domingo, 10 de agosto de 2008

DERSU UZALA

“Justamente quando deixou de fazer apelações a um sarcasmo e a “utilidades” convenientes à “festiva” (não bem o que anda confessando Yves Montand), pendendo, como era natural e inevitável, para um humanismo bem à Gorki, à peculiaridades legítimas e anímicas de uma silenciosa vivência oriental, Kurosawa caiu em desgraça e isso não deve ter sido só conseqüência do menor êxito comercial do inesperado “Dodes’kaden”. Como soe ocorrer, o isolamento foi tão cruel, a decepção e o estupor foram tão fortes que o cineasta até chegou à tentativa de suicídio. A possibilidade de recuperação veio com esta fita, que os estúdios soviéticos aceitaram co-produzir e que, no dizer da maioria, surge envolta em uma profunda beleza graças ao retrato que faz de um homem solitário e solidário a solidão que ele pressente no mundo. De certo modo, o drama real da existência do guia asiático “Dersu Uzala” tem muitos pontos de contactos com o de outra personagem antológica do cinema japonês, o pescador e vigia de Hokkaido que passou toda sua vida num farol do norte gelado de seu país – papel do grande Hisaya Morishige em “O Homem do Horizonte” o filme também clássico de Seiji Hisamatsu. “Dersu Uzala”, personagem russo que realmente existiu, levado à tela ganhou o “Oscar” de melhor filme de 1976 e agora dará, talvez, novo alento à carreira do cineasta de “Ralé”, “Viver”, “Rashomon” e tantas obras elogiadas e premiadas internacionalmente. A ver, sem dúvida alguma.”

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 02/10/77.


DELÍRIO NOTURNO – POSSUÍDA PELO DEMÔNIO (“Keokeimu – Yoba”)

“Masaichi Nagata, era diretor-geral da Daiei, foi o produtor pessoal de “RashoMon” e o artífice maior dos êxitos que aquele estúdio habitualmente obtinha em Cannes, Veneza e Berlim na época que o filme de Kurosawa chamou a atenção do mundo para o cinema que se fazia no Japão. Ironicamente, a Daiei, que era a Metro de lá, além de nunca ter conseguido sala própria nem distribuição corrente, nem mesmo aqui em São Paulo, fechou as suas portas. E esta fita, produzida principalmente por Nagata, é um esforço dele no sentido de tentar reviver os dias de prestigio de seu estúdio. Como filme pode ter sido motivado pelo êxito comercial de “O Exorcista”, mas a história pertence ao mesmo autor do conto original de “Rasho Mon” Ryunosuke Akutagawa, que se suicidou lá pelos anos 30. A protagonista feminina é a mesma, Machiko Kyo, bem como o iluminador Kazuo Miyagawa. A história gira em torno de uma mulher (Machiko) que começa a se deixar envolver pela mania de demônios e bruxedos. O diretor é o engajadíssimo Tadashi Imai de “Até que o Destino nos Uma”, “Torre de Liz”, “Arroz”, “A Trágica Lee Line”, “Juramento de Obediência”, este, aliás, o único dos seus filmes mais elogiados que não contou, no roteiro, com a colaboração da escritora Yoko Mizuki. Ainda no elenco outros atores do último áureo período do cinema nipônico: Kiyshi Kodama, Shinjiro Ebara, Taketoshi Naito, a característica Tanie Kitabayashi, e sobretudo o antológico Rentaro Mikuni. Provavelmente o lançamento mais caracterizado da semana.”

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 11/03/79.

O IMPÉRIO DA PAIXÃO (“Ai no Borei”)

“O igualmente hiper-elogiado e famosíssimo filme japonês (também maiormente financiado por franceses) com o qual o diretor Nagisa Oshima prossegue na linha exacerbada e audaciosamente erótica e passional de “O Império dos Sentidos”, obra de impacto mundial surgido em 1976 e que naturalmente não chegou a este tíbio e mesquinho mercado cinematográfico. Dois amantes, ele jovem, ela madura, matam o marido importuno afim de mais alucinadamente fruírem seu amor ilícito. Uma história de paixão, sexo, crime e expiação que lembra “Os Contos da Lua Vaga”, de Mizoguchi, “Kwaidan”, de Kobayashi e outras obras-primas do cinema e da literatura nipônica. Audaz, maldito, absolutamente a ver.”

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 26/08/79.

O SEGREDO DO CASTELO DE EDO (“Ooku Marohu Monogatari”)

“Já que não podemos rever o clássico “As Cinco Mágicas” (a cópia deve ter deteriorado), nada mais oportuno do que a reapreciação deste também bonito e expressivo filme de Sadao Nakajima, o diretor japonês que se antecipou à moderna voga erótica, mestre inconteste do gênero e, incrivelmente, sem oportunidade de cultuá-lo no atual cinema de seu país. No castelo de Edo, em princípios de 1700, reinado de Ienori Tokugawa, o dramático relato do recrutamento das filhas de samurais e comerciantes para o harém do shogun. Espesinhamento moral e sentimental, medo, rivalidades, cobiça, inveja, luxúria, intrigas, crime. E, entre o intenso e requintado tratamento de direção, encenação, etc., estrelas lindas, de lábios de cereja e pele de pétalas de rosa, como Yoshimo Sakuma, Junko Fuji e atrizes do “kabuki” como Isuzu Yamada e do melhor teatro japonês moderno, como Kyoko Kishida. A fita aqui foi originalmente lançada a 7 de abril de 1968, no mesmo Cine Niterói que a fez recensurar e, previamente, a “reprisou” pouco tempo atrás, para o público da colônia.”

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 28/09/80.


O RETRATO DE CHIEKO (“Chieko Sho”)

“A cópia provavelmente já esteja avermelhada, insatisfatória (é ainda daquelas, originais, que chegavam do Japão especialmente para o público da colônia). Mas quantas assim – “Zabriskie Point”, “Morangos e Sangue”, “Procura-se um Super Macho” – tivemos e estamos tendo em nosso inefável ambiente pós-ditadura do cinema-novismo, Embra-concine, e caterva? E como se trata de uma raridade (um filme japonês aqui lançado pelo mesmo cinema a 25 de janeiro de 1969, depois de concorrer em Berlim-67 e no mesmo ano ter sido um dos cinco finalistas na disputa ao “Oscar” de melhor película estrangeira) vamos dar-lhe maior atenção que a outros da mesma procedência e que, sem iguais antecedentes, vêm sendo recensurados e reapresentados nos remanescentes cinemas do bairro da Liberdade. O diretor Noboru Nakamura era um dos mais cativantes intimistas do cinema nipônico, era o sucessor de Ozu e Ohba na Shochiku. E entre seus intérpretes centrais, a sensitiva beleza de Shima Iwashita e a força de presença de Tetsuro Tamba, Eiji Okada, Takamaru Sasaki, Tadashi Kato, mais a música do grande Masaru Sato e o incrível apoio ‘técnico-artístico” do estúdio a época.”

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 09/11/80.

MIYAMOTO MUSASHI, DUELO NA ILHA DE GANRYU (“Miyamoto Musashi – Ganryujima no Ketto”)

"A quinta e última do cíclico que Tomu Uchida realizou para os estúdios Toei de 1961 e que já possibilitou obras do impacto e da expressão artística de “Miyamoto Musashi”, “Duelo de Hannyzaka” e “Duelo de Ichichoji”. Todas, aliás, evoluindo no singular clima de demonismo que é a grande constante, e característica fundamental do estilo do cineasta, um dos maiores que o cinema japonês e o internacional já revelaram em qualquer tempo. A narrativa desta vez prende-se à rivalidade e à obsessão de sangue e de vitória final que domina Musashi (Kinnosuke Nakamura) e o também legendário Kojiro Sasaki (Ken Takakura), espadachim que era considerado o maior da época de ambos. O filme, aqui originalmente lançado no antigo Cine Niterói em 1º de janeiro de 1966, claro, não pode sofrer comparação com nenhuma das rotineiras estréias que estamos tendo. Mas a cópia colorida e há 15 anos guardada é um problema que, se a técnica, a ganância ou a irresponsabilidade atuais não resolverem, toda a produção colorida do cinema irá perder-se irremediavelmente."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 05/07/81.

É TRISTE SER HOMEM, 23ª. ÉPOCA (“Otoko Wa Tsurayo – Tonderu Torajiro”)

"Pobre Yoji Yamada. Tem qualidades de diretor-autor, capacidade de observação humana, de criação de clima, conforme já demonstrou, por exemplo, em “Quando a Primavera Chega Tarde” (“Kazoku”). É o diretor mais bem sucedido comercialmente do atual cinema japonês. E nesse mesmo cinema, antes de produção farta, agora parcimoniosa, é talvez o cineasta que mais trabalha. Tem, porém, de pagar um preço: ater-se quase que exclusivamente aos filmes desta série “Tora San”, o eternamente simplório e casadouro caixeiro-viajante interpretado por Kiyoshi Atsumi. Aqui, o personagem enfrenta o mais inusitado de seus habituais desenganos amorosos, pois começando a se interessar por uma mocinha (Kaori Momoi) acaba na verdade enamorado da mãe da mesma. E esta outra não é senão a veterana Michiyo Kogure, que anda aparecendo maltratada ultimamente, mas tempo já houve que era a mais sedutora mulher de um cinema como o japonês da fase áurea, ao qual, o menos que faltava eram atrizes e figuras femininas das mais belas e envolventes."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 01/11/81.

ACONTECEU NO FIM DE TOKUGAWA (“Eejanaika”)

"Na última fase áurea do cinema japonês, o “engagé” e então jovem Shohei Imamura era o rei dos estúdios Nikkatsu, autor, entre outras, de obras de antologia como “Meu Irmão Nianchan”, “Todos Porcos”, “A Mulher Inseto”, “O Segredo de uma Esposa”. Agressivo, cru, desmistificador e contundente, Imamura fazia jus ao prestígio. Este é o filme que dele nos aparece após a falência de seu estúdio (hoje reativado para a produção “pornô”). Gira em torno de um lavrador que durante um passeio de barco naufraga e, recolhido por um navio americano, acaba ficando seis anos nos EUA. Ao voltar, não encontra a esposa, que durante a época de crise fora vendida pela família (dela) a uma companhia de artistas ambulantes. Acha-a e quer voltar com ela à America, mas a mulher tem medo e se recusa. Ele, então, torna-se um venal, trabalhando para o clã reinante dos Tokugawa (a época é 1866) e, ao mesmo tempo, para os inimigos do regime, o que o levará à tragédia final. Terá Imamura voltado aos seus melhores dias? A verificar."

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 26/12/82.

terça-feira, 1 de julho de 2008

SINBAD, O MARUJO TRAPALHÃO

"Não obstante Renato Aragão não seja um comediante sofisticado, nem o diretor Tanko ainda esteja disposto a arriscar em filmes elogiados e premiados mas pouco vistos (como “Areias Ardentes” e “A Outra Face do Homem”) a verdade é que esta série de comédias que ambos estão apresentando são das coisas mais limpas e menos nocivas que se fazem atualmente entre nós, em matéria de cinema. Aragão está ganhando em espontaneidade e Tanko sempre é o mesmo “expert” no manejo da imagem, um dos maiores com que contamos. Para o público a que se destina, uma realização nacional justificável.”

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 27/06/76.


NINA 1940, CRÔNICA DE UM AMOR ("Le petit matin")


"O segundo filme que aqui nos chega do ítalo-francês Jean-Gabriel Albicocco. O primeiro, aliás a obra de estréia, foi “A Garota dos Olhos de Ouro”, com a sua então esposa, a belíssima Marie Laforet e a “charmante” Françoise Prevost. Era uma estranhíssima, uma quase sutil intriga de amor hetero-sexual e de lesbianismo, baseada em original de Balzac, transposta para a época moderna e com imagens belíssimas, assinadas pelo pai do cineasta, o famoso iluminador Quinto Albicocco. Aqui a ação se passa ao tempo da ocupação nazista e narra o conflito que surge em uma família de ricos proprietários de província quando a filha caçula se apaixona por um oficial alemão. O diabo é que este papel provavelmente ficou a cargo do esquisito e ineficiente Mathieu Carriére. Mas nos dois papéis característicos mais importantes estão intérpretes como a veterana Madeleine Robinson e o celebrado Jean Villar. Outra credencial, esta de roteiro: a participação de Pierre Kast, o cineasta que só quando começa a circular e a atuar nas dissolventes rodinhas “intelectuais” do Rio ou “folclóricas” de Salvador é que perde o brilhantismo revelado em fitas como “La Mort – Saison des Amours”, “Merci, Natercia” ou “La Brullure de Mille Soleils”.

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 03/10/76.


AS AVENTURAS AMOROSAS DE UM PADEIRO


“Um elogio à empresa Serrador. Esta semana tirou do ineditismo esse caprichado e inquietante “Revólver de Brinquedo”, de há muito reclamado por esta seção. E amanhã lança este filme que, registrado a 4 de dezembro de 75 pelo INC (depois Concine) e depois de participar do festival de Gramado de 76, em junho daquele ano foi lançado no Rio e até agora estava comercialmente encalhado em São Paulo, tanto que até temíamos que seu prazo de censura vencesse e nosso público jamais o pudesse ver. Marca a estréia no longa-metragem do ator Waldir Onofre, o primeiro diretor negro de nosso cinema. Trata-se quase de uma farsa, num tom cômico então inédito em nossos filmes. Esposa insatisfeita decide estudar; as novas colegas então põem-lhe na cabeça idéias de “liberação” e ela arranja um amante padeiro (Pereio) e depois, o troca por um crioulo (Haroldo de Oliveira). O português, então, despeitado denuncia ao marido e um flagrante é preparado. Mas ninguém conta com o que na época poderia passar como uma idéia inovadora do amante. Parece que a atriz Maria do Rosário enxergou em seu papel aso para a causa “Women’s Lib” e calcou a mão. A verificar.”

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 24/02/80.

A CLASSE OPERÁRIA VAI PARA O PARAÍSO ("La classe operaia va in paradiso")


“Filme que Elio Petri realizou logo em seguida ao seu êxito com “Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita” e Gian Maria Volonté, também sempre esplêndido ator, logo depois daquele e quase junto com outro triunfo do cinema de discussão política – “O Caso Mattei”, de Francesco Rosi. É a história de um operário e líder sindical, cujo pensamento e ação direta são encarados em seu ambiente – patrões e colegas – de várias formas, conforme mudam as circunstâncias. O herói, Massa, também tem interferência de outras ordens em seus momentos, tanto de coragem como de vacilação, até que um acidente em serviço – a perda de um dedo – faz com que tudo, em alguma coisa se aclare e noutras, fique mais complicado – exatamente como acontece na vida real. A fita aqui foi originalmente lançada a 19 de março de 1973, nos cines Metrópole, Paissandú-Império, Belas Artes – Portinari e Vila Rica. É obra importante e bem-vinda, mas achamos um pouco exagerado o circuito (cinco salas) que a empresa Haway lhe destinou no centro.”

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 11/05/80.

EMMANUELLE, A VERDADEIRA (“Emmanuelle”)


"O famosíssimo filme do ex-fotógrafo, elemento de televisão e cinema publicitário que lançou ou mais contribuiu para firmar a voga erótica, ou simplesmente pornográfica, no cinema atual (os experimentos de Mekas, Andy Warhol, etc., ficaram no experimentalismo e nas “caves” ou auditórios limitados ou “especializados”). E o filme que lançou a holandesa Sylvia Kristel no estrelato internacional. Na história, derivada de livro de autora que se mantém no mistério ou incógnita, Sylvia é a esposa de um diplomata que lhe concede direitos iguais em matéria de liberdade extra-conjugal. E ela, chegando à Tailândia, vê-se totalmente “envolvida” por essa liberdade. Em todos os pontos de vista. A fita motivou mais duas continuações e uma infinidade de imitações e até apropriações indébitas de personagem (ou melhor, de só seu nome) mas esta é realmente a original, a verdadeira. Só esperamos que seja melhor do que o que já conhecemos do referido e discutível “surto”, talvez até esperando mesmo que esteja para o gênero como “Quem é Polly Magoo?” “Qui Etes Vous Polly Magoo?”, do americano William Klein, esteve para a sofisticação e insólito em matéria de filme sobre manequins, publicidade e Moda. Será esperar muito? E o estado das cópias?”

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 11/05/80.






O HOMEM DE FERRO ("Czlowiek z Zelaza")


“Wajda já teve seus pecados. O celebrado “Cinzas e Diamantes” (“Popiol I Diament”), que revelou o simples, cordial, inteligente e simpaticíssimo (em pessoa) mas muito “Actor’s Studio” (em cena) Zbigniev Cybulski, em verdade era muito obra para aquele vagamente sonhador tipo de stalinismo que hoje (só hoje?) cobra um preço feroz da humanidade e faz o mundo passar um século de verdadeira regressão e essencial tortura. É fato que, depois, em 1961, com “Sansão, a Força contra o Ódio”, a melhor fita que o cinema produziu até hoje sobre o sofrimento judeu, Wajda já se redimiria das ilusões de seu virtuosístico e superestimado filme de 1958. Mas nesta fase que começa em 74 ou 73, com os aqui já vistos “A Terra Prometida” e “O Homem de Mármore”, o cinema deste realizador torna-se menos de regozijo ingênuo e mais premonitório, mais antecipador, mais sensível à situação insuportável que a balela soviética criaria para a sua heróica terra e seu indomável povo. Em agosto de 1980, um venal é enviado aos estaleiros de Gdansk para recolher “material informativo” que permita desacreditar os líderes da greve que está sendo levada a efeito. A fita por pouco não poderia ser exibida entre nós. É que sua cópia chegou antes que o governo títere e Quisling de Jaruzelski mandasse interditar sua exportação. Nela, numa seqüência, como padrinho de um casamento, aparecem o próprio Lech Walesa e a lutadora Anna Walentynowicz. E constitui, como é natural, não uma quase certa promessa de bom cinema, mas também uma atração indiscutível, um dos grandes eventos da temporada. Obrigatória.”

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 04/04/82.

domingo, 1 de junho de 2008

DELITO DE AMOR ("Delitto d’Amore")

“História de amor entre um operário de Milão (infelizmente Giuliano Gemma) e uma sua colega de fábrica, Carmella (a espontânea Stefania Sandrelli), moça vinda do Sul e sufocada pelos preconceitos, pelas típicas obrigações de honra e dignidade da gente de sua região. Apesar dos percalços e da vigilância do irmão da moça, o amor vence e ambos se casam. Mas como em “Amor até a Eternidade” do japonês Eisuke Takizawa ou como “Love Story” americano com Ryan O’Neal e Ali McGraw, o Destino, a doença ou a miséria cobram o seu tributo, num desfecho que seria melodramático caso o autor Pirro e o co-roteirista e diretor Comencini não lhe dessem um adendo que o leva para um estranho tipo de contestação ou fatalismo, à maneira de Giovanni Verga ou de Grazia Deledda. A fita não foi muito bem recebida pela crítica italiana engajada, menos ainda pelo ainda mais metido e engajado (ainda que cada vez mais outro) júri de Cannes. Acontece porém que depois a engajadíssima equipe da revista “Écran” resolveu redescobrir e apoiar Luigi Comencini, o mesmo de quem a última fita aqui vista foi “Quando o Amor é Cruel” (“L’Incompresso”), ainda na inicial “fase de arte” do “Marachá-Augusta” e colocou este “Delitto d’Amore” em grande gala. Menos por isso do que pelas virtudes e delicadeza de “L’Incompresso”, mais um filme italiano a analisar com atenção.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 03/10/76.

O SENHOR DOS ANÉIS ("The Lord of the Rings")

“Mais uma vez o nosso inefável ambiente cinematográfico e “cultural” reitera-se o paraíso dos conhecimentos incompletos e das perspectivas deformadas. Quase todos os grandes centros viram, mas aqui ninguém se atreveu sequer a pensar em “Fritz, the Cat”, o celebrado primeiro desenho animado erótico a ser entregue ao público corrente. Mas chega-nos agora este “O Senhor dos Anéis”, cujo diretor é precisamente o mesmo do mesmo não proibido nem liberado “Fritz”. Desta vez, porém, a história tem outro tom, lembrando um misto da saga dos Niebelungos e o disneyano “A Espada era a Lei” do tempo do rei Arthur, o mago Merlin e a Espada Milagrosa. A ação começa no centro da Terra, lugar habitado por magos, feiticeiros, anões e outras figuras fantásticas e gira principalmente em torno do anel cuja posse daria todos os poderes a seu dono, inclusive o da invisibilidade. Parece que a inovação deste desenho foi ter sido primeiro filmado com atores e depois, sobre o movimento real dos mesmos, desenhadas as figuras animadas, captando-lhes movimentos e expressões. Críticos houve que fizeram restrições – algumas fortes – mas a curiosidade e o inusitado da experiência merecem verificação.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 27/01/80.

EMMANUELLE, PRIVILÉGIO DE POUCOS (“René la Canne”)

"Parece que ouvimos ou lemos em algum lugar que a censura ou um seu chamado “Conselho Superior” não mais iria permitir que se fizesse sensacionalismo ou deturpações na tradução nacional dos títulos de filmes estrangeiros. Mas temos visto, lido e ouvido tanta coisa...Aqui, por exemplo, Sylvia Kristel está no elenco mas seu papel é o terceiro e ela na história é uma holandesa que se chama Krista. Os personagens centrais, aliás, são os masculinos vividos por Gerard Depardieu e por esse Michel Piccoli que levando-se em conta o que vem criando de próprio e a carreira que vem tendo nos cinemas francês e italiano, podemos quase com certeza considerar o ator número um do cinema atual. O personagem de Depardieu, René Bordier, chamado La Canne, realmente existiu e foi um alegre vigarista que agiu na França ocupada de 1942. O corretíssimo Piccoli aqui faz o “flic”, o “tira” que quase inverte seu papel com o malandro. Krista, apesar de sua educação burguesa, não exita em participar das tramas ilícitas dos dois inimigos amistosos. O diretor Girod, o mesmo que estreou com “O Trio Infernal” (e era mesmo, tendo Piccoli entre Romy Schneider e Andréa Ferreol) procurou um clima inusitado de aventura, perigo e cinismo que poderá ter feito desta a fita mais interessante da semana.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 23/03/80.

A DEUSA NEGRA ("Black Goddess”)

"Misteriosa – ou nem tanto? co-produção com a Nigéria, dirigida, entretanto, por um elemento digno e respeitável como Ola Balogum. O diabo é que a influência do “cinema novismo”, ou da ânsia de folclore turístico, que são um dos muitos estigmas do cinema brasileiro, podem ter atrapalhado o cineasta africano, que tem tanto direito de fazer cinema entre nós como o tem o italiano Michelangelo Antonioni (que aliás queria e em 1969 até nos falou disso) ou o sueco Arne Sucksdorff, que aliás já vive há mais de dez anos aqui (em Mato Grosso, para sermos mais precisos), com filho nascido lá e que continua ignorado por toda a “genialidade” do uísque e do “gangsterismo” que pulula em nosso inefável ambiente cinematográfico – “cultural”, subserviente a Moscou e a quanto “bezerro de ouro” apareça na praça. Na história, um africano (Jorge Coutinho) vem ao Brasil visitar parentes e, logo, à procura de suas raízes – aqui? – vai consultar uma “mãe-de-santo” e vive então uma história de metempsicoses e avanços e recuos no tempo e no espaço, com troca, revivescência, reencarnações ou mutações psíquicas ou sociais de personagens, algo assim como “Magus, o Falso Deus”, de Guy Green ou mesmo o paulista e “maldito” “O Longo Caminho da Morte”, de Julio Calasso. A fita aqui esteve anunciada para a sexta-feira anterior, mas só anteontem é que foi lançada.”


Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de
01/06/80.

A FORÇA DOS SENTIDOS

"A mesma complexidade de fabulação ou narrativa tem esta fita. Mas no caso os óbices não vêm do Rio, da exploração pseudo-africana ou dos vícios que, não muito estranhamente, combinam Cinelândia, praças Tiradentes e Mauá e canal do Mangue com o surfe ipanemal e a “elite” que freqüenta os “Antonio’s”. Os óbices desta vez são muito paulistas e lembram o nível intelectual, ético e político do pessepismo, de permeio com a pornogrossura, a rarefação, a “voga” pornô e a “vontade de stalinismo” da rua do Triunfo. Escritor de novelas fantásticas (hoje, e em nossos arredores?) descobre praia idêntica à imaginada em um seu romance e lá encontra estranha moça surda-muda que se transmuta em todas as mulheres que ele ali vai possuindo, com uma destreza que só o gênero e a “boca” explicam. A moça é Aldine Muller, que estranhamente ficaria melhor em papéis mais “fraternais” e recatados. Também no elenco, a austro-carioca Ana Maria Kreisler e a japonesinha Misaki Tanaka. O diretor Garrett vem de três ou quatro grandes êxitos comerciais no estilo e seria bom se voltasse à sua melhor forma de “Excitação”.”

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 01/06/80.

LUZ DEL FUEGO


““A Embrafilme não produz, não financia, nem se associa a pornochanchadas” – essa é uma saída muito hábil, como todas que sempre se arranjam neste país, onde quase nunca o cinema deixou de ser a falta de auto-estima e de planificação séria e conseqüente. Aqui em São Paulo, como sempre o desbragado populismo (a la antigo Partido Social Progessista) até que é mais bobo e mais inócuo, porque não tem (ou não pode ter) sequer a esperteza de usar celofane, literatura ou rosselinismos como “Eu Te Amo”, “A Dama do Lotação”, “Dona Flor”, “Sete Gatinhos”, “Iracema, Uma Transa Amazônica”, e por aí. Ademais, sexo ou erotismo puro não excluem a observação humana, a qualidade artística, o valor estético (e muita obra metida a social ou combativa pode ser, na realidade, bem mais pornográfica porque pervertedora). Só que é preciso haver quem faça por um motivo de criação e estilo e não para “faturar” ou só tapear. A que tipo pertencerá esta carreira mais “Praça Tiradentes” do que precursora de contestação feminista de “Luz del Fuego”, que David Neves realizou com todo o aval da “Embra” e “inteligentzia” carioca? E será que o papel era mesmo para a magrinha Lucélia Santos ou mais para a pesadona Mara Prado, aliás paulistas ambas?”

Publicado originalmente no "O Estado de S. Paulo" de 04/04/82.