êxitos que aquele estúdio habitualmente obtinha em Cannes, Veneza e Berlim na época que o filme de Kurosawa chamou a atenção do mundo para o cinema que se fazia no Japão. Ironicamente, a Daiei, que era a Metro de lá, além de nunca ter conseguido sala própria nem distribuição corrente, nem mesmo aqui Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 11/03/79.
“O igualmente hiper-elogiado e famosíssimo filme japonês (também maiormente financiado por franceses) com o qual o diretor Nagisa Oshima prossegue na linha exacerbada e audaciosamente erótica e passional de “O Império dos Sentidos”, obra de impacto mundial surgido em 1976 e que naturalmente não chegou a este tíbio e mesquinho mercado cinematográfico. Dois amantes, ele jovem, ela madura, matam o marido importuno afim de mais alucinadamente fruírem seu amor ilícito. Uma história de paixão, sexo, crime e expiação que lembra “Os Contos da Lua Vaga”, de Mizoguchi, “Kwaidan”, de Kobayashi e outras obras-primas do cinema e da literatura nipônica. Audaz, maldito, absolutamente a ver.”
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 26/08/79.
“Já que não podemos rever o clássico “As Cinco Mágicas” (a cópia deve ter deteriorado), nada mais oportuno do que a reapreciação deste também bonito e expressivo filme de Sadao Nakajima, o diretor japonês que se antecipou à moderna voga erótica, mestre inconteste do gênero e, incrivelmente, sem oportunidade de cultuá-lo no atual cinema de seu país. No castelo de Edo, em princípios de 1700, reinado de Ienori Tokugawa, o dramático relato do recrutamento das filhas de samurais e comerciantes para o harém do shogun. Espesinhamento moral e sentimental, medo, rivalidades, cobiça, inveja, luxúria, intrigas, crime. E, entre o intenso e requintado tratamento de direção, encenação, etc., estrelas lindas, de lábios de cereja e pele de pétalas de rosa, como Yoshimo Sakuma, Junko Fuji e atrizes do “kabuki” como Isuzu Yamada e do melhor teatro japonês moderno, como Kyoko Kishida. A fita aqui foi originalmente lançada a 7 de abril de 1968, no mesmo Cine Niterói que a fez recensurar e, previamente, a “reprisou” pouco tempo atrás, para o público da colônia.”
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 28/09/80.
“A cópia provavelmente já esteja avermelhada, insatisfatória (é ainda daquelas, originais, que chegavam do Japão especialmente para o público da colônia). Mas quantas assim – “Zabriskie Point”, “Morangos e Sangue”, “Procura-se um Super Macho” – tivemos e estamos tendo em nosso inefável ambiente pós-ditadura do cinema-novismo, Embra-concine, e caterva? E como se trata de uma raridade (um filme japonês aqui lançado pelo mesmo cinema a 25 de janeiro de 1969, depois de concorrer em Berlim-67 e no mesmo ano ter sido um dos cinco finalistas na disputa ao “Oscar” de melhor película estrangeira) vamos dar-lhe maior atenção que a outros da mesma procedência e que, sem iguais antecedentes, vêm sendo recensurados e reapresentados nos remanescentes cinemas do bairro da Liberdade. O diretor Noboru Nakamura era um dos mais cativantes intimistas do cinema nipônico, era o sucessor de Ozu e Ohba na Shochiku. E entre seus intérpretes centrais, a sensitiva beleza de Shima Iwashita e a força de presença de Tetsuro Tamba, Eiji Okada, Takamaru Sasaki, Tadashi Kato, mais a música do grande Masaru Sato e o incrível apoio ‘técnico-artístico” do estúdio a época.” Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 09/11/80.
"A quinta e última do cíclico que Tomu Uchida realizou para os estúdios Toei de 1961 e que já possibilitou obras do impacto e da expressão artística de “Miyamoto Musashi”, “Duelo de Hannyzaka” e “Duelo de Ichichoji”. Todas, aliás, evoluindo no singular clima de demonismo que é a grande constante, e característica fundamental do estilo do cineasta, um dos maiores que o cinema japonês e o internacional já revelaram em qualquer tempo. A narrativa desta vez prende-se à rivalidade e à obsessão de sangue e de vitória final que domina Musashi (Kinnosuke Nakamura) e o também legendário Kojiro Sasaki (Ken Takakura), espadachim que era considerado o maior da época de ambos. O filme, aqui originalmente lançado no antigo Cine Niterói em 1º de janeiro de 1966, claro, não pode sofrer comparação com nenhuma das rotineiras estréias que estamos tendo. Mas a cópia colorida e há 15 anos guardada é um problema que, se a técnica, a ganância ou a irresponsabilidade atuais não resolverem, toda a produção colorida do cinema irá perder-se irremediavelmente."
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 05/07/81.
"Pobre Yoji Yamada. Tem qualidades de diretor-autor, capacidade de observação humana, de criação de clima, conforme já demonstrou, por exemplo, em “Quando a Primavera Chega Tarde” (“Kazoku”). É o diretor mais bem sucedido comercialmente do atual cinema japonês. E nesse mesmo cinema, antes de produção farta, agora parcimoniosa, é talvez o cineasta que mais trabalha. Tem, porém, de pagar um preço: ater-se quase que exclusivamente aos filmes desta série “Tora San”, o eternamente simplório e casadouro caixeiro-viajante interpretado por Kiyoshi Atsumi. Aqui, o personagem enfrenta o mais inusitado de seus habituais desenganos amorosos, pois começando a se interessar por uma mocinha (Kaori Momoi) acaba na verdade enamorado da mãe da mesma. E esta outra não é senão a veterana Michiyo Kogure, que anda aparecendo maltratada ultimamente, mas tempo já houve que era a mais sedutora mulher de um cinema como o japonês da fase áurea, ao qual, o menos que faltava eram atrizes e figuras femininas das mais belas e envolventes." Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 01/11/81.
"Na última fase áurea do cinema japonês, o “engagé” e então jovem Shohei Imamura era o rei dos estúdios Nikkatsu, autor, entre outras, de obras de antologia como “Meu Irmão Nianchan”, “Todos Porcos”, “A Mulher Inseto”, “O Segredo de uma Esposa”. Agressivo, cru, desmistificador e contundente, Imamura fazia jus ao prestígio. Este é o filme que dele nos aparece após a falência de seu estúdio (hoje reativado para a produção “pornô”). Gira em torno de um lavrador que durante um passeio de barco naufraga e, recolhido por um navio americano, acaba ficando seis anos nos EUA. Ao voltar, não encontra a esposa, que durante a época de crise fora vendida pela família (dela) a uma companhia de artistas ambulantes. Acha-a e quer voltar com ela à America, mas a mulher tem medo e se recusa. Ele, então, torna-se um venal, trabalhando para o clã reinante dos Tokugawa (a época é 1866) e, ao mesmo tempo, para os inimigos do regime, o que o levará à tragédia final. Terá Imamura voltado aos seus melhores dias? A verificar."
"Não obstante Renato Aragão não seja um comediante sofisticado, nem o diretor Tanko ainda esteja disposto a arriscar em filmes elogiados e premiados mas pouco vistos (como “Areias Ardentes” e “A Outra Face do Homem”) a verdade é que esta série de comédias que ambos estão apresentando são das coisas mais limpas e menos nocivas que se fazem atualmente entre nós, em matéria de cinema. Aragão está ganhando em espontaneidade e Tanko sempre é o mesmo “expert” no manejo da imagem, um dos maiores com que contamos. Para o público a que se destina, uma realização nacional justificável.” 
Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 03/10/76.

“Um elogio à empresa Serrador. Esta semana tirou do ineditismo esse caprichado e inquietante “Revólver de Brinquedo”, de há muito reclamado por esta seção. E amanhã lança este filme que, registrado a 4 de dezembro de 75 pelo INC (depois Concine) e depois de participar do festival de Gramado de 76, em junho daquele ano foi lançado no Rio e até agora estava comercialmente encalhado
